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      InícioDesportoAres serranos de Arganil dão nova vida a Alexandre Matos  

      Ares serranos de Arganil dão nova vida a Alexandre Matos  

      De defesa a avançado, já experimentou de tudo um pouco. O futebolista Alexandre Matos está, aos 26 anos, a defender as cores verde e branca da Associação Atlética de Arganil, um clube fundado em 1937. Em cinco jogos já marcou sete golos, muitos deles decisivos, inclusive dois contra o Lousanense, um clube com alguns pergaminhos no futebol português que nos anos de 1980 esteve perto de poder chegar à 1.ª divisão nacional. O internacional por Macau acredita no seu potencial e tem intenções de chegar aos campeonatos profissionais nos próximos anos. “Sou como uma colheita tardia”, observou em jeito de brincadeira.

      Filho de peixe sabe nadar. Alexandre Matos é filho do ex-futebolista Paulo Conde, um angolano que fez formação no Sporting Clube de Portugal e que ainda passou pelas reservas do Vitória de Guimarães, Estrela da Amadora, Sacavenense, entre outros. Aos 26 anos, evolui em Arganil, uma vila beirã serrana que o recebeu de braços abertos e onde, em apenas cinco jogos, já marcou sete golos. Numa breve conversa telefónica com o PONTO FINAL, Alexandre Matos, que deixou Macau há três anos para prosseguir o sonho de menino, assume que Arganil lhe está a fazer “muito bem”, onde recebe “uma moral que já não recebia há muito tempo”. Internacional por Macau, jogou no Windsor Arch Ka I, onde, em 2012, chegou a ser campeão da Liga de Elite com apenas 17 anos. Passou ainda pelo Lam Ieng, pelo Chao Pak Kei e pelo Sporting de Macau, antes de, em 2019, abraçar o projecto do Atlético do Cacém, já em terras lusas. Em Portugal, já defendeu também as cores do Serpa e do Sporting de Viana, no Alentejo. Passou pelo Graciosa FC, nos Açores, e foi até Trás-os-Montes vestir o manto do Rebordelo, onde marcou cinco golos em nove jogos, numa época marcada pela pandemia de Covid-19, mas que prometia ser de arromba. Começou esta temporada em Oleiros com a camisola do Águias de Moradal, mas foi em Arganil que se voltou a encontrar com o jogo e com os golos.

       

      Como lhe está a correr a aventura em Portugal?

      A aventura, agora, está a correr excelentemente. Cinco jogos e sete golos, só pode estar a correr bem. No início foi muito difícil. Passei mal com muitas dificuldades, dentro e fora de campo. Muitas tristezas, muitas lágrimas. É o percurso que faz parte do futebol. É impossível não seguir esta caminhada e não passares por coisas assim. Em Macau, não passei tanto como passei aqui. Estive em Inglaterra dois anos, mas penso que em Portugal foi um impacto muito grande e fez-me crescer muito. Amadureci muito. Com o nascimento da minha filha, acabei por meter a cabeça no lugar, ser mais objectivo. É mais uma motivação e mais uma responsabilidade. Depois de alguns altos e baixos, está a correr bem.

       

      Em cinco jogos pelo Arganil e já marcou sete golos. Fazem-lhe bem os ares da serra?

      É muito bom. É sempre bom ter mais golos do que jogos. O Arganil é uma equipa muito jovem com muita qualidade. Há alguns jogadores brasileiros, muitos deles com boas bases de formação lá no Brasil. Dentro de campo facilitam e metem bem a bola. Tudo isso ajuda a que faça muitos e bons golos. Porque o futebol é isso mesmo. Temos de estar bem no colectivo. Posso dizer que os ares daqui da serra estão a fazer-me muito bem. Respira-se bem e corre tudo bem.

       

      Começou a época desportiva no Águias do Moradal, em Oleiros, mas acabou por ingressar no Arganil. O que aconteceu?

      Fiz a pré-epoca toda com eles. Não foi a minha melhor pré-época, confesso, mas dei continuidade ao meu trabalho. Joguei o primeiro jogo da época na Taça de Portugal contra o Estarreja e ainda fui convocado para um jogo da Taça Distrital contra o Proença-a-Nova no qual não fui utilizado. A razão da mudança foi porque surgiu uma solução melhor para mim. Neste momento está a fazer-me bem, estar aqui na serra e penso que foi uma boa mudança. São coisas do futebol. Nunca me faltou nada no Águias, mas agora o que interessa é que estou feliz no Arganil.

       

      Aos 26 anos, que mais se pode esperar para a carreira?

      Estou a trabalhar, desde há um ano e quatro meses, com uma agência de jogadores, a JN Agents, que tem muitos jogadores no Campeonato Nacional e na III Liga. É uma agência que trabalha bem e não olha para as idades dos jogadores. Claro que se fosse mais velho teria menos margem de progressão, e a agência dá-me muita moral. O futebol são dois dias. Tenho 26 anos, mas sonho igual a uma criança. Trabalho e tenho a mentalidade do meu pai. Continuo a acreditar e as coisas devem acontecer um dia. O meu sonho continua, naturalmente, a ser o de um dia chegar aos campeonatos profissionais. Tenho de levar as coisas um dia de cada vez. Tenho de continuar a trabalhar. Pode ser que seja um profissional que apareceu numa idade adiantada. Sou como uma colheita tardia.

       

      Por isso, ainda acalenta chegar aos campeonatos profissionais?

      Quero muito. Há poucos dias tive uma chamada de um agente que está muito contente com o trabalho que tenho vindo a desenvolver e os golos marcados. Se continuar assim, é muito provável que a minha vida possa dar um salto. Pode até ser para uma III Liga, não tem que ser necessariamente o Campeonato de Portugal. Os golos é que fazem um avançado e eu tenho a meta de marcar mais de 20 golos no campeonato. Vou deixar as coisas fluírem naturalmente.

       

      Como vê à distância o futebol de Macau?

      Acompanho quando posso. Vejo mais pelo Facebook, pois é onde aparecem alguns resumos. É um futebol pelo qual tenho muito carinho. Representei a selecção algumas vezes. Não sou o tipo de pessoa que esquece de onde vem. Macau está sempre no meu coração.

       

      O grande adversário do Arganil para chegar até aos nacionais parece ser o Pampilhosense. Vai ser possível ao Arganil chegar aos campeonatos nacionais, onde a vila esteve representada há muitos anos com o Grupo Desportivo Argus?

      O Pampilhosense está em primeiro. Nós estamos a oito pontos ou a nove. O meu jogo de estreia foi contra eles e perdemos 2-1. É uma equipa forte e muito competitiva. Uma equipa com bom orçamento. A minha equipa tem vindo a crescer muito. Há aqui muitos jogadores novos, principalmente os brasileiros, que também têm ambições de subir aos campeonatos profissionais. Estamos na luta para entrarmos na fase do apuramento de campeão que dá acesso ao Campeonato de Portugal, por isso temos de manter o bom ritmo. Temos ambição.

       

      Teve, recentemente, uma palavra a dizer na vitória de 6-1 contra o histórico Lousanense. A equipa da Lousã está de fora da corrida?

      O jogo contra o Lousanense foi um dos meus melhores jogos. Colectivamente, a equipa esteve muito bem e isso viu-se no resultado, sempre a respeitar o adversário, até porque sabemos a história do clube e a claque que eles trouxeram, foi muito bonito. Posso dizer que se vê pouco nas distritais. Foi um jogo duro até ao fim. Penso que pela história que o Lousanense tem, ainda não está fora da corrida. Falta uma volta e tudo pode acontecer.

       

      Tem sido primordial no plantel com muitos golos, alguns deles decisivos já nos finais dos jogos. A massa associativa e a direcção devem estar radiantes consigo.

      Tem sido realmente muito bom. Aqui tratam-me muito bem. Eu vou a um café e o pessoal da terrinha conhece-me todo. É muito engraçado e gratificante. Já me oferecem cafés. Há quem diga: “Se marcares um golo dou-te cinco euros” [risos]. É muito bom, não vou mentir. Dá-me muita motivação para continuar a marcar golos. Eles são a minha família fora de casa e, por isso, vou dar tudo por eles em campo. Espero continuar a receber o reconhecimento pelo trabalho. Os golos não aparecem por caso. Tenho colegas de equipa que me ajudam muito, e a eles agradeço. O que tenho vivido aqui em Arganil não tem acontecido muito ao longo da minha carreira. Este ano estou a receber uma moral que já não recebia há muito tempo e está a saber-me muito bem. Agora só penso em jogar e não penso em mais nada.

       

      Uma palavra final aos jovens jogadores de Macau e a quem segue a sua carreira.

      Gostaria de deixar umas palavras para a juventude aí de Macau que eu sei que tem muito potencial. E a minha irmã incluída que eu também sei que tem o mesmo sonho que eu. Em Macau há potencial e eu acredito que possam vir para cá e tentarem a vossa sorte. Mas atenção, em Portugal a realidade é muito distinta. Há muita competitividade, mas quem tiver vontade e quiser trabalhar pode chegar longe, como é o caso do Nuno Pereira que está no Leça ou o guarda-redes Wa Si Lei que, penso, está em Espanha agora. Quando a selecção quiser estou sempre disposto a representar a selecção de Macau, a minha querida selecção.