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      InícioSociedadeAbelha da China: uma colmeia de ideias que faz 200 anos

      Abelha da China: uma colmeia de ideias que faz 200 anos

      A edição inaugural do primeiro jornal publicado em Macau cumpre hoje dois séculos. A Abelha da China é o espelho de uma época de tensões políticas e um passo importante na conquista de alguma liberdade de expressão no território, defendem estudiosos. Em Lisboa, a data assinala-se com conferências e o lançamento de um livro no Centro Científico e Cultural de Macau.

      Em Macau, há 200 anos como agora, laboriosos escribas alinhavavam frases que encheriam páginas em língua portuguesa. À data, esses textos destinavam-se à edição inaugural de A Abelha da China, primeiro periódico em português a ser publicado no território.

      A Abelha da China nasce então de 12 de Setembro de 1822 e procede a Gazeta de Goa, começada a publicar em Dezembro de 1821. O jornal de Macau “seria não somente o primeiro jornal tipografado pela máquina de Gutenberg em Macau mas em toda a China”, aponta João Alves das Neves na obra “A imprensa de Macau e as imprensas de língua portuguesa no Oriente”. O periódico, que custava 100 réis, teve vida curta, estendeu-se por 67 números e publicou-se até Dezembro de 1823. Pelo meio, aconteceram “uma série de peripécias político-militares que envolveram, de um lado, os liberais e, do outro, os absolutistas”, nota Alves das Neves no livro publicado pelo Instituto Cultural de Macau em 1999. O “principal mentor” de A Abelha da China foi o tenente-coronel Paulino da Silva Barbosa, tendo como editor o vigário do Convento de S. Domingos, Fr. António de São Gonçalo de Amarante. “O tenente-coronel Silva Barbosa, nascido no Brasil, era o chefe do Partido Constitucional em Macau e Fr. António também se destacou pelo fervor ao liberalismo”, adita Alves das Neves.

       

      O ABC DA LIBERDADE

       

      Quando o investigador Daniel Pires começou a pesquisar sobre os primórdios da imprensa periódica em Macau, houve desde logo algo que o surpreendeu em A Abelha da China: “Impressionou-me vivamente a mobilização geral dos habitantes de Macau para a implementação dos ideais democráticos que constavam da recém-elaborada Constituição [portuguesa] de 1822. A concretização das leis que dela constavam foi dramática porque pressupôs uma luta acesa entre os apologistas da Revolução Liberal [de 1820 no Porto] e os partidários do Antigo Regime, designadamente o ouvidor Miguel de Arriaga. De louvar ainda a atitude pedagógica e democrática dos primeiros, mesmo depois de vencerem as eleições para a direcção de Leal Senado”, refere ao PONTO FINAL o autor de “Dicionário Cronológico da Imprensa de Macau do Século XIX (1822-2900).

      A Abelha da China funcionou como “porta-voz de uma tentativa, por parte do Leal Senado, de recuperar todas as prerrogativas governamentais que perdera anos antes. Foi ainda ‘o grito do Ipiranga’ relativamente ao todo-poderoso ouvidor Miguel de Arriaga, que alternava uma gestão política de mérito com a repressão daqueles que discordavam da sua praxis”, aponta Daniel Pires.

      As lutas políticas que se travavam à época, e outros aspectos que marcavam o Portugal e a Macau da época, estão bem patentes em muitos artigos do jornal que tinha normalmente quatro páginas e formato 35×25 – existe uma edição fac-similada editada pelo Centro de Publicações da Universidade de Macau e a Fundação Macau. Revisitando hoje esses textos, é possível aprender uma série de coisas, considera Pires: “Em primeiro lugar, que é muito legítimo lutar por ideais que se prendem directamente com direitos humanos inalienáveis. Em segundo lugar, que, apesar dos ventos ciclónicos contrários que se fizeram sentir com a repressão desencadeada pelo vice-rei de Goa, enviando uma fragata [Salamandra] armada até aos dentes para suprimir um regime democraticamente eleito, foram disseminadas sementes que floresceram mais tarde. Em terceiro lugar, a forma paradigmática como A Abelha da China fez jornalismo, conciliando, de modo isento, a informação e a formação dos leitores”.

      O regime liberal instituído em Macau em Agosto de 1922 “pôs directamente em causa” o poder do governador da Índia, de quem Macau dependia politicamente, lembra Daniel Pires. “Tratou-se de um confronto entre interesses contrários, entre opções políticas, económicas e sociais que se encontravam em rota de colisão. Defrontaram-se abertamente liberais e monárquicos, apologistas de uma nova ordem social e aqueles que apostavam na manutenção do status quo.” É neste contexto que da Índia D. Manuel da Câmara decide enviar a fragata Salamandra, com “o objectivo de anular a nova ordem política vintista e repor a anterior” – a partir de 16 de Junho de 1823, um vaso de guerra está fundeado ao largo de Macau e preconiza aquilo que seria o fim da primeira aventura liberal no território. Por extensão, o semanário A Abelha da China, que nos seus últimos números, já com o anterior regime reposto, conheceu uma grande e conservadora reviravolta editorial, estava condenado ao fim e os seus dinamizadores ao exílio ou à prisão. A publicação foi substituída pela Gazeta de Macau, um jornal “mais consentâneo com os valores tradicionais”, como refere Daniel Pires.

       

      A ABELHA CONTINUA A POLINIZAR

       

      O Centro Cultural e Científico de Macau (CCCM) assinala hoje em Lisboa o bicentenário de A Abelha da China. O programa da evocação da efeméride inclui uma sessão com intervenções de cinco investigadores de Portugal, China e Brasil, que se têm dedicado ao estudo do período histórico em causa e da imprensa em Macau: Cátia Miriam Costa, Jin Guoping, Jorge de Abreu Arrimar, Pablo Magalhães, e Tereza Sena. Será ainda lançado o livro “A Abelha da China nos seus 200 Anos: Casos, Personagens e Confrontos na Experiência Liberal de Macau”, coordenado por Duarte Drumond Braga e Hugo Pinto, que reúne artigos da autoria dos mesmos estudiosos e que inaugura uma nova colecção de livros de História com chancela do CCCM, em parceria com a Universidade de Macau.

      A investigadora do CCCM responsável pelo projecto, Tereza Sena, aponta a importância de uma data “que não podia deixar de ser assinalada” e de um jornal que foi veículo de “todas as tensões, aspirações e denúncias” que formaram aquele período em Macau, além de, de algum modo, ter contribuído para conectar o território com o mundo. Sena cumpre o duplo papel de organizadora e autora de uma das comunicações que formam parte do livro hoje apresentado. Nesse texto, escreve “sobre a ascensão social e política de um natural de Macau durante o liberalismo, António dos Remédios, um chinês cristianizado que passou a integrar a comunidade católica e a cidade cristã”, e que chegou a vereador do Leal Senado. Sena interessou-se por perceber como é que um homem chinês participa de um governo liberal e tentou descortinar o seu ideário. Para fazer isto, recuou no tempo e acabou por “encontrar um grupo que se autoproclamava de naturais de Macau e que a partir de 1805-10 e até 1820 tem um processo de afirmação crescente na sociedade, na política e na economia”. O objectivo deste estudo, que conhece aqui um primeiro capítulo mas continuará a ser desenvolvido, passa por aferir até que ponto existiu e que papel teve nesta fase “um grupo não da elite ligada a Portugal mas de gente de Macau que se afirma em termos políticos e sociais; um processo de afirmação dos naturais de Macau, que não são exactamente os macaenses como os entendemos hoje em dia”.

      Cátia Miriam Costa [ler entrevista completa na edição de amanhã do PONTO FINAL], investigadora do Centro de Estudos Internacionais e docente no ISCTE, assina “A Abelha da China: a apropriação macaense do discurso político”, outro dos ensaios que formam parte do livro agora editado, ao lado de textos como “O Ouvidor Arriaga e o jornal A Abelha da China”, de Jorge de Abreu Arrimar; e “A Abelha da China estudada na Macaulogia”, de Jin Guoping. A académica frisa que “A Abelha da China nasce num momento conturbado para o império colonial português, mas também num momento em que essa instabilidade é passada ao próprio território”.

      O jornal, destaca a investigadora, contribui para a criação de uma esfera pública em Macau. “A Abelha da China foi um jornal de debate, apesar de ter orientação liberal clara, não se fechou. Abre-se ao debate, inclusivamente inserindo textos que criticam o movimento político que lidera a edição de A Abelha da China. Isto quer dizer que há uma construção de debate para a esfera pública.”

      Cátia Miriam Costa nota ainda que “não deixa de ser curioso que esta iniciativa resulte de uma rede imperial, sabendo-se que um dos seus principais impulsionadores, Paulino da Silva Barbosa, é brasileiro, cresceu no Brasil mas depois traz as suas ideias maçónicas para o território”.

      Paulino da Silva Barbosa é o tema do ensaio “Edição e sedição em Macau: Paulino da Silva Barbosa e o jornal A Abelha da China”, da autoria de Pablo Magalhães [ler entrevista completa na edição de quarta-feira do PONTO FINAL], professor associado à Universidade Federal do Oeste da Bahia. Nele, o investigador traça o mapa geográfico, mas também intelectual e político de Paulino da Silva Barbosa e de outros intelectuais que circularam pelo então imenso espaço sob domínio português, das Américas a África e à Ásia. “É notório que o Império português foi desenvolvido com a criação de redes comerciais, políticas e culturais, estabelecidas em escala global, ao longo dos séculos XV ao XIX. Foi imenso o trânsito de indivíduos pela amplidão daquele espaço geográfico transcontinental ao longo de mais de quatro séculos”, aponta Magalhães, que tenta desenterrar a história ainda por contar destes homens oitocentistas, muitos deles com ligações maçónicas.

       

      IMPRENSA QUE PERSISTE

       

      No texto que abre o livro “A Abelha da China nos seus 200 Anos: Casos, Personagens e Confrontos na Experiência Liberal de Macau”, os seus coordenadores – Duarte Drumond Braga, professor e investigador do Centro de Estudos Comparatistas da Universidade de Lisboa; e Hugo Pinto, jornalista e estudioso da História de Macau – falam de um “pano de fundo negro contra o qual se recorta a silhueta luminosa d’A Abelha da China. (…) E que melhor imagem do que a do clarão das Luzes para ilustrar o que representou um jornal que se proclamava livre, despontando precisamente da Revolução Liberal de 1820 e da instituição do primeiro projecto de lei sobre a liberdade de imprensa, que permitiu, enfim, que fossem publicados jornais nos territórios portugueses no Oriente e em Africa?”. Braga e Pinto destacam o facto de o redactores do jornal fazerem um “esforço didático, cientes de que a educação dos leitores era o caminho mais seguro até ao destino desejado, e o mais proveitoso. Por outro lado, acreditava-se na força da demonstração, na clareza da evidência dos argumentos liberais”.

      Os coordenadores do projecto sublinham o papel do periódico enquanto “quarto poder” surgido em contexto de oposição política, cumprindo uma missão de “crítica, denúncia, escrutínio, mas também de defesa dos valores próprios do seu campo ideológico”; e apontam ainda como sinal de modernidade o facto de os seus conteúdos irem além das questões internas de Macau, apresentando textos traduzidos de outros jornais europeus e asiáticos.

      “Estamos esperançosos de que, 200 anos depois, esta iniciativa em forma de livro possa servir de testemunho e inspiração a um renovado interesse na história de A Abelha da China e dos seus protagonistas”, acalentam Braga e Pinto. O pólen que a Abelha trouxe consigo — com seu trabalho, coragem, paciência e liberdade, mas também imprevidência —, aí está”, referem os coordenadores. Comentando o actual momento da imprensa em Macau, os autores atiram uma nota de cepticismo e outra de esperança: “Ainda que muitas vezes lhe falte o rasgo e a insubmissão próprios do pioneiro antepassado, o jornalismo em Macau continua a ser uma realidade, incluindo em língua portuguesa. Que outros duzentos anos se sigam”.

      Tereza Sena lembra que “para o segundo sistema é fundamental que haja liberdade de imprensa e liberdade de expressão” e defende que “enquanto houver uma comunidade de língua portuguesa em Macau, [a imprensa] faz todo o sentido, é também o veículo de afirmação das mesmas coisas [que A Abelha da China]. Ao longo do tempo, as aspirações e os comportamentos humanos são os mesmos. Há tensões, há opiniões, há forma de protestar, de alertar, de difundir cultura… A imprensa reflecte a voz de um determinado grupo. Depois, a postura [que se adopta] depende de cada um.” Daniel Pires, por sua vez, afirma que “o património português é parte constituinte de Macau e a história não se apaga, deve ser assumida. A sua compreensão é fulcral para equacionarmos o presente e prepararmos o futuro” –  agora, como há 200 anos.