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      InícioCulturaHenrique Levy vence prémio literário Natália Correia  

      Henrique Levy vence prémio literário Natália Correia  

      O escritor português, que viveu em Macau por diversos anos durante a Administração Portuguesa do território, viu o seu romance “Vinte e Sete Cartas de Artemísia” ser agraciado na edição deste ano do prestigiado prémio internacional, instituído pela Câmara Municipal de Ponta Delgada, nos Açores. Ao PONTO FINAL, o autor diz-se “orgulhoso”, mas não compreende o silêncio da imprensa portuguesa.

       

      O escritor português Henrique Levy, sob o pseudónimo Gertrudes Magna, arrecadou no passado dia 2 de Setembro o Prémio Literário Natália Correia 2022 com o romance “Vinte e Sete Cartas de Artemísia”, uma obra epistolar.

      Ao PONTO FINAL, o escritor mostrou-se muito orgulhoso com a atribuição do prémio. “Traz-me uma responsabilidade acrescida, pois terei de continuar a honrar, em obras futuras, o nome da poetisa Natália Correia, uma das mais marcantes personalidades literárias portuguesas do século XX”.

      Henrique Levy, no entanto e apesar da alegria, revelou algum desgosto com aquilo que considera ser um silêncio incompreensível. “A imprensa regional, até à data, não deu conta desta distinção. Não compreendo o silêncio, pois o autor do livro galardoado tem pautado a sua vida nos Açores, não só intervindo cívica e culturalmente, como, também, contribuído, através da editora que coordena, Nona Poesia, para a divulgação da literatura açoriana do passado e do presente”, desabafou.

      Ao mesmo tempo, o silêncio continua no continente, junto das mais altas patentes da cultura portuguesa. “Aqueles que na República impõem o cânone literário temem que a grandeza e dignidade da cultura e literatura açorianas mitiguem e ofusquem um cânone literário imposto mais por interesses económicos dos grandes grupos editoriais, do que pela qualidade das obras. Há uma constante censura às vozes provenientes das ilhas atlânticas. Lamentavelmente, este estado de coisas não é denunciado pela comunicação social da região”, referiu ao nosso jornal, acrescentando que “o actual Governo Regional pouco ou nada tem feito para alterar esta realidade, atente-se ao facto de a Região Autónoma dos Açores não ter pavilhão na Feira do Livro de Lisboa, deste ano”.

      Ainda assim, acredita Henrique Levy, “tanto os meios de comunicação social dos Açores como os da República darão notícia da obra merecedora desta importante distinção, tal como já aconteceu em vários jornais de Cabo Verde, país a que estou ligado por profundos laços familiares, culturais e identitários e de cuja nacionalidade muito me orgulho. Possibilitar-me a cidadania cabo-verdiana foi um dos importantes legados deixados por meus avós e pelo meu pai”.

      O Prémio Literário Natália Correia 2022, que vai na sua segunda edição, é um prémio internacional, instituído pela Câmara Municipal de Ponta Delgada, na região autónoma dos Açores, sendo dirigido obras originais e inéditas, redigidas em língua portuguesa. Este ano distinguiu uma obra de ficção.

       

      ESTILO SINGULAR E DE MARCANTE OPULÊNCIA LITERÁRIA

      De acordo com a nota do júri, publicada em nota de imprensa pelo Município de Ponta Delgada, “a obra ‘Vinte e Sete Cartas de Artemísia’ constitui um romance notável pela originalidade de escrita e de pensamento, em que se cruzam inquietação e sabedoria nas indagações respeitantes à condição humana. Através de um estilo singular e de marcante opulência literária, a narrativa percorre domínios invulgares na linguagem e no imaginário, que conduzem a protagonista a universos multifacetados sem jamais se prejudicar a coesão da estrutura global da narrativa”.

      O júri do prémio elogiou a narrativa em que “desenhando uma figuração rica e complexa do feminino, a personagem principal (que lava janelas de altos edifícios na cidade, cava batatas no campo, racha lenha, pesca nas águas da ilha, recita poemas, cumplicia filósofos, luta contra a ditadura, se apaixona por um pescador amputado na guerra colonial e medeia gerações e classes sociais) emerge como uma das grandes figuras femininas da ficção portuguesa actual”.

      Ao mesmo tempo, a obra de Henrique Levy é destacada pela sua “arquitectura formal”. “Revela-se de uma sensibilidade surpreendente aos caminhos do romance contemporâneo, deixando-se atrair pela impureza criadora que o género tem desenvolvido nos últimos tempos, ao ousar transgredir convenções para explorar todo um território em que a literatura se abre à epistolografia, à poesia, ao ensaio filosófico e à História”, acrescentou o júri citado na mesma nota de imprensa.

      O parecer do júri concluiu ainda que “a escrita, poderosa em densidade e originalidade, revela, finalmente, uma voz consanguínea de Natália Correia. Não só pelo húmus açoriano que a percorre sem que se perca a ligação comunicante com o sentir e viver nacionais, como também pelo apelo universal de liberdade, corre, quente e frondoso, nas suas páginas desabrigadas, um espírito revolucionário, indomável, feito de coragem e de amor”.

       

      UM PROFESSOR EM MACAU

      Henrique Levy nasceu em Lisboa, mas assumiu, desde cedo, a nacionalidade cabo-verdiana por causa dos avós. Há algum tempo a residir no arquipélago dos Açores, o escritor também passou por Macau, durante a Administração Portuguesa do território. “Sou professor há quase quarenta anos e a minha carreira docente iniciou-se em Macau. Cheguei a Macau em 1983. Nesse ano fiquei colocado como professor na Escola Luso Chinesa de Coloane. Dois anos depois, fui dar aulas de português, língua estrangeira, na escola Luso Chinesa Sir Robert Ho Tung. A passagem por Macau, para além de muito ter contribuído para a minha obra poética, foi decisiva na formação humanística e nas possibilidades que me ofereceu para conhecer novas culturas, despertando-me o interesse de conhecer e dedicar-me ao estudo de línguas não-europeias”, confessou o autor ao nosso jornal.

      É poeta e romancista, sendo autor de seis romances: “Cisne de África” (2009), “Praia – Lisboa” (2010), “Maria Bettencourt: diários de uma mulher singular” (2019), “Segredo da Visita Régia aos Açores” (2020), “Memórias de Madre Aliviada da Cruz” (2021) e “Vinte e Sete Cartas de Artemísia” (2022) e de sete livros de poesia: “Mãos Navegadas” (1999); “Intensidades” (2001); “O silêncio das Almas” (2015); “Noivos do Mar” (2017); “O Rapaz do Lilás” (2018), “Sensinatos” (2019) e “Poemas do Próximo Livro” (2022). Editou, em co-autoria com Ângela de Almeida, em 2020, o livro de poemas, “Estado de Emergência”.

      Editou e anotou “A Sibylla – versos philosophicos” (2020) de Mariana Belmira de Andrade, cuja primeira edição data de 1884 e tem contos, poemas e ensaios literários publicados em Jornais, Revistas e Antologias. Actualmente Henrique Levy, que também é professor universitário, coordena a Nona Poesia, a única editora açoriana dedicada exclusivamente à poesia.

       

      PONTO FINAL