Hoje assinalam-se seis meses de guerra na Ucrânia. Foi a 24 de Fevereiro que as tropas russas cruzaram a fronteira e deram início à invasão. Passado meio ano, a guerra está num “impasse muito perigoso”, diz Michael Share. O professor de História da Universidade de Macau, especialista em assuntos da Rússia, explica que, dado o impasse, qualquer um dos lados pode, a qualquer momento, escalar a ofensiva de forma a vencer mais rapidamente a guerra. Hoje comemora-se também o Dia da Independência da Ucrânia.
Na manhã de 24 de Fevereiro, as tropas russas passaram a fronteira com a Ucrânia, dando início à invasão do país. Seis meses após o início da guerra, não há sinal de paz. Aliás, a situação parece estar mais perigosa. De acordo com o professor da Universidade de Macau especialista em assuntos da Rússia, apesar do impasse que se vive, a violência pode escalar, o que traria consequências “catastróficas”.
Ao PONTO FINAL, o professor de História diz considerar que se vive um “impasse muito perigoso”. Na frente Leste, nas províncias de Lugansk e Donetsk, “os russos parecem ter parado a ofensiva por não terem recursos humanos e o equipamento para continuar”. Já do lado ucraniano, “os militares estão exaustos e não conseguem fazer recuar os russos”.
Então, porque é que este impasse é “muito perigoso”? Michael Share explica que o objectivo de terminar o conflito rapidamente pode fazer com que qualquer um dos lados escale a violência e os meios para sair vencedor.
Do lado ucraniano, há a tentação de atrair os Estados Unidos da América ou outro país da NATO. “Se os ucranianos se virem a perder, poderão tentar pedir auxílio aos EUA ou a outro país da NATO e isso significaria combate directo entre as forças russas e as forças da NATO, o que seria catastrófico”, sublinha.
O professor universitário lembra que os EUA têm tropas na Polónia e Roménia, países que fazem fronteira com a Ucrânia. Share diz até que, para impelir os EUA a combaterem directamente as forças russas, a Ucrânia pode ver-se tentada a simular um ataque russo a uma das zonas militares americanas. “Aí, a opinião pública norte-americana iria dizer que é necessário entrar na guerra”, diz. “Há várias formas de atrair as forças estrangeiras para o conflito”, salienta.
Do lado russo, o Kremlin pode olhar para este impasse e pensar que a única forma de resolver o conflito é através de armas nucleares. “Se os russos sofrerem derrotas militares, então podem pensar que não têm nada a perder se usarem armas nucleares”, refere o especialista em assuntos da Rússia. Putin tem falado na hipótese de lançar um ataque nuclear na Ucrânia.
“É por isso que eu considero que estamos actualmente numa situação de impasse muito perigosa. Porque cada um dos lados pode decidir escalar o conflito com a ideia de que isso poderá fazer com que ganhem ou com a ideia de evitar a derrota”, sublinha. Na opinião de Michael Share, ambos os lados estão determinados a conseguir uma vitória militar, “e é aí que a coisa fica perigosa”, refere.
Os seis meses da guerra coincidem com o 31.º aniversário da independência da Ucrânia, declarada em 24 de Agosto de 1991, pouco antes da dissolução formal da União Soviética, de que fazia parte. Isso faz com que Michael Share acredite que a Rússia vai, ao longo do dia de hoje, endurecer as acções militares contra as forças ucranianas.
Actualmente, no Sul da Ucrânia, “os ucranianos parecem ter lançado uma contra-ofensiva, mas parece que eles não têm força suficiente para tomar de volta a cidade de Kherson, que os russos tomaram nos primeiros dias do conflito”. Em Nikolaev, “a posição ucraniana tornou-se mais forte”, o que está a ajudar a segurar Odessa.
Na Crimeia, tomada pela Rússia em 2014, têm-se registado agora ataques ucranianos às forças russas através de drones. “Ao largo da Crimeia está uma base naval russa, no Mar Negro. Tem havido ataques com drones a essa base, causando alguns danos. Houve ataques de artilharia e com mísseis em Sebastopol e outras cidades da Crimeia”, diz Share. Isso faz com que o especialista diga que “os russos não estão tão seguros quanto pensavam na Crimeia”.
A Ucrânia tem conseguido atacar a Rússia atrás das suas linhas. Além dos ataques na Crimeia, península controlada ainda pelas forças russas, há dias registou-se também um ataque nos arredores de Moscovo. A filha do filósofo russo Alexander Dugin, considerado o ideólogo de Vladimir Putin, morreu no sábado à noite, alegadamente vítima de um atentado que visaria o pai, noticiou a agência russa TASS. Daria Dugina, 29 anos, jornalista e comentadora política, morreu na explosão do carro que conduzia na região de Moscovo, quando regressava a casa. A filial do Comité de Investigação para a região de Moscovo disse que a explosão terá sido causada por uma bomba colocada no SUV conduzido por Daria Dugina, segundo a TASS. O líder do movimento Horizonte Russo, Andrei Krasnov, amigo da família, disse que a viatura pertencia a Alexander Dugin e que ele seria o alvo. A Ucrânia, no entanto, negou envolvimento.
PREOCUPAÇÕES NUCLEARES
A causar apreensão está também a central nuclear de Zaporijia. A Rússia tem bombardeado a zona perto das instalações de Zaporijia. Michael Share diz que, “uma vez que a central pode ficar danificada, pode acontecer um desastre como o de Chernobyl”.
As autoridades ucranianas acusaram, esta semana, as forças russas de novos bombardeamentos perto das instalações de Zaporijia, horas depois dos últimos apelos internacionais para que o perímetro da principal central nuclear da Ucrânia não seja alvo de ataques. O ataque surge depois do secretário-geral das Nações Unidas (ONU), António Guterres, ter apelado por uma segunda vez à prudência perto da zona da central, durante a sua visita à Ucrânia. Da mesma forma, o presidente dos Estados Unidos, Joe Biden, voltou a abordar no domingo o assunto com os líderes de França, Alemanha e do Reino Unido, que salientaram a necessidade de serem evitadas operações militares na região a fim de não provocar um acidente nuclear. Os quatro líderes mundiais pediram ainda que a agência de energia atómica da ONU fosse autorizada a visitar as instalações o mais rapidamente possível.
Um dos receios de Kiev é que a atenção da comunidade internacional comece a dispersar. Por outro lado, a Ucrânia teme também o frio do Inverno na Europa. Devido às sanções europeias à Rússia, a importação de gás natural russo foi suspensa, o que irá trazer impacto ao bem-estar dos europeus, principalmente quando estiver mais frio. “Se a guerra continuar até ao Inverno e se as casas europeias ficarem frias porque não há gás natural suficiente, isso pode fazer com que as pessoas fiquem contra a Ucrânia e exijam que a Ucrânia ceda a todo o custo”, indica o professor.
A China, por seu lado, continua ao lado da Rússia e os laços poderão até ser fortalecidos no próximo mês, quando se realizar a reunião da Organização para Cooperação de Xangai. A organização, que tem como membros a China, o Cazaquistão, Quirguistão, a Rússia, o Tajiquistão, o Uzbequistão, a Índia e o Paquistão, vai reunir-se no próximo mês em Samarkand, cidade do Uzbequistão, e a ocasião pode juntar Xi Jinping e Vladimir Putin. Se tal acontecer, será a primeira saída ao estrangeiro do Presidente chinês desde o início da pandemia. “É muito possível que Putin e Xi Jinping se encontrem e, se se encontrarem, poderão aproximar as suas posições”, nota Michael Share.
Por fim, o professor universitário antevê que a guerra na Ucrânia possa durar meses ou anos. Para já, “não há nenhuma tentativa séria de negociação de paz; isso é que é assustador”.
PONTO FINAL











