A comunidade migrante tem estado a passar por dificuldades devido às medidas impostas pelo Governo para combater o surto. Ao PONTO FINAL, Jassy Santos, presidente da União Progressista dos Trabalhadores Domésticos, alertou que há quem esteja a passar fome. A filipina criticou também a medida – entretanto retirada – de obrigatoriedade de realização de testes de ácido nucleico diários para os cidadãos filipinos.
Há migrantes que estão a passar fome por não poderem trabalhar durante a implementação das medidas de combate ao surto, denunciou Jassy Santos ao PONTO FINAL. A presidente da União Progressista dos Trabalhadores Domésticos pediu mais apoio ao Governo e lançou críticas à obrigatoriedade de testes de ácido nucleico para os nacionais das Filipinas – medida que, entretanto, foi retirada.
Jassy Santos alertou que, por não poderem trabalhar, há migrantes que não conseguem pagar as contas nem têm dinheiro para comer. A representante da associação de migrantes diz-se “grata” pelo facto de o Governo de Macau dar de forma gratuita máscaras, testes de antigénio e testes de ácido nucleico. “Mas, sem salário, onde é que podemos ter dinheiro para pagar as nossas despesas?”, interrogou, salientando: “Sim, esperávamos mais apoio por parte do Governo”. “Os migrantes também são humanos”, diz, afirmando: “Podemos ver que os filipinos precisam de ajuda e fico triste por ver os meus amigos migrantes a passar fome”.
As medidas do Governo para lidar com a pandemia têm gerado uma crise económica que não tem afectado apenas os locais. Desde o início da pandemia, o Governo de Macau lançou vários planos de apoio económico direccionados apenas para os residentes. Os não-residentes nunca foram incluídos num destes pacotes de apoios.
Recorde-se que na passada quinta-feira o Governo tinha anunciado que todos os cidadãos de nacionalidade filipina – residentes ou não – teriam de realizar diariamente testes de ácido nucleico. Segundo o Governo, “há mais riscos de infecção entre este grupo”, uma vez que, “devido à sua cultura”, os cidadãos filipinos realizam “mais encontros e visitas” entre si. A medida levantou polémica e ontem, três dias depois, as autoridades decidiram anular a decisão.
Para Jassy Santos, faltava “humanidade” à medida. A filipina, questionou: “Toda a gente tem sido afectada pelo vírus, por que razão é que se diferenciam os cidadãos com passaporte filipino?”. A presidente da União Progressista dos Trabalhadores Domésticos pediu “um pouco de empatia” para com os migrantes que têm sido afectados pela pandemia.
CONSULADO FILIPINO DESVALORIZA CRÍTICAS
O Consulado Geral das Filipinas na RAEM desvalorizou as críticas feitas às autoridades de Macau relativamente à anterior exigência de testes diários para todos os nacionais daquele país. O Consulado disse que apoiava a decisão dos Serviços de Saúde de Macau e que a questão não devia ser “politizada”. O Consulado referiu ainda que medidas semelhantes já foram aplicadas a nacionais de outros países.
“A comunidade filipina, bem como outras comunidades, pertence à sociedade maior de Macau, que enfrenta agora uma séria ameaça. Façamos todos parte da solução e prestemos o nosso apoio e cooperação no cumprimento do nosso papel para ajudar a superar este perigo claro e presente”, lê-se no comunicado.
“Esperávamos que eles nos apoiassem, mas parece que não podemos depender deles”, comentou Jassy Santos. Para a filipina, “o Consulado tem um canal de acesso para o Governo de Macau; por que não usá-lo?”. “O nosso Consulado tem dificuldades em dar apoio, por que não coordenar isso com o Governo de Macau?”, enfatizou.
RON LAM LANÇA CRÍTICAS AO GOVERNO
“É de salientar que não é científico e é racialmente discriminatório que as autoridades classifiquem os grupos de risco” para efectuarem um teste diário “por simples etnia, em vez de ser pelo seu contacto com grupos de alto risco ou pessoas que vivem com eles”, escreveu o deputado Ron Lam numa carta dirigida às autoridades sanitárias.
Na carta, Ron Lam exigiu que as autoridades revertam a classificação por etnia dos grupos de risco para realização de testes diários. O deputado afirmou que a decisão não só viola o princípio da prevenção e controlo, mas que se trata “simplesmente de uma restrição tão simples e brutal relativa à etnicidade que pode também violar a Convenção Internacional sobre a Eliminação de Todas as Formas de Discriminação Racial, que se aplica a Macau”.











