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      Macau e Shenzhen: Divergências na abordagem ao novo surto

      Macau e Shenzhen quebraram o sossego na madrugada de domingo, altura em que Shenzhen detectou dois casos positivos assintomáticos na mesma altura em que Macau detectou também os primeiros casos de Covid-19. No entanto, as duas cidades seguiram caminhos divergentes em termos de desenvolvimento epidémico, com mais de 30 casos confirmados num dia na RAEM, enquanto que a cidade vizinha já não teve mais novos casos reportados. Para Jason Li, analista de dados e comentador do Financial Times, a diferenciação entre estes dois territórios tem a ver com as suas abordagens epidémicas, condições sócio-espaciais, económicas e demográficas.

       

      Em 18 de Junho, Macau e Guangdong voltaram à estaca zero no combate à pandemia com um novo surto de Covid-19. Shenzhen detectou dois casos positivos assintomáticos num rastreio comunitário de ácido nucleico, enquanto no mesmo dia foram confirmados os primeiros casos em Macau. No entanto, os resultados das subsequentes testagens massivas seguiram caminhos divergentes: Macau apresentou mais de 30 casos confirmados num dia, enquanto Shenzhen não encontrou mais novos casos infectados.

      Para Jason Li, analista de dados especializado em mobilidade urbana, esta diferenciação e contraste quanto à transmissão epidémica traduz a diferença entre estas duas cidades desenvolvidas no que diz respeito à abordagem de doenças infecciosas epidémicas, situação habitacional e sócio-espacial, conjuntura económica e demográfica. Comparando aos bairros afectados em Shenzhen, os bairros antigos de Macau têm condições que facilitam a propagação de infecções respiratórias. Por outro lado, a prática de “normalização do teste de ácido nucleico em cada 72 horas” adoptada em Shenzhen possibilitou identificar precocemente a ocorrência de casos de Covid-19 e mostrou alguma eficácia, contudo, nem todas as cidades têm os fortes recursos financeiros e mão-de-obra como Shenzhen.

      Devido ao planeamento urbanístico, a grande maioria da população de Macau está concentrada em alguns bairros situados na península, de acordo com os dados demográficos recolhidos pela Direcção dos Serviços de Estatística e Censos (DSEC) relativos ao ano de 2021. As zonas da Areia Preta e Iao Hon, da Barca, da Doca do Lamau e da Horta e Costa e Ouvidor Arriaga, que ocupam 1,1 km2 de terreno (3,2%), têm 170 mil habitantes (25,3%), e a sua densidade populacional atinge 160 mil habitantes por quilómetro quadrado. Com uma densidade populacional de 160 mil pessoas por quilómetro quadrado, cada pessoa possui apenas aproximadamente 6 metros quadrados de área útil para viver. Tais condições de vida são naturalmente um “terreno fértil” para a transmissão de doenças respiratórias, defende o analista chinês, apontando que, neste novo surto em Macau, 10 casos confirmados foram detectados num só dia no Edifício Yim Lai, na Rua de Afonso de Albuquerque, localizado numa zona urbana apertada no bairro da Barca.

      Na observação de Jason Li, tais condições de vida expõe vulnerabilidades relativamente a doenças respiratórias transmissíveis. “É por isso que o vírus da Covid-19 muitas vezes se espalha num efeito dominó: o exemplo de Macau diz-nos que quando a primeira pessoa se dirige ao centro hospitalar com sintomas e é detectada positiva para a Covid-19 pelo mecanismo de detecção nos serviços de saúde, já existem normalmente mais de 30 casos assintomáticos detectáveis”, referiu o especialista que se formou em Engenharia Informática na Universidade de Illinois.

      Actualmente, Shenzhen está a adoptar um mecanismo de normalização do teste de ácido nucleico a cada 72 horas, permitindo que casos positivos possam ser detectados o mais cedo possível. Para o comentador do Financial Times, este sistema parece estar a funcionar bem por agora, a julgar pelo facto de os dois casos confirmados encontrados em Shenzhen não terem resultado em novos casos confirmados na comunidade, pelo menos por enquanto. No entanto, a realização normativa dos testes de ácido nucleico, que essencialmente pressupõem que todos são positivos, “é uma prática muito dispendiosa”, frisou Li.

      CUSTOS PESAM

       

      O especialista analisou que o elevado custo pode talvez ser a razão pela qual Macau hesita face a esta questão. O preço para realizar o teste num único tubo em Macau é de 55 patacas, cerca de três vezes o preço em Zhuhai. Com uma população de 680 mil habitantes no território, serão necessários dez testes de ácido nucleico num mês (se o processo for implementado a cada 72 horas como em Shenzhen). Por analogia com a abordagem metodológica de testes mistos usada no interior da China, que têm um custo de 5 patacas por cada vez, o custo dos testes mistos em Macau seria de cerca de 19 patacas, representando uma despesa de cerca de 1,5 mil milhões de patacas.

      Conforme os dados da conta central divulgados pela Direcção dos Serviços de Finanças (DSF) em 2021, as receitas correntes das finanças públicas foram de 50,4 mil milhões de patacas e as despesas foram de 71,9 mil milhões de patacas, sendo que os custos foram aumentados 2% a 6% devido aos testes de ácido nucleico.

      Em 2022, a situação financeira na RAEM piorou. Nos primeiros quatro meses do ano, as receitas correntes das finanças públicas foram de 13,7 mil milhões de patacas e as despesas correntes foram de 21,3 mil milhões de patacas. Assim, a normalização do teste de ácido nucleico pode criar uma “despesa considerável”, argumentou Li. Segundo o responsável, a fim de evitar uma situação de “medir tudo pela mesma bitola”, sem a normalização do teste de ácido nucleico, a única forma de minimizar a exposição de uma comunidade vulnerável é limitar a circulação e restringir a mobilidade de pessoas.

      Como resultado, as autoridades de Zhuhai apertaram de imediato as exigências sanitárias sobre a entrada em Guangdong através dos postos fronteiriços de Macau, passando a ser exigida a apresentação de um certificado válido de resultado negativo do teste de ácido nucleico realizado até 24 horas e submetida a uma quarentena de sete dias; Guangzhou e Shenzhen seguiram o exemplo, impondo uma quarentena domiciliária de sete dias para pessoas com histórico de viagem ou de permanência em Macau (mesmo que não estivessem nas zonas de Código Vermelho ou Amarelo). Comparando com Shenzhen, que também tem um surto, mas apenas dois casos confirmados, viajantes ou residentes com histórico de viagem ou de permanência em Shenzhen só precisam, no máximo, de dois testes durante três dias para regressar a Guangzhou, e não são submetidos à obrigatoriedade de quarentena.

       

      DIVERGÊNCIAS NA ABORDAGEM AO VÍRUS

       

      “Macau e Shenzhen detectaram casos positivos no mesmo dia, porém, pode observar-se uma divergência pela dinâmica epidémica e atitude nas regiões vizinhas”, destacou o analista, salientando que “a normalização do teste do ácido nucleico deu confiança suficiente de uma forma muito dispendiosa: podem estar convictos de que os dois casos confirmados encontrados em Shenzhen foram apenas um evento ocasional e não um prelúdio de um surto em grande escala, o que assegurou que Shenzhen ainda pudesse manter a mobilidade populacional com as regiões vizinhas, proporcionando um ambiente um pouco mais estável para o seu desenvolvimento económico”.

      Já Macau, por outro lado, perdeu obviamente tal condição. “Mesmo que até ao final do dia tudo voltasse para a sua trajectória de normalidade, tal servirá como uma hipótese clássica de más notícias que podem dissuadir aqueles que desejam visitar Macau”, resumiu o especialista chinês.

       

      PONTO FINAL