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      “O 4 de Junho é uma data muito importante para mim, para a China e também para o mundo”

      Ng Kuok Cheong diz-se “muito triste” por ter sido desqualificado das eleições à Assembleia Legislativa, quase 30 anos depois da primeira vez que se sentou no hemiciclo. A desqualificação dos democratas, que considera ter sido uma questão totalmente política, “fez com que os residentes de Macau perdessem a esperança”, lamenta. No entanto, em entrevista ao PONTO FINAL, ressalva que tem sentido o apoio dos residentes. Este ano, os democratas não tentaram organizar a habitual vigília pelas vítimas de Tiananmen. Ng Kuok Cheong sublinha que esta é uma data “muito importante” para si, para a China e também para o mundo, mas defende o direito ao esquecimento: “É um dia muito importante e, por isso, eu vou-me recordar sempre dele. Mas as outras pessoas têm o direito de escolher o que consideram importante”.

       

      O 4 de Junho “é um dia muito importante e, por isso, eu vou-me recordar sempre dele”, diz Ng Kuok Cheong em entrevista ao PONTO FINAL. Sábado, recorde-se, assinalam-se os 33 anos do massacre de Tiananmen. Este ano, depois de as autoridades terem impedido a vigília no Largo do Senado nos últimos dois anos, os democratas de Macau já nem tentaram organizar a iniciativa. Ng Kuok Cheong diz não ficar triste se a população se esquecer do 4 de Junho, até porque “as outras pessoas têm o direito de escolher o que consideram importante”. No entanto, diz ter ficado “muito triste” por ter sido desqualificado da corrida à Assembleia Legislativa do ano passado. Se tivesse sido eleito, este seria o seu 30.º ano no hemiciclo. A desqualificação dos democratas, diz, “fez com que os residentes de Macau perdessem a esperança”. “Foi uma questão política, 100%”, reitera. Na rua, tem sentido o apoio dos residentes: “Toda a gente sabe o que aconteceu com o ambiente político e, por isso, não me pedem para fazer nada politicamente, só me têm dado apoio”. Ao longo das quase três décadas na Assembleia Legislativa, foi “muito difícil” lutar pela democracia em Macau, comenta.

       

      Se tivesse sido eleito no ano passado, este seria o seu 30.º ano enquanto deputado à Assembleia Legislativa. Depois de três décadas no hemiciclo, sai com a sensação de dever cumprido?

      Eu sou um sortudo, não sou especial. Tive a oportunidade, nos anos 80 e 90, de poder discutir publicamente vários assuntos e depois fui para a Assembleia Legislativa. Foi uma oportunidade muito grande para expressar as minhas ideias. Na altura, eu já sentia que Macau estava sempre em mudança. Antes de 1999, a Administração portuguesa em Macau era muito pobre, mas eles queriam deixar obra feita antes da transferência de soberania. Eu sempre tentei encorajá-los a fazerem mais por Macau, apesar de serem muito pobres. Depois de 1999, o Governo chinês quis usar Macau para se reunificar com Taiwan e concedeu muitas ajudas a Macau. Muitas pessoas vieram para Macau e muito dinheiro entrou em Macau pelos casinos. A situação mudou completamente em comparação com o período antes de 1999. Na Assembleia Legislativa, o meu trabalho ficou mais complicado porque Macau tornou-se muito rica, então, o problema da corrupção era grande. Antes de 1999 eu condenava a Administração portuguesa e apontava que eles gastavam muito dinheiro, mesmo sendo pobres. Mas depois, com o dinheiro, surgiu o problema da corrupção. Não só Macau mudou radicalmente depois de 1999, mas também o mundo. A China desistiu do comunismo e enveredou, por vezes, pelo capitalismo, procurando investimento. Tendo em conta o que aconteceu na Europa e nos EUA, percebe que não conseguirá manter o seu poder para sempre. Agora, a China diz ser uma democracia a 100%, mas uma democracia diferente da Europa ou dos EUA. Parece que nos últimos anos estão a criar conceitos com base em questões políticas. Usam técnicas políticas para alterar conceitos como democracia, liberdade e direitos humanos. Por isso, querem cancelar todos os elementos conotados politicamente como sendo negativos, incluindo a vigília de 4 de Junho.

       

      A luta pela democracia valeu a pena? As pessoas ouviram-no?

      Muitos residentes de Macau ainda têm esperança, mas claro que já não somos tão fortes. Dentro daquilo que podemos fazer, cada vez mais residentes de Macau sentem que podemos ser melhores, podemos aprender com outros sítios do mundo. Actualmente, muitos jovens de Macau têm estudos superiores e sabem mais sobre o mundo e percebem que, uma vez que Macau se tornou muito rica, podemos ser melhores. Não apenas os democratas, mas todos. A situação económica está a alterar-se de forma radical, não sei o que acontecerá daqui a três anos.

       

      Foi difícil lutar pela democracia em Macau?

      Muito difícil. Mas não apenas em Macau, em todo o mundo. A China também tem os seus problemas, não apenas no que toca a questões políticas, mas também económicos e, por isso, quer parar o fluxo de capitais para Macau, o que irá influenciar muito Macau no futuro. Nos EUA e Europa, eles mantêm as liberdades e direitos humanos, mas a democracia tem por base o modo de produção capitalista.

      Sente alguma mágoa por, depois de quase 30 anos na Assembleia Legislativa, ter sido desqualificado das últimas eleições?

      Sim, fico muito triste. Depois de quase 30 anos na Assembleia Legislativa, sei que não podia ser deputado para sempre e que, a seu tempo, teria de parar, mas queria encorajar os jovens com as mesmas ideias políticas a irem para a Assembleia. Esta desqualificação foi uma questão política, 100%.

      Depois de quase 30 anos como deputado, agora as autoridades dizem que não foi fiel à RAEM e à Lei Básica. Que resposta lhe merecem estas acusações?

      É muito claro que é uma questão política. Enquanto cidadão chinês, sei bem como funcionam estas questões políticas. São usadas as mesmas técnicas políticas da Revolução Cultural, mas de outra forma.

       

      As pessoas começaram a tratá-lo de forma diferente depois de ter sido desqualificado?

      Os amigos, claro, apoiam-me. Mas, na rua, muitas vezes os residentes de Macau dão-me força. Por vezes não fazem nada de concreto, claro que não podem fazer nada. Mas eles sabem o que aconteceu. Não me pedem para fazer nada, mas apoiam-me. Sinto-me apoiado pelos residentes de Macau. Toda a gente sabe o que aconteceu com o ambiente político e, por isso, não me pedem para fazer nada politicamente, só me têm dado apoio.

       

      Tanto a União Europeia como os EUA divulgaram relatórios que alertavam para a perda de direitos políticos por parte dos residentes de Macau, apontando para as desqualificações dos democratas nas últimas eleições. Concorda?

      Claro que esta acção teve alguma influência política. A desqualificação fez com que os residentes de Macau perdessem a esperança. Mas porque é que tanta gente, incluindo jovens, perderam esperança? Além da acção política da desqualificação, também o ambiente económico é um factor muito importante. As pessoas acham que devem baixar as expectativas, preservar as condições de vida e ver o que acontece no futuro. A maioria das pessoas perdeu a esperança, algumas focam-se na família. A luta pode fazer-se de diferentes formas.

       

      Este ano, o Governo vai rever a lei de segurança nacional em Macau. Teme ser alvo da lei, de alguma forma?

      Depende daquilo que fizer durante este ano. O Governo de Macau segue apenas instruções do Partido Comunista da China e o que o Partido quer fazer no futuro em Macau é segredo nacional, não faço ideia [risos].

      Mas acha que pode ser alvo da lei?

      Talvez, vamos ver o que acontece.

       

      Este ano já não tentaram organizar a vigília pelas vítimas do massacre de Tiananmen. Desistiram de assinalar o 4 de Junho?

      Desistimos das actividades públicas. No Facebook, continuo a expressar as minhas ideias, mas não vou transformar esse canal numa actividade pública. É apenas um meio de comunicação privado.

       

      Teme que as pessoas de Macau esqueçam a data?

      Não. Ao longo da história, aconteceram muitas coisas que as pessoas já não se lembram. Quantos eventos importantes ocorreram na China ao longo dos milhares de anos? O que podemos fazer? O 4 de Junho é uma data muito importante para mim, para a China e também para o mundo, porque depois do 4 de Junho o mundo mudou. Depois disso, o capitalismo passou a liderar todo o mundo. É um dia muito importante e, por isso, eu vou-me recordar sempre dele. Mas as outras pessoas têm o direito de escolher o que consideram importante. Talvez no futuro as pessoas encontrem outros eventos ou datas mais importantes para darem atenção. Eu não fico triste. A vigília não é a minha força política, não quero usar esse dia como a minha força política. Apenas acho que é um dia muito importante. O resto das pessoas podem fazer o que quiserem.