O território foi o primeiro lugar de instalação e presença dos europeus na Ásia oriental e o mais longo. É, por isso, um caso paradigmático. Em entrevista ao PONTO FINAL, o professor emérito da Universidade de Lisboa, Luís Filipe Barreto, destaca o papel de Macau, ao longo dos séculos, enquanto intermediário e conciliador, nas redes de comércio internacional. Quanto ao futuro da RAEM, para o anterior presidente do Centro Científico e Cultural de Macau, em Portugal, neste momento, será sempre ditado por o que se passa, no campo das Relações Internacionais, na Ásia oriental.
Nos últimos anos, mais do que investigar Macau, tem estado focado no estudo das relações entre a Europa e a Ásia. Que pontos é que lhe têm suscitado mais atenção?
Os padrões asiáticos estabelecidos antes do século XVI — até antes, nos séculos XIV e XV — e que, de certa forma, condicionam ou possibilitam ao mesmo tempo a condição portuguesa. Interessa-me muito a instalação dos portugueses em Macau, muito ligada àquilo que eram os circuitos de comércio internacional entre grupos chineses e japoneses. Sem abandonar a questão de Macau ou a questão da presença portuguesa, interessa-me, cada vez mais, os fundos de permanência asiáticos, em que os europeus vão ter de se incorporar ou afrontar. Estamos a falar de Taiwan, por exemplo. A relevância estratégica de Taiwan passa muito por Macau e pela ligação com o comércio com o Japão. Alguns japoneses vêm com os portugueses para ficar na zona da Ilha dos Pescadores — umas certas tentativas de povoamento logo. Depois, os holandeses, quando não conseguiram conquistar Macau em 1622, vão ocupar a Ilha dos Pescadores, que, posteriormente, os chineses terão de expulsar. A área que baptizámos de Formosa é uma correnteza de ilhas, desde Taiwan até Okinawa. Isso explica as questões contemporâneas com o Japão. Interessa-me tentar perceber como é que determinadas realidades, do presente, têm uma espécie de pré-história asiática relevante e onde se jogam os pesos do Islão, da China, da Índia. Macau continua presente, mas não é o foco central de interesse, é algo que complementa.
Porque é que, naquela altura, a relevância estratégica de Taiwan passava por Macau?
Para os portugueses, o comércio com o sul do Japão (a carreira de Nagasaki, mas também antes), para sairmos de Macau, para apanhar os ventos e correntes favoráveis ao sul do Japão, temos de tomar como referência a Formosa e depois temos de contornar a Ilha dos Pescadores. Para nós, a Formosa é um sítio estratégico, em termos de orientação/navegação, e porque não deixamos que haja ali concorrência. Se os holandeses se estabelecessem na Ilha dos Pescadores, acabava a carreira Macau-Nagasaki, como acabariam muitas das carreiras Manila-Fujian. Aquela zona é uma espécie de celeiro de Fujian desde a antiguidade. A importância da Formosa, mesmo em termos estratégicos para a China, começa pelo impacto internacional, a partir do século XVI, e esse impacto internacional implica com o Japão e ocidentais. Depois, a própria sinicização, a solidificação do domínio da dinastia Qing sobre Taiwan implica outra vez Macau, porque Koxinga é o herói nacional, que liberta Taiwan dos holandeses e tem uma família de chineses ricos comerciantes, com laços a Macau. Macau está sempre ligado.
Macau tem sempre, ao longo da História, esse papel de intermediário?
Macau era uma ilha que devia, com as correntes ao longo do dia ou em determinadas épocas do ano, fazer uma espécie de pequena península e dá toda a sensação que depois, a partir de 1560/1570, essa pequena língua de terra, que ia e vinha, conforme as correntes, é solidificada. Para nós, é importante porque cria o Porto Interior e não há navegação que possa entrar por ali, mas, para o lado chinês, também é importante, porque é por ali que eles fazem as Portas do Cerco. Macau é uma ilha que, depois, é aterrada. Os portugueses vão parar a um lugar onde há um templo de uma espécie de deusa internacional marítima sino-japonesa-sudeste asiático.
Isso faz de Macau um caso singular na História?
Sim. Em relação aos europeus, sim. Faz de Macau uma sede de consórcios asiáticos com uma incorporação europeia, consórcios asiáticos múltiplos: regionais, chineses ultramarinos, japoneses e poderes locais. Quando chegamos [à Índia] vamos ter a Calecute e ficamos na zona portuária, que tinha sido usada pelos chineses no século XV. O grande aliado para as especiarias e para o comércio internacional de Calecute é Malaca. Escolhemos Malaca, dentro do quadro dos possíveis, e, provavelmente, em sete/nove anos, nem tivemos muitas hipóteses de escolha de outro lugar qualquer, porque tínhamos aquela via, que era nitidamente a via mais segura de aliados e de articulação. Em última instância, isso significa, do lado português, uma imensa capacidade de adaptação. Fazemos erros, como todos.
Em Macau?
Em Macau, no Índico, no sul do Japão. Há razões objectivas para termos sido os primeiros europeus a estacionar por ali, depois de os outros europeus não se terem instalado, depois do século XIX.
Quais são essas razões?
É esta capacidade de adaptação. Malaca é o último sítio onde há armadas do Estado da Índia. A partir de Malaca é o faroeste. Como no Índico, toda a parte de Bengala, toda a parte do Índico oriental, já é uma certa soltura. Há zonas da Ásia marítima, que são zonas relevantes para o aparelho de Estado e, portanto, para a ligação Cochim-Goa-Lisboa e, depois, Lisboa-Antuérpia e os mercados do norte da Europa, mas há áreas do Índico que são muito relevantes para os portugueses “asiatizados” (os portugueses casados). No Índico, é principalmente a área de Bengala. São Francisco Xavier chega [ao Índico] por via de um português, que é um português privado, que sai da zona de Bengala para Malaca. Depois, tentámos a aproximação à China usando regras diplomáticas oficiais — percebemos que as regras diplomáticas chinesas eram diferentes, o chamado comércio tributário, a aceitação do poder sino-cêntrico, mas isso falhou. Levou a conflito militar litoral, mas depois entra uma dimensão muito mais privada e essa dimensão começa a crescer nos anos 30, cresce ainda mais nos anos 40 e é isso que leva depois ao surgimento de Macau nos anos 1550. O Estado só aparece depois. A História de Macau é sempre feita de uma tensão interna em relação a Goa — tanto Goa como, por vezes, Cochim, tinham interesses estratégicos diferentes em relação ao comércio da China. As tensões nunca são só entre portugueses e chineses ou entre portugueses e chineses de Cantão ou entre portugueses e chineses de Pequim. Há tensões internas entre Macau, Malaca e Goa, que são geridas, da parte de Macau. Macau tem sempre de negociar a sua existência, não apenas frente às forças dominantes chinesas, mas frente aos diferentes grupos de interesse portugueses. Ao longo da segunda metade do século XVIII e da primeira metade do século XIX, Macau deixou de ter a sua existência e autonomia estratégica própria. Tornou-se uma espécie de sub-colónia inglesa de Hong Kong. Macau é uma “anormalidade”, porque é nitidamente o único estabelecimento permanente europeu na Ásia oriental até ao século XIX e com um estatuto difuso.

Entre 2021-2022, foi responsável pela criação de uma disciplina de História de Macau na Faculdade de Letras. Qual era o programa?
Hoje está integrado em várias disciplinas e nos mestrados e doutoramentos. Como disciplina autónoma desapareceu, porque, a partir de uma certa altura, não havia alunos suficientes. Porque é que era importante para nós Macau? Pela mesma razão que Hong Kong é importante para os ingleses. São lugares de instalação e presença dos europeus na Ásia oriental. O caso de Macau é o primeiro e o de mais longa duração, não há outro exemplo europeu na Ásia oriental, estamos a falar de meados do século XVI.
Começa por ser um lugar de residência transitória, para depois passar a ser lugar de residência fixa, sempre ligado à ideia de os ventos e as marés criarem a necessidade e a possibilidade de Macau. São as monções que fazem nascer e triunfar Macau. O lado fantástico é como é que se sobrevive depois, mesmo que sobreviva com um estatuto menor.
Existem as oportunidades e elas são muito ditadas pelos mecanismos asiáticos entre si. E há europeus que podem e sabem entrar. Isso explica porque é que do lado chinês ou japonês também lhes interessa ter um parceiro que não seja uma ameaça. Essa é a fórmula Macau: sinizando-se para sair com benefícios, com proveitos, que são sempre bastante importantes para os portugueses, mas a parte minoritária do negócio. Isso também é muito a ética confuciana.
Um dos temas da sua actual investigação é o cristianismo e as relações entre a China e a Europa. Referiu, num documento, que em Macau, há um sincretismo do cristianismo missionário com o confucionismo estatal chinês. Essa foi a fórmula adoptada para garantir a convivência saudável?
A via do meio. O que é engraçado é que, estamos a falar dos finais do século XVI, início do século XVII, passa-se o mesmo do lado do Islão da China. Nós temos alguns filósofos chineses, mandarins letrados, a propor uma sincretização do Islão com o Confucionismo. Enquanto o Ricci diz que tem os chineses cristãos com ele, algumas cartas desses chineses cristãos foram traduzidas e dizem: está aqui um tipo ótimo em astronomia e matemática, extremamente útil, está ao serviço do imperador, depois tem umas ideias espirituais e religiosas esquisitas, mas o que interessa é que o negócio seja rentável. Os portugueses tinham pensado que era possível no mar da China ter o mesmo sistema que se tinha no Índico, de feitorias-fortalezas, e é isso que o Tomé Pires tenta: ter uma certa ideia de monopólio ou privilégio no comércio internacional naquela zona. Mas em Macau dá para perceber que os portugueses já não pensam dessa maneira, já não querem instalar o seu poder em termos de hegemonia, querem encontrar o espaço possível para serem intermediários naquele comércio internacional. Macau, de certa forma, tem sempre o lugar do intermediário, não há ocupação territorial.
Olhando agora para o presente e futuro, em alguns dos seus estudos, neste âmbito das relações euroasiáticas, referiu que, nos anos 80/90, já se estava a redesenhar o renascimento da Ásia no mundo. Hoje em dia, em que ponto nos encontramos?
Os grandes triunfadores desta globalização são a China e a Índia. Estamos no ponto de a China ser a segunda potência económica mundial e a Índia ser a quarta e a Coreia estar nas dez primeiras. Não é só a dimensão económica, é a dimensão cultural, é a dimensão internacional. O Japão afunda, mas é a quinta, a Alemanha é a terceira. O Japão tem caído, mas calmamente. Estamos a viver um renascimento asiático profundo, mas é uma Ásia muito europeizada ou europeizada-americanizada. A Ásia que é triunfante é uma Ásia cosmopolita. É uma eurásia, capaz de incorporar o melhor.
Pensando no futuro, a China não tem fragilidades, que podem vir alterar o seu peso no mundo?
Todos têm fragilidades — a China, a Rússia, a Europa, os Estados Unidos. Não há trajectos pré-definidos e a ascensão nunca é eterna, tem ciclos. É nítido que a Índia está a crescer a um ritmo — começou pela dimensão demográfica — em que ela vai ser fortemente concorrencial da China. Existem sempre à nossa frente “n” possibilidades de futuro, vai triunfar uma dessas possibilidades e isso é profundamente indeterminado. A própria globalização que conhecemos, nos anos 90, está em profunda crise, não sei se já não acabou, na prática. Se a dimensão política dos Estados Unidos e o fechamento ao comércio internacional aberto se concretizar ainda mais, a própria globalização desaparece.

Qual é o estatuto de Macau, no mundo, neste momento?
Macau sempre foi uma praça financeira — a terceira exportação de Macau era a moeda chinesa. Era uma praça financeira quer de moeda quer de metais preciosos. Essa é uma constante de Macau. O jogo é uma praça financeira, é uma banca. É o outro lado da banca. O futuro de Macau agora será sempre ditado sobre o que é que se passa em termos das relações internacionais na Ásia oriental — boas relações entre China e Japão, o jogo está bem; más relações, o jogo sofre. Más relações entre Taiwan e República Popular da China, o jogo sofre. O jogo cresce num clima global de relações mais pacíficas.
Aquele papel de intermediário mantém-se?
De intermediário português, já não. A dimensão intermediária de Macau teria de passar por outros vectores: um vector cultural e académico, mas isso implicaria que houvesse acordos entre Portugal e China. Macau é um sítio fantástico para ter uma grande biblioteca em língua portuguesa na Ásia.












