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      Falar português é falar mais alto

      Boleia ou carona? Ônibus ou machimbombo? Bangão ou vaidoso? Hoje comemora-se o Dia Mundial da Língua Portuguesa, a língua de Camões, da Maria, do Manuel e de tantos milhões. Em Macau, as iniciativas de comemoração são diversas, umas mais públicas outras mais recatadas, mas todas com o intuito de elevar um idioma com quase 900 anos de existência.

       

      Desde 1143, ano da fundação do Reino de Portugal, com a celebração do Tratado de Zamora, que, nas suas nuances galaico-portuguesas, se tem vindo a espalhar pelo mundo. 879 anos depois, estima-se que existam mais de 260 milhões de pessoas que falam português em todo o mundo, o que a torna a quinta língua mais falada do mundo, a terceira no mundo ocidental e a primeira no hemisfério Sul.

      Em Macau, académicos e professores consideram que a língua portuguesa está bem e recomenda-se, apesar de considerarem que há sempre margem para melhorar. Ao PONTO FINAL, Maria José Grosso, professora associada convidada da Universidade de Macau, considerou que existe, “de facto da parte dos alunos, e das pessoas jovens em geral, um grande interesse pela língua portuguesa”, e dá um exemplo. “Na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, dos 50 candidatos a mestrado, 70% são falantes de língua chinesa”, revelou a especialista em linguística aplicada e em ensino de português como língua estrangeira.

      Maria José Grosso admite que o interesse pela língua de Camões já vai para além de empregos na área da tradução ou interpretação. “Penso que as pessoas em Macau já têm uma visão mais global da língua portuguesa. Já não há aquelas situações que se viviam, por exemplo, nos anos de 1990 em que as pessoas estudavam português para serem tradutores ou interpretes. Ou então para simplesmente ficar em Macau e trabalhar na função pública. Neste momento o português é trampolim para outro tipo de trabalhos”, notou, acrescentando que, da sua experiência, há alunos que pretendem aprender português para tentar algo mais, algo diferente. “Há nichos de mercado laboral em língua portuguesa muito curiosos, como marketing digital ou gestão de conteúdos. Há efectivamente mais gente a procurar mais sobre língua portuguesa e apostar em oportunidades no universo lusófono.”

      A académica vê o português “como uma língua global”, apesar de muitos a considerarem uma língua pluricêntrica ou policêntrica, que é o mesmo que dizer que a língua portuguesa é “uma língua falada internacionalmente, aprendida por muitos como uma segunda língua”. Uma razão histórica pode explicar a visão de Maria José Grosso, uma vez que o português pode não só ser caracterizado pelo número de falantes como também pela sua distribuição geográfica.

      A Universidade de Macau (UM), devido ao calendário de exames, adiantou a comemoração do Dia Mundial da Língua Portuguesa, tendo realizado, entre outras coisas, um espectáculo que contou com mais de vinte actuações musicais, de dança, declamação de poesia, teatro e até um debate. O director interino do Departamento de Português da Faculdade de Letras da UM, Yao Jing Ming, realçou o significado do evento.

       

      “Viramos as costas quando deveríamos dar abraços”

      A Escola Portuguesa de Macau (EPM) está a preparar uma celebração que terá dois momentos distintos. O primeiro terá um cariz mais literário e cultural, com alunos a declamar poesia de autores lusófonos, e ainda um segundo momento, no qual haverá lugar a danças, cantares e músicas em português. Hoje será também anunciado o concurso literário José Saramago/EPM, cujo tema livre procurará, para além de homenagear o Nobel da Literatura, encontrar talentos literários em Macau. “Escrever para compreender” é o mote.

      Paula Pinto, coordenadora do departamento curricular de língua românica da Escola Portuguesa de Macau, assegurou ao nosso jornal que o ensino do português não está em declínio, muito pelo contrário. “A língua portuguesa está de boa saúde e há interesse da comunidade. Repare que a maior parte dos alunos que chegam para o primeiro ano são não nativos de português.”

      Da sua experiência pessoal, mas também das conversas que mantém com os colegas, a professora considera que “o interesse pela língua portuguesa é cada vez maior, mas claro, como tudo na vida, há desafios”. E que desafios são esses, questionámos. “Desafios que começam com o facto de que temos que ensinar uma língua a quem nunca a falou. Mas o balanço é positivo e, a nível particular, é um desafio ganho”, assumiu, lembrando que “a Escola Portuguesa de Macau tem um papel muito importante, quase único, na divulgação da língua portuguesa” no território.

      Mas Paula Pinto sente que, muitas vezes, a comunidade portuguesa radicada em Macau não alinha no mesmo diapasão. “Acho que se deveria unir em torno daquilo que, de facto, nos une, que é a língua e a cultura. Estamos tão longe de Portugal e só teremos a ganhar se estivermos unidos. Muitas vezes – talvez demais – viramos as costas quando, na verdade, deveríamos dar abraços.”

       

      A língua portuguesa em África

      A Universidade Politécnica de Macau (UPM) terá hoje um evento interno dedicado à língua portuguesa que servirá para homenagear dois autores da África lusófona: Agostinho Neto, de Angola, e José Craveirinha, de Moçambique, no ano em que se comemora o centenário dos seus nascimentos, tal como sucede com o Nobel da Literatura José Saramago.

      Sob o tema “África em Português e Tradução: comemoração do centenário do nascimento de Agostinho Neto (angolano) e José Craveirinha (moçambicano)”, a Faculdade de Línguas e Tradução (FLT) comemorará o Dia da Língua Portuguesa a partir das 14h30 com um discurso de boas-vindas da directora da FLT, a professora Han Lili. Segue-se uma intervenção do professor Sang Dapeng, especialista em Estudos de Tradução, que falará sobre a vida e obra de Agostinho Neto que, para além de ter sido o primeiro Presidente da República de Angola após a independência, também tem obra poética de reconhecido valor. Depois, pelas 15h10, a professora Lola Geraldes Xavier falará da vida e obra do moçambicano José Craveirinha. Cerca de 30 minutos depois, é a vez da professora coordenadora da licenciatura de tradução Chinês-Português/Português-Chinês, Vânia Rego, abordar precisamente a temática da tradução no âmbito da língua portuguesa. A sessão terminará por volta das 16h.

      A professora Lola Geraldes Xavier, especialista em literatura, afirmou ao nosso jornal que, neste momento, “a língua portuguesa em Macau sofre das consequências globais da pandemia, como nós todos, portugueses, chineses”. “A situação ultrapassa questões linguísticas e de nacionalidade. Creio que só depois de haver alguma estabilidade planetária poderemos tirar algumas conclusões”, atirou.

      Para a coordenadora dos doutoramentos em Estudos Portugueses da UPM, neste momento, “o olhar do presente não nos permite ser objectivos para com a realidade”, admite, considerando que as directrizes são, até ver, muito claras. “As indicações governamentais, tanto ao nível local como central, vão no sentido de se continuar a apostar na língua portuguesa, sobretudo a nível da criação de talentos na tradução Chinês-Português e nas relações comerciais com os países de língua portuguesa.”

      Ainda assim, Lola Geraldes Xavier deixa uma sugestão. “Talvez pudessem ser discutidas algumas situações como, por exemplo, actualizar o uso da grafia no território para o Acordo Ortográfico de 1990 – que é o Acordo mais usado nos países de língua portuguesa, genericamente falando – e desenvolver mais relações interculturais entre as culturas em contacto na RAEM, neste caso entre o Português e o Chinês”, rematou.

      Também hoje, pelas 18h30, na Fundação Rui Cunha, irá ser discutida a obra “Cartas Portuguesas”, da autoria de Mariana Alcoforado, num colóquio comemorativo do Dia Mundial da Língua Portuguesa sob o tema Cartas Portuguesas: Amar no Feminino. As cinco “Cartas Portuguesas” datam de 1664 e foram atribuídas a Mariana Alcoforado, uma freira do Convento de Nossa Senhora da Conceição em Beja, tendo sido escritas a Noel Bouton de Chamilly, um militar francês que lutou por Portugal contra a Espanha durante a Guerra da Restauração (1640-1668). A entrada é livre e a sessão será realizada em língua portuguesa, com interpretação simultânea para cantonês.

      E porque de língua portuguesa se trata, no próximo sábado, dia 7 de Maio, terá lugar o segundo dia do Festival Literário “Letras & Companhia”, organizado pelo Instituto Português do Oriente (IPOR). Das 15h às 18h, na Casa Garden da Fundação Oriente, haverá exposições, música ao vivo, sessões de leitura e escrita, espectáculo de marionetas, entre outros momentos dedicados a pais e filhos.

      A Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP) decidiu estabelecer oficialmente, em 2009, a data de 5 de Maio como um dia para celebrar a língua portuguesa e as culturas lusófonas. Em 2019, durante a 40.ª sessão da Conferência Geral da Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (UNESCO), este organismo ratificou a escolha da CPLP e proclamou o dia 5 de Maio de cada ano como o “Dia Mundial da Língua Portuguesa”.

       

      PONTO FINAL