Edição do dia

Quarta-feira, 28 de Fevereiro, 2024
Cidade do Santo Nome de Deus de Macau
nuvens dispersas
15.9 ° C
18.9 °
15.9 °
77 %
2.1kmh
40 %
Qua
20 °
Qui
21 °
Sex
17 °
Sáb
15 °
Dom
20 °

Suplementos

PUB
PUB
Mais
    More
      Início Opinião A política externa americana: da construção do inimigo à retórica anti-chinesa

      A política externa americana: da construção do inimigo à retórica anti-chinesa

      A política externa americana e a fabricação do inimigo

      Poderá dizer-se que a fabricação do “inimigo” apresenta formas mais ou menos veladas nalgumas situações extremas na política internacional mas, de acordo com Murray & Meyers (1999), a verdade é que na retórica presidencialista americana tal construção é uma regularidade no seu léxico político, visando “moldar a percepção pública acerca de determinados atores e garantir apoios às suas decisões” (Leite, 2013: 19), sejam elas comerciais ou político-militares, utilizando inclusivamente uma linguagem religiosa, salvítica e civilizadora, numa luta entre o “nós”, o eixo do bem, e “os outros”, os eixos do mal.

      Como afirma Campbell (1992) há, junto dos cidadãos americanos, uma evangelização do perigo e do medo contra o diferente (político, comercial, humano, etc.), uma narrativa cujas origens se encontram na teologia protestante americana conservadora do séc. XIX e no puritanismo anglo-saxónico em que o Outro (diferente dele, portanto) é o Demónio (Oro, 1996) . Dito de outro modo, e ainda segundo Campbell (idem) a construção do inimigo não é moldada apenas em função do “eu/nós” (país cristão, branco, civilizacionalmente superior, sexualmente straight, etc.), mas também em função da construção negativa do outro, com vista a que “o outro” possa ser percebido como o perigo, o mal, o inferior ou o bárbaro em relação ao “eu/nós”.

      No esclarecedor livro de Kevin Phillips (2006) intitulado American Theocracy, The Peril and Politics of Radical Religion, Oil, and Borrowed Money in the 21st Century, o autor passa em revista as razões profundas do actual estado da política americana, designadamente as origens religiosas cristãs fundamentalistas europeias e sua distribuição por estados que o autor designou por The Religious Pillars of the National Republican Coalition (idem), bem como sobre as tendências políticas crescentes do Partido Republicano – sem branquear, contudo, a conivência do Partido Democrata nessas mesmas políticas. E examina, por outro lado, as conexões entre a hegemonia global americana, o petróleo e a ascensão do cristianismo fundamentalista nos Estados Unidos que começou a ganhar força na cena política dos anos 60 e se consolidou com a dinastia Bush, argumentando que o Sul dos Estados Unidos se reposicionou com sucesso na vanguarda cultural da sociedade norte-americana no exacto momento em que o país enfrentava uma série de crises enraizadas na energia, na geopolítica, finanças, etc. E em vez de ter líderes responsáveis e racionais para guiar o país durante esse período difícil, o eleitorado americano deu poder a um grupo de pessoas em dívida para com o fundamentalismo religioso e o complexo binómio petróleo-segurança nacional, passando tal fundamentalismo religioso a ter um papel mais vocal na definição dos parâmetros do discurso público, sendo disso paradigmática a ascensão política de Donald Trump, que personifica tal tendência de fundo de certo eleitorado ultraconservador americano.

       

       

      A retórica americana anti-chinesa

      Qual é, então, a razão desta retórica anti-chinesa, nomeadamente dos EUA (mas não só), que é entendida pela China como “pretexto para retirar-lhe o direito de existir como nação”, à semelhança do que aconteceu noutros momentos da sua história?

      Como esclarecidamente sublinha o especialista brasileiro em política chinesa, Evandro Carvalho (Revista Valor,2020), Professor de Direito Internacional e Coordenador do Grupo de Investigação Brasil-China da Fundação Getúlio Vargas, não sendo a China uma ameaça para o mundo no plano ideológico – pois desde a Conferência de Bandung (1955), em que o primeiro-ministro chinês, Zhou En-lai teve um papel relevante na redacção dos 10 princípios da Conferência e a China se afastou do bloco comunista soviético para tomar assento no grande grupo dos chamados países em vias de desenvolvimento ou países não alinhados que priorizaram a cooperação económica e descartaram qualquer modelo de pós ou neocolonialismo dos dois grande blocos políticos, os EUA e a União Soviética – qual a razão desta retórica anti-chinesa?

      Tal resulta do chamado impulso “missionário” de conquista do mundo, como recentemente sublinhou Kishore Mahbubani numa entrevista ao jornal Público de 22/12/2020, em resultado da sua conceção unipolar de poder na cena internacional, presumindo-se os EUA de um magistério moral e político superior na exportação da democracia (americana) e dos direitos humanos para todos os cantos do planeta, numa leitura e com uma intervenção muito personalizada e à medida dos seus interesses geoestratégicos mundiais. Recorde-se que na década de 80 do século XX, quando se deu o boom ecónomico do Japão e tanto a gestão japonesa como a língua e a cultura japonesas foram avidamente procuradas e estudadas em muitas universidades americanas, o governo considerou tal sucesso económico japonês “portrayed as America’s greatest economic threat” (Roach, 2019), apelando ao medo do imperialismo japonês em ascensão, ainda que em 1951 e 1960 tivessem sido assinados Tratados de Cooperação e Segurança Mútuas entre o Japão e os EUA. E a razão de tal ameaça para os EUA estava no facto de, na década de 80, a economia japonesa se ter tornado uma das maiores e mais sofisticadas do mundo – o rendimento per capita tinha superado o dos Estados Unidos e o produto nacional bruto total era de aproximadamente um décimo da produção mundial. Em meados da década de 1980, o Japão tinha-se tornado o principal credor líquido do mundo e o maior dador de ajuda ao desenvolvimento.

      Este mesmo discurso negativo é o que se aplica à Iniciativa “One Belt, One Road” (OBOR) e aos pretensos fins hegemónicos da China. Ora, um dos méritos da iniciativa chinesa “One Belt, One Road” é a criação de um novo paradigma de desenvolvimento e de cooperação bilateral com outros países, ao exportar capacidade produtiva sem pressupostos salvacionistas, militares ou civilizacionais, embora obviamente com um retorno comercial, político, cultural, etc. mas, provavelmente, e de acordo com Sanjuan (2018), como algo que poderá ser um novo “universalismo chinês” no modo de desenvolvimento económico e social e de exemplo para países de África e da América do Sul.

      A este propósito, afirmou muito oportunamente David Chan, em 2021, no semanário Plataforma:

      Este jogo entre a China e os EUA não é mais algo que possa ser moderado por um novo presidente. Já se tornou numa questão mundial. Se o resto do mundo prefere viver como os chineses ou como os americanos. Se devemos caminhar em direção a uma “comunidade de futuro comum para a humanidade” defendida pela China, ou a uma “sociedade neoliberal” criada pelos EUA.

      Compreende-se a extrema dificuldade de os EUA conviverem num sistema multilateral de relações internacionais, uma vez que acreditam ter uma missão de liderança global, porque tal visão partilhada da gestão global do planeta está totalmente ausente da construção ideológica da sua fundação como país. É conhecida também a estratégia dos EUA de tentar deter por todos os meios o desenvolvimento económico e social da China através dos diversos expedientes políticos utilizados (Hong Kong, a questão Uighur, etc.), um tema a desenvolver num próximo texto. E a China, como alguns outros países da Ásia, não aceita tal poder hegemónico; pelo contrário, subscreve e segue integralmente os pontos 8, 9 e 10 da Conferência de Bandung no que respeita à cooperação internacional e ao multilateralismo. Martin Wolf, editor económico do Financial Times escreveu em 2018 que será ingénuo esperar a rendição da China e propôs cinco princípios de abordagem ao conflito entre os dois países: (1) Entender que a China não é “nossa” para fazer ou refazer. Pertence aos chineses e a mais ninguém; (2) Perceber que a organização política da China provavelmente permanecerá diferente da do Ocidente indefinidamente; (3) Concentrar a atenção em comportamentos precisos e mensuráveis que afetam os outros e o façam de maneira consistente e baseada em princípios. Não procurar deter o desenvolvimento da China. Isso está claramente errado; (4) Reconhecer que a China é um rival em alguns aspectos, mas também um parceiro vital e essencial. A manutenção da estabilidade da economia mundial e a gestão das alterações climáticas serão impossíveis sem a cooperação com a China. Não assentar o relacionamento principalmente sobre a rivalidade estratégica. Equilibrar o poder da China quando necessário, cooperando com ela quando essencial: (5) Compreender o valor das alianças. Isso é sobre confiança. (…). Procurar, com o conjunto dos aliados dos EUA, um diálogo negocial com a China será muito mais eficaz do que o caminho ameaçador e unilateral escolhido por Trump e prosseguido por Biden.

      A necessidade de a China manter a estabilidade interna de um país com 1.421 milhares de milhão de habitantes e de ter um forte poder central para existir progresso e desenvolvimento económico e social é algo que escapa ao Ocidente por desconhecimento da história política e social da China, cujo conceito culturalmente institucionalizado aos longo de milénios ensina que a força da unidade da coletividade é que faz mover o país, tanto para atingir os objetivos comuns como, inclusivamente, os individuais.

      Como sabiamente recordou o presidente Kennedy num memorável discurso na American University em 10 de Junho de 1969, a propósito das relações com a URSS e sete anos após o bloqueio dos mísseis de curto e médio alcance a caminho de Cuba: “Não sejamos cegos às nossas diferenças, mas direccionemos também a atenção para os nossos interesses comuns e os meios pelos quais essas diferenças podem ser resolvidas. E se não podermos acabar agora com as nossas diferenças, pelo menos podemos ajudar a tornar o mundo seguro para a diversidade. Pois, em última análise, o nosso elo comum mais básico é que todos habitamos este pequeno planeta. Todos nós respiramos o mesmo ar. Todos nós prezamos o futuro de nossos filhos. E somos todos mortais.”

       

      Rui Rocha

      Investigador