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      Norovírus, um inimigo público ao virar da esquina

      Surge todos os anos, com maior ou menor incidência. Existem centenas de casos declarados oficialmente, mas muitos outros não chegam a sê-lo. O norovírus – tal como o rotavírus ou o adenovírus – é um vírus comum que provoca uma gastroenterite viral. Em Macau, dados mostram que o sexo masculino é mais afectado que o feminino. A nível mundial, 30% das pessoas infectadas com o vírus não apresentam doenças gastrointestinais ou sintomas associados.

       

      Sabe o que é o norovírus? O norovírus é causador de gastroenterite viral. Não é novo e nem é o único, mas é aquele que é causa de mais casos no mundo. Diversos especialistas têm vindo a sinalizá-lo e a demonstrar preocupações devido à sua alta disseminação.

      Também conhecido como vírus de Norwalk – cidade norte-americana que em 1972 sofreu uma epidemia provocada por um surto de gastroenterite –, o norovírus causa uma gastroenterite não bacteriana e é comum provocar surtos em lares de idosos e escolas, mas também em hospitais ou em restaurantes, por isso, todas as pessoas podem ser afectadas pela infecção que, podendo ocorrer durante todo o ano, normalmente, tem tendência para atacar nos meses de Inverno.

      Estatísticas oficiais divulgadas pelos Serviços de Saúde, revelam que as gastroenteropatias aguda provocadas pelo agente de Norwalk são, a par dos problemas do trato respiratório provocados pelos enterovírus, as principais enfermidades que acometem as pessoas que residem em Macau.

      Em Janeiro deste ano foram declarados oficialmente cerca de 85 casos de gastroenterite por norovírus. Ocorreram seis surtos de gastroenterite viral entre 4 e 9 de Janeiro, sendo que um, numa creche, afectou, que se saiba oficialmente, 25 indivíduos; noutro, de razão desconhecida, 11 crianças e membros de família também foram afectados. Numa breve resposta ao PONTO FINAL, o Centro de Controlo e Prevenção da Doença (CDC) considera “não haver indicadores que permitam dizer que o norovírus tenha tido um aumento exponencial  nas últimas semanas”, contudo, admite o CDC, “a compilação de dados referentes a Fevereiro ainda não terminou”.

      Nos últimos cinco anos, as mesmas estatísticas revelam que em 2021 foram registados 347 casos de gastroenterite viral provocada pelo vírus de Norwalk. Em 2020 foram 227, em 2019 ocorreram 390, em 2018 chegaram aos 207 casos e em 2017 foram 346. O curioso destes casos é que o sexo masculino é mais acometido pela virose do que o feminino. No total dos cinco anos – retirando 2021, cujo relatório final ainda não é conhecido, e 2017, onde os dados do género não foram divulgados -, cerca de 427 são do sexo masculino e 397 são do sexo feminino.

      Números devem ser superiores

      Em conversa com o PONTO FINAL, o médico pediatra Victorino Trovoada revela que tem notado um aumento de casos de gastroenterite viral nos últimos tempos, “principalmente casos com diarreia e vómitos”.

      Instado a comentar os números oficiais da doença, o médico admitiu que estes possam pecar por escassos “até porque grande parte das pessoas, principalmente os adultos, não vão ao médico quando têm uma virose que passa em dois ou três dias”. “Acredito que os números de infecções por norovírus sejam, certamente, muito superiores, mas obviamente é uma estimativa minha.”

      Para o norovírus são conhecidas como vias de transmissão principais os alimentos ou águas contaminadas, contacto com vómitos ou excreções de doentes, contacto com produtos contaminados pelo vírus e, ainda, a transmissão pelo ar e por gotículas. Geralmente, o período de incubação do vírus varia entre 24 e 48 horas e é transmissível desde o período de surgimento de sintomas até dois dias depois do desaparecimento dos mesmos.

      Os sintomas incluem náuseas, vómitos, diarreia, dor de cabeça, cólicas abdominais, dores musculares, febre ligeira ou alta, calafrios e indisposição geral. Trata-se de uma doença auto-limitada e, de um modo geral, dura entre um a três dias. Os sintomas são maiores em pessoas hospitalizadas, pessoas com o sistema imunitário debilitado, idosos e crianças.

      Trovoada considera até que, sempre que ocorra diarreia e vómitos “deveria haver um estudo e testes” para chegar a uma conclusão sobre a enfermidade, mas, naturalmente, “a experiência dos médicos é muito importante para o diagnóstico”. “Dependendo do contexto, não se pode catalogar algo sem que se tenha uma prova efectiva dos resultados”, notou.

      Estudos sugerem que 30% das pessoas infectadas com o vírus não apresentam doenças gastrointestinais ou sintomas associados. “É muito provável. Como se vê, também com a Covid-19. Em todas as infecções há casos assintomáticos, por isso, é normal haver gente que contraia o vírus e não tenha sintomas, mas essas pessoas podem transmiti-lo. E, claro, não nos podemos esquecer das cargas virais”, explicou Victorino Trovoada.

       

      Antibióticos combatem as bactérias, não os vírus 

      Não existe tratamento específico para a gastroenterite viral e ainda não há medicamentos anti-virais eficazes para o seu tratamento. E, claro, os antibióticos não produzem efeito, porque os antibióticos foram inventados para combater bactérias. “Os antibióticos combatem as bactérias. Claro que, em certos casos, existem situações virais que se complicam e depois têm de usar antibióticos, mas uma virose nunca é debelada com um antibiótico”, lembrou o pediatra, acrescentando que “as pessoas têm de parar de se automedicar e apenas tomar antibióticos com prescrição médica”.

      O tratamento é essencialmente de suporte. O doente necessita de descansar e dormir o suficiente, de beber mais água para completar a sua hidratação e de fazer refeições simples e leves. Em casos mais complicados, deve-se aplicar uma intravenosa de electrólitos.

      Apesar de ocorrerem, anualmente, muito casos em todo o mundo, e de o vírus ser extremamente infeccioso, a sua carga viral é considerada muito baixa. Estima-se que seja de 1 a 10 partículas virais, mas as partículas são excretadas em níveis elevados tanto por pessoas com sintomas como por pessoas sem sintomas.

      Tal como com o SARS-CoV-2 e como uma panóplia de outros vírus e bactérias, as más práticas de higiene são relevantes. Por isso, relembram as autoridades sanitárias, deve-se lavar bem as mãos, esfregar as mãos com álcool e desinfectar todas as superfícies que se julgam terem estado em contacto com o vírus de Norwalk. “As pessoas estão mais expostas agora a outras doenças. Nestes dois últimos anos, com o uso de máscaras, este tipo de doenças vai tender a aparecer com mais regularidade. Vamos ficando mais vulneráveis a outras patologias”, constatou Victorino Trovoada. “Nada é perfeito. Protegemo-nos de umas doenças, mas perdemos protecção contra outras.”

      A título meramente exemplificativo, em Outubro de 2020, no Brasil, mais de duas mil pessoas no Estado do Rio Grande do Sul foram afectadas pelo norovírus. Um total de 25 cidades daquele estado brasileiro emitiram um alerta sobre a ocorrência de surtos relacionados com o vírus de Norwalk.

      No Reino Unido, as autoridades já admitiram que a actividade do norovírus está a aumentar e é possível que aumentos incomuns ou fora da estação possam ser vistos nos próximos meses, numa altura em que o país começou a relaxar as medidas restritivas contra a Covid-19.

      Dados a nível mundial revelam que estas doenças representam 26% dos internamentos hospitalares e 11% de mortes associadas ao consumo de alimentos. Um dos principais empecilhos para isso é a rápida evolução desse patogénico por mutação. Segundo os virologistas, a transmissão é amplamente distribuída e atinge pessoas em diversos locais. Há relatos de diferentes variantes de norovírus terem sido encontradas a circular no mesmo hospital, durante o mesmo período de tempo. “A mutação de um vírus vai sempre ocorrer. Repare no vírus da gripe. Todos os anos a vacina é diferente, porque o vírus evolui constantemente. Tal como o SARS-CoV-2 que já foi Alfa, Delta e agora é Ómicron”, conclui o médico.

       

      PONTO FINAL