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      Início Parágrafo Parágrafo #75 O fio de muitos caminhos

      O fio de muitos caminhos

       

      Itamar Vieira Júnior

      Doramar ou a Odisseia

      Dom Quixote

       

      Em 2018, Itamar Vieira Júnior foi o vencedor do Prémio Leya e o romance Torto Arado iniciou um percurso, primeiro em Portugal, depois no Brasil e em vários outros países, que fez dele um dos livros brasileiros mais lidos e discutidos de sempre. Agora, o autor publica um volume de contos que, em certos momentos, regressa a esse Brasil rural e marcado pela dureza da vida e pelas desigualdades em que havia situado o seu romance de estreia, mas estende as linhas narrativas em muitas outras direcções. A sempre referida maldição do segundo livro, que na verdade é mais anseio de uma crítica impaciente para ver o que fará um autor depois de um retumbante sucesso do que outra coisa qualquer, não tem lugar neste Doramar ou a Odisseia, não só porque o caminho de continuidade é seguro e desejoso de experimentar, mas também porque este não é o segundo livro do autor, que já havia publicado dois livros no Brasil antes de concorrer ao Prémio Leya. Que não o conhecêssemos fora do seu país é desatenção nossa e se há maldição a registar é a da fraca circulação de livros entre países e territórios que partilham a mesma língua.

                   Torto Arado ambientava-se no interior do Brasil, com os ecos do sistema esclavagista e as duras condições de vida a darem forma a um quotidiano que podia ser antigo ou contemporâneo – tais são as assimetrias sociais e de desenvolvimento no território brasileiro –, e que o autor conseguiu mostrar como intemporal. A referência estende-se a Doramar ou a Odisseia, mesmo que este seja um livro de contos, que os contos sejam muito diferentes entre si e que o arco temporal e geográfico se expanda em múltiplas direcções. Do romance que lhe deu amplo reconhecimento, Itamar Vieira Júnior guardou certos elementos que agora pontuam estes contos: uma dimensão telúrica fortíssima, o olhar atento às mulheres, que aqui têm espaço de fala, a violência da natureza a cruzar-se com a violência humana e a certeza de que o tempo não passa de modo linear, estando o presente permanentemente contaminado pela herança concreta do passado e pelo desejo de futuro. Há outros temas e cenários, no entanto, das assimetrias transportadas para a cidade ao progresso que parece oferecer apenas desenvolvimento, mas que esconde novas violências e uma vontade de terraplanar o passado que arrasta consigo memórias, modos de vida e equilíbrios ecológicos e sociais.

      Os contos que compõem este livro são independentes, sendo que alguns foram escritos antes de Torto Arado, mas o conto que dá título ao volume carrega nas suas linhas o imenso arco temporal, histórico e cultural que atravessa todos os contos do livro. Doramar, a personagem central, é também uma figura herdeira, transportando consigo os ecos e as marcas do passado de escravidão que definiu o Brasil que conhecemos e as opressões e resistências que se lhe seguiram. Empregada doméstica numa casa da cidade, a mulher que limpa, cozinha e dorme num quartinho insuportavelmente quente – «(…) quando eu era menina éramos livres e agora eu sirvo meus patrões que não me dão descanso. Olha para mim e dizem para os convidados que sou “como se fosse da família”, e nada posso dizer.» – é filha da pobreza, conhece a terra batida dentro das casas, a necessidade de encontrar comida por entre os restos da maré que muda e a violência por toda a parte. A sua movimentação aparentemente sem destino num autocarro que parte da cidade é sobretudo uma deambulação pelas suas memórias, sobrepondo-se em camadas onde o presente já não é de fome, mas onde não mudou o essencial.

      Há em vários destes contos uma clara vontade de experimentação em torno da linguagem, da estrutura e dos mecanismos narrativos. «Farol das Almas», um conto muito breve, constrói-se como um instantâneo histórico, registando a construção de um farol desprovido da sua metáfora de desvendar caminhos seguros para todos, erguido com o objectivo de diminuir as perdas de pessoas escravizadas nos navios que se afundavam por não encontrarem o caminho para atracarem em segurança. Não é o valor intrínseco das vidas humanas que preocupa os seus construtores, mas apenas o valor monetário dessas vidas num contexto em que pessoas foram transformadas em mercadoria. Em «manto da apresentação», lemos um exercício que encena a voz interior de Arthur Bispo do Rosário, o artista plástico brasileiro que viveu encerrado numa instituição psiquiátrica por mais de cinquenta anos, e é a construção verbal do ritmo e torrente de imagens e pensamentos que assegura essa entrada numa fictícia mente alheia. Igualmente mergulho em mente de outrém, mas aqui num registo de narração omnisciente, «A oração do carrasco» arrisca procurar a empatia nos gestos de quem tem como função aniquilar a vida e, escavando por entre memórias de um ofício herdado de gerações e ensinamentos de como cumprir com zelo a tarefa de matar, encontra essa empatia num lugar inesperado e tão semelhante ao de quem não mata nem quer matar que se torna desarmante.

      Lidos os primeiros contos de Doramar ou a Odisseia, e ainda antes de se alcançar o conto que dá título ao volume, confirma-se que a ideia que guardamos desde Homero – e que tem os seus equivalentes em todas as geografias, povoadas ou não pelos supostos descendentes do suposto contador de histórias da Antiguidade, fosse ele um só ou vários – é definidora destas narrativas. Não tanto pela viagem física, mesmo que essa esteja presente tem muitos momentos, mas sobretudo pela mudança de cenário, contexto e vida, pelo acrescentar de episódios a uma biografia que não tinha expectativas de tantas viragens abruptas, pela necessidade de continuar a caminhar mesmo que não haja um destino previsto. Nestes contos, caminhar é a garantia de não morrer e nessa demanda pela vida por entre condições quase sempre muito duras, os ecos homéricos vão-se instalando, talvez na exacta medida em que se instalam também os versos de Morte e Vida Severina, de João Cabral de Mello Neto.

      Não é que as personagens destes contos sejam como o retirante que Cabral de Mello Neto criou e eternizou, atravessando o sertão em seca, mas com ele partilham essa necessidade de movimento, umas vezes concretizado em deslocação geográfica, outras como uma mudança de lugar mental. É esse o fio da odisseia que aqui se vai puxando, em histórias e personagens muito diversas, um fio que atravessa a História e os séculos, arrastando discriminações que se fizeram estrutura, silêncios que se transformaram em lei e uma eterna desigualdade que não deixa, ainda assim, de ver-se ameaçada pelos que lutam de algum modo, ou pelos que insistem em registar a memória e o presente dessa luta.