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      InícioParágrafoParágrafo #82Diário da guerra como ela é

      Diário da guerra como ela é

       

      «Na Segunda Guerra Mundial aprendi uma coisa: não há invasores que sejam libertadores». A frase é de uma velha mulher ucraniana e sintetiza aquilo que qualquer pessoa com duas gotas de bom-senso devia ter bastante claro quando toca a discutir a guerra na Ucrânia e a invasão russa. A repórter Ana França ouviu-a em Lviv, a 5 de Março de 2022. França, que começou a sua carreira jornalística em Macau, estava na Ucrânia ao serviço do jornal Expresso, onde trabalha, e naquele dia conversou com Romanna, antiga ginecologista familiar com a maldade dos homens e com a força das palavras. «Quando um povo é forçado a esquecer a língua dos seus poetas, o coração desse povo torna-se pedra», diz Romanna enquanto pega num livro do poeta do século XIX, Taras Shevchenko, precisamente o homem que tem direito a honras de título nesta primeira obra de Ana França que reúne o seu diário dos dias na Ucrânia: Ali Está o Taras Shevchenko Com Um Tiro na Cabeça.

      Num registo jornalístico ao qual alia momentos de maior cunho pessoal, Ana França oferece-nos as histórias da sua experiência na Ucrânia e o modo como lá foi parar quando estava a gozar férias em Itália. «Terem-me pedido que me deslocasse, em férias, para um cenário potencialmente perigoso é uma coisa que me dá paz. É sinal de que as direcções dos jornais começam finalmente a entender que, se há um jornalista, em Lisboa ou no Porto ou onde seja, a acompanhar um tema meses a fio, sempre a escrever para o site, então é esse jornalista que deve ir ao local, caso a situação passe a justificar reportagem no terreno – e não obrigatoriamente o mais premiado, o mais conhecido, o que escreveu livros, o que tem “grande” antes de “repórter” na ficha técnica.» E é exactamente isto. Ana França é, de certo modo, a primeira jornalista de imprensa escrita da sua geração a romper com a hegemonia e o monopólio que repórteres de gerações anteriores, uns com mais e outros com menos méritos, vêm tendo sobre qualquer acontecimento à escala global que justifique um enviado especial. O seu livro revela também esse aspecto geracional, nunca tentado ser aquilo que não é, renunciado formalidades desnecessárias e adoptando por vezes um tom quase coloquial que lhe assenta bem.

      No dia em que Ana França e o fotojornalista Tiago Miranda deixaram Lviv, a 9 de Março do ano passado, havia já mais de 2,3 milhões de refugiados causados por esta guerra que ainda dura –  sabemo-lo porque cada nova entrada deste diário vai actualizando o número de pessoas a necessitar de asilo. A paragem seguinte é Przemysl, já na Polónia, e na fronteira continuam a ouvir histórias de gente que fugiu da morte. «Um prédio inteiro a 200 metros do nosso ruiu diante dos olhos dos miúdos. As sirenes, em Kharkiv, vêm depois dos ataques, já não adiantam. Se ouvires um avião e ainda estiveres vivo três segundos depois, tudo bem, podes relaxar mais três ou quatro horas, em média».

      Ana França não se escusa de deixar a sua opinião sobre o conflito. Regressada a território da União Europeia, refere ter deixado para trás «a acção mais estúpida das últimas décadas e se calhar (esperemos nós) das próximas» e pede que «se continue a exigir o fim deste ataque medieval ao mundo civilizado». Revela as discussões incessantes que teve online sobre os fundamentos da guerra e que chegaram a chamar-lhe «cabra nazi», entre outros mimos provenientes de uma certa «ignorância auto-imposta».

      Depois de alguns tempo fora, a repórter regressa à Ucrânia a 5 de Abril, arrependida de ter chegado a sair. Dirige-se de carro para capital Kyiv, onde estão vários outros jornalistas portugueses. Na estrada há vários carros queimados mas não só: «Há um cadáver com as pernas um pouco queimadas a aparecer por trás da lagarta de um tanque. Tem uma só peúga, vermelha, e está há dias exposto, túmido.» Dias depois, sentada na Maidan, a Praça da Independência na capital ucraniana, Ana França conversa com o cineasta Oleg Sentsov, que participou na revolução da independência do país, em 1991. «Temos uma história longa, mas até esse momento éramos escravos da Rússia, com políticos lacaios do Kremlin, que por sua vez sempre tratou a Ucrânia como um cãozinho a quem pode dizer o que fazer e como se comportar», conta este homem que passou vários anos na prisão, acusado de conspiração e actos terroristas, e que agora defende novamente o seu país. É apenas uma das muitas histórias de resistência com as quais a repórter se cruza, contadas numa canção ou num quiosque em Mykolaiv que continua a servir cafés, apesar da guerra.

      Depois de uma breve passagem por Odesa, Ana França escreve-nos de Kharkiv a 19 de Abril de 2022, com quase 5 milhões de refugiados contabilizados. Trata-se de um lugar «onde toda a vida humana parece desabrigada», tal a destruição e o cenário desolador que a rodeia. De cidade em cidade, neste primeiro regresso e num segundo, em Maio de 2022, França é uma recolectora atenta e generosa das histórias que a atravessam, sempre com a ajuda dos seus preciosos intérpretes. Assume-se como narradora comprometida, que sabe de que lado da guerra e da história quer estar. Faz o seu trabalho sem esquecer a sua principal função: «Um repórter é apenas um veículo para as grandes histórias que estas pessoas viveram, nada mais». Histórias de vida e de morte, numa guerra sem fim à vista em relação à qual um dia restarão poucas dúvidas sobre quem foi o agredido e quem foi o agressor. Voltamos às palavras de Romanna: «Durante três séculos fomos escravizados, destruíram as nossas casas, as nossas igrejas, queimaram os nossos livros, há um ódio que nos construiu. É a nossa primeira guerra, a primeira em que não lutamos por outra bandeira, somos independentes. É uma benção e temos de estar preparados para dar a vida por ela.»

       

      Ana França

      Ali Está o Taras Shevchenko Com Um Tiro na Cabeça

      Tinta-da-China