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      “Ligações de Macau com a Índia e África portuguesa são óbvias e ainda existe muito por estudar”, refere académico Pedro Pombo

      A presença de Macau no Oceano Índico está a ser discutida em dois workshops dados pelo investigador português da Universidade das Maurícias, Pedro Pombo, promovidos pelo Centro de Investigação de Estudos Luso-Asiáticos da Universidade de Macau. O projecto, que ainda investiga as ligações entre Macau e o império americano espanhol, tem o apoio do Instituto Cultural.

       

      O Centro de Investigação de Estudos Luso-Asiáticos (CIELA) da Universidade de Macau (UM) está a promover, em duas sessões – 15 e 17 de Dezembro -, dois workshops online que pretendem abordar a presença de Macau no Oceano Índico, baseando-se na documentação sobre o território que se encontra em vários arquivos daquela região do globo. O orador é Pedro Pombo, um investigador português que está ligado à Universidade das Maurícias.

      Como é sabido, durante muitos anos, Macau respondeu a Goa, no que concerne a questões de decisão política. Neste projecto em particular o académico não abordou a questão, mas em conversa com o PONTO FINAL, considerou que esse aspecto “é bastante interessante porque promove uma intensa circulação de pessoas e decisões administrativas entre Goa e Macau (e Timor), assim como a presença de goeses em Macau”. “Aliás, as ligações entre a Ásia do Sul e Macau, e Hong Kong, são muito interessantes pela circulação de comunidades que deixam marcas no território de Macau, como por exemplo a Estrada dos Parses, lembrando a importância da comunidade Parsi. Neste projecto o âmbito é o inverso, e procurar traços de Macau em arquivos históricos e nas comunidades de herança cultural chinesa nas ilhas das Mascarenhas – Maurícia e Reunião”.

      A primeira sessão, que teve lugar ontem entre as 17h e 19h (hora de Macau) abordou o papel de Macau nas rotas de transporte transoceânico dos trabalhadores chineses contratados ao longo do século XIX, através dos vestígios que estas circulações deixaram em vários arquivos do Oceano Índico e no património cultural local. “É uma presença, pelo que vou descobrindo, plural, mais ou menos visível”, considera Pedro Pombo.

      Um dos grandes interesses, assume, “é investigar os traços sobre Macau em três arquivos no Oceano índico Ocidental: no arquivo Mhamai Kamat do Xavier Centre for Historical Research, em Goa; nos Arquivos Departamentais da ilha da Reunião e nos Arquivos Nacionais da Maurícia”. O projecto, revelou, tem o apoio do Instituto Cultural (IC), “um apoio muito generoso e que possibilita uma pesquisa que de outro modo seria impossível”.

      “As ligações de Macau com a Índia e África portuguesa são óbvias e ainda existe muito por estudar. O que me parece interessante, e que nasce da minha vida académica na Índia e da minha pesquisa no Oceano Índico ocidental, é que as ligações entre os territórios portugueses e as restantes colónias europeias foram intensas e múltiplas (…) Macau, deste modo e nesta altura, era um porto vital na ligação entre os oceanos Pacífico, indico e Atlântico, e isso é extraordinário”, acrescenta Pedro Pombo, que se mostra interessado nas ligações que estão ainda por descobrir, ficando alguns dados para divulgar, mais tarde, no relatório final do projecto.

       

      O Brasil e o império americano espanhol

       

      A segunda sessão, a ter lugar amanhã, sexta-feira, dia 17 de Dezembro, procurará analisar Macau como uma ligação fundamental entre os oceanos Pacífico e Índico através de documentação que evidencia como as rotas dos trabalhadores contratados do século XIX ligavam directamente o porto de Macau às Caraíbas e à América do Sul, inserindo este território nas extensas redes transoceânicas.

      “As ligações entre Macau e o Brasil são obviamente fortes, ao longo de vários séculos. Macau também teve uma ligação forte com o império americano espanhol, sendo a ligação entre Macau e Filipinas de extrema importância. Deste modo, Macau estende a sua importância á América do Sul atlântica e pacífica”, explica Pedro Pombo.

      No que toca ao transporte de trabalhadores contratados, os dois grandes destinos com rotas directas de Macau, considera o investigador português, “foram Callao, no Perú, e Havana, em Cuba”. “Isto é muito interessante, pois estas rotas tinham diversos portos de escala, o que abre pesquisas sobre o que poderá ter ficado deste transporte nas ilhas que ficam ao longo destas rotas. Existem estudos sobre as populações de origem chinesa em Cuba, por exemplo, extremamente interessantes. Por exemplo a obra de Denise Helly sobre esta comunidade denomina-a precisamente pelo nome que ficaram conhecidos localmente como ‘chineses Macau’, o que denota claramente a memória do ponto de embarque destas comunidades que fazem parte da população local. No Hawai trabalhadores chineses oriundos de Hong Kong e Macau começam a chegar ao arquipélago em meados do século XIX, também. Igualmente na Polinésia francesa”, refere o académico.

      Pedro Pombo revela ainda, durante a conversa mantida com o nosso jornal, uma curiosidade, decorrente da sua investigação, que embora seja um dado etnográfico que carece de maior investigação, demonstra a existência de Macau no Índico.

      “Na ilha Rodrigues, região autónoma da Maurícia e parte das ilhas Mascarenhas, o termo creolo local para um habitante de origem chinesa é Makaya.”

      Ambas as sessões deste workshop, assume o CIELA, oferecem aos participantes a oportunidade de acompanhar as metodologias e bases conceituais de uma investigação que cruza o arquivo e a etnografia, a história e a atualidade, os documentos históricos e o mundo sensorial das sociedades contemporâneas que traduzem séculos de circulações marítimas. As aulas online são ministradas em língua inglesa através do link do Zoom em https://umac.zoom.us/j/91846133353?pwd=Mk5SdzB1ekJHUlJrK0lSWVpoaUlBZz09.

       

      PONTO FINAL