A Universidade de São José (USJ) apresenta, no próximo dia 1 de Dezembro, uma palestra que pretende dissecar a presença do navegador britânico George Anson na Ásia e as suas consequências, nomeadamente no que diz respeito ao relacionamento com a China imperial da dinastia Qing, entre 1742 e 1743.
A palestra, intitulada “The King’s Ship in the Celestial Empire: Commodore George Anson’s visits to China, 1742-1743” será conduzida em inglês pelo historiador Nathan Kwan, professor do departamento de História da Faculdade de Letras da Universidade de Macau (UM), e é organizada pelo Centro de Investigação para a Memória e Identidade Xavier. “A minha expectativa com o evento é que seja uma oportunidade para partilhar o meu novo projecto de investigação com a comunidade académica de Macau, especialmente na USJ, e com o público em geral. A palestra é uma introdução ao meu projecto de investigação actual, que analisa o impacto dos conflitos europeus globais na China no século XVIII. As visitas de Anson são o que me inspirou a prosseguir com o projecto. Eventualmente, espero transformar este material num artigo académico”, referiu Nathan Kwan ao PONTO FINAL.
Durante a Guerra da orelha de Jenkins (1739-1748), entre a Grã-Bretanha e a Espanha, o navegador George Anson liderou uma força naval para atacar os navios e assentamentos espanhóis na costa americana do Pacífico. A ideia passava ainda por capturar o galeão de Manila, o famoso navio que transportava prata do Novo Mundo e produtos de luxo asiáticos entre Acapulco, no México, e Manila, nas Filipinas.
Depois de muitas peripécias, o HMS Centurion – o único navio da armada liderada por Anson qie não foi ao fundo -, chegou a Macau em Novembro de 1742. Na altura, os homens liderados pelo britânico não seriam mais de 188, quando tinham partido de Inglaterra, em 1940, com uma tripulação de 1.854 homens.
Mas a vida de George Anson não se apresentava fácil por estas bandas. Tentativas de explicar o seu papel como comandante naval encarregado de atacar navios inimigos levaram-no a ser acusado de pirata. Esse mal-entendido é explicado pelo facto de o único navio sobrevivente ao naufrágio ser um navio de guerra e não de comércio, numa altura em que fervilhava o mundo marítimo e mercantil do Delta do Rio das Pérolas.
Apesar dos mal-entendidos, oficiais imperiais Qing concordaram em fornecer mão-de-obra para reparação do navio, bem como provisões para o Centurion, que deixou Macau, cinco meses depois, em Abril de 1743.
Retornou em Julho com um galeão capturado, o Nuestra Señora de Covandonga, a reboque. O regresso do navegador a Macau causou ainda mais problemas do que na primeira vez, pois continuava a ser visto, de facto, como um pirata e não um oficial da Marinha britânica.
Depois de meses de espera e tensão, Anson finalmente conseguiu uma reunião com as autoridades Qing, que concordaram em isentar o HMS Centurion das taxas portuárias e permitir que o navegador comprasse e carregasse provisões para um retorno triunfal ao Reino Unido.
Existem muitos estudos sobre George Anson e a sua famosa viagem ao redor do mundo, mas a maior parte deles concentra-se quase exclusivamente em relatos e perspectivas do lado britânico.
Grande empecilho às relações da China com o Ocidente
“Esta palestra tentará incorporar mais perspectivas internacionais, particularmente as das autoridades imperiais Qing, na avaliação das visitas de Anson à China. Pretende-se mostrar que as actividades de Anson tiveram um impacto profundo na Ásia. Preocupadas com a facilidade com que um navio de guerra como o HMS Centurion poderia subir o Rio das Pérolas até Cantão, as autoridades Qing implementaram reformas administrativas em Macau para manter uma vigilância mais estreita sobre os estrangeiros. As tentativas espanholas de represálias e as preocupações com o aumento da guerra interromperam severamente o florescente comércio da Europa com a China. Comemorado na Grã-Bretanha, Anson foi fonte de muita angústia na China”, pode ler-se no texto de apresentação da palestra.
Nathan Kwan é um historiador que tem estudado as relações internacionais do Delta do Rio das Pérolas no período Qing. O seu projecto de investigação actual debruça-se nas dimensões navais dos conflitos europeus globais no longo século XVIII e como eles criaram impacto na China. Está particularmente interessado no papel de Macau, com as suas ligações portuguesas, durante estas guerras. “Estou interessado no assunto porque estudo a história das relações internacionais no Delta do Cantão, também conhecido como Área da Grande Baía. A minha tese de doutoramento examinou as relações entre a Grã-Bretanha e a China na região e a sua cooperação contra os piratas no século XIX. Durante os meus estudos de pós-graduação, aprendi um pouco de português e desde então espero incorporar Macau e mais perspectivas portuguesas na minha investigação. Olhar para as guerras europeias e o seu impacto na China, especialmente considerando a posição de Portugal na Europa e em Macau, parece uma boa oportunidade para o fazer”, concluiu o historiador.











