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      Início Sociedade De onde vim, o que sou, para onde vou?

      De onde vim, o que sou, para onde vou?

      Académicos escalpelizam conceitos de lar e de auto-identidade em contexto especial de migração interna e transfronteiriça na China. Baseando-se no resultado de 24 entrevistas em profundidade e duas discussões em grupo entre trabalhadores migrantes chineses que, vivendo em Zhuhai, diariamente atravessam a fronteira para trabalhar em Macau, dois professores universitários tornaram público um estudo que se centra nesses significados de pertença.

       

      Dois académicos locais publicaram um estudo no Journal of Intercultural Studies no qual aprofundam os conceitos de lar, pertença e auto-identidade num grupo de 14 migrantes chineses que, diariamente, passam a fronteira em Macau e Zhuhai.

      “Perceived Understandings of Home and Self-identity among Mainland Chinese Dual Migrants in Macao” é a proposta académica de Bei Ju, professora da Faculdade de Artes e Humanidades da Universidade de Ciências e Tecnologia de Macau (MUST, na sigla inglesa) e de Todd L. Sandel, professor do departamento de Comunicação da Faculdade de Ciências Sociais da Universidade de Macau (UM) que, já desde 2018, têm vindo a trabalhar em diversas publicações sobre o tema e publicado em diversos jornais académicos da especialidade.

      A grosso modo, os dois académicos concluíram que, impactados pela fronteira Zhuhai-Macau, “os participantes podem identificar-se como ‘estranhos’ a Macau, que ‘pertencem’ a um local na China continental devido à percepção de hierarquia na sociedade de Macau”. Contudo, admitem os autores, essa identificação é “fluida e dinâmica”, e muda dentro e através de grupos e configurações sociais. “Os resultados deste estudo lançam luz sobre a China como um contexto especial para a migração interna e transfronteiriça”, acreditam os dois professores.

      O artigo, que se centra nos significados de casa e auto-identidade percebidos pelos trabalhadores migrantes da China continental em Macau, mostra ainda que os migrantes não se fixam em Macau devido ao elevado custo de vida em Macau. A maioria dos participantes tinha menos de 35 anos e trabalhava em Macau há menos de dois anos. Eram oriundos de diferentes províncias do continente: Hubei, Henan, Hunan, Sichuan ou Guangdong. Nenhum tinha habilitações literárias de nível superior e as suas profissões vão desde a segurança à limpeza.

      Para a maioria dos inquiridos o lar é considerado “um investimento emocional e social”, vinculado a um espaço fixo. Os investigadores descobriram que os migrantes discutiam prontamente os seus conceitos de casa e misturavam conceitos de cidade natal, família e espaço de vida independente.

      Por exemplo, depois de cruzar a fronteira, os trabalhadores migrantes sentiram que não tinham permissão para falar alto, atirar lixo para o chão, cuspir ou fumar como desejavam, porque essas acções passavam a ser estritamente controladas. Por isso, em Macau, a maioria “sente uma sensação de pressão”, contrariamente a Zhuhai ou noutros lugares do continente onde “se sentiam livres”.

      Mas afinal, quais são as implicações do lar, identidade própria e pertença na mobilidade? Os autores consideram que a experiência migratória dos inquiridos é marcada “como uma dualidade”, uma vez que deixaram as regiões rurais do continente para vir para Macau, mas acabam por, de facto, não viver em Macau, uma vez que atravessam a fronteira Zhuhai-Macau todos os dias. “Essa experiência e rotina diárias causa um impacto forte na sua compreensão da identidade própria e de conceito de casa”, concluem Bei Ju e Todd L. Sandel.

      Para estes migrantes, a cidade natal, acaba por ser o único conceito fixo, estejam onde estiverem, mudem para onde se mudarem. “É o lugar para a reunião familiar durante o Ano Novo Chinês; é seu destino final, um lugar de extrema filiação”.

      Zhuhai é, para os inquiridos, um destino temporário, servindo apenas como um “lugar de morada” onde os participantes podem descansar e fazer uma pausa no trabalho. E, embora Zhuhai não seja o mesmo que sua cidade natal, ainda podem encontrar ali “uma sensação de calor, de liberdade e de pertença”, o que não sucede com Macau. Para alguns, “o que já vivenciaram em Macau fez de Zhuhai, até certo ponto, ser mais como uma casa, um enclave étnico onde os participantes se sentiam ‘livres’ dos constrangimentos e do sentimento de alteridade que vivenciam” na RAEM.

      Em jeito de conclusão, os autores consideram que o estudo “amplia a compreensão da relação entre migração e noções de lar, demonstrando que, mesmo dentro dos limites de uma única nação, onde a esmagadora maioria da população compartilha um vínculo cultural e semelhança étnica, como é o caso da China, as tensões, oportunidades e desafios da migração revelam um sentido fragmentado do conceito casa”. “Uma vez que Macau é um lugar em constante mudança, especialmente no que diz respeito ao seu estatuto na área da Grande Baía, este trabalho pode ajudar no futuro a monitorizar a relação entre trabalhadores migrantes da China e o povo e a sociedade de Macau”, notam os académicos.

       

      PONTO FINAL