Edição do dia

Domingo, 21 de Abril, 2024
Cidade do Santo Nome de Deus de Macau
chuva moderada
25.9 ° C
26.9 °
25.9 °
94 %
5.7kmh
40 %
Dom
25 °
Seg
25 °
Ter
25 °
Qua
25 °
Qui
29 °

Suplementos

PUB
PUB
Mais
    More
      InícioEntrevistaA nostalgia de Xinmei Liu nas páginas do NYT e da New...
      Xinmei Liu

      A nostalgia de Xinmei Liu nas páginas do NYT e da New Yorker

      O trabalho da jovem ilustradora chinesa tem estado em destaque em algumas das mais prestigiadas publicações do EUA. Inspirada por antigos pósteres de propaganda e por memórias de infância, Xinmei Liu serve-se da ironia e da sátira para desenhar as paisagens urbanas das suas criações.

      Ela era só mais uma criança solitária, entre as muitas que a política de filho único na China Continental ensinou a crescer sem irmãos. Vivia em Xangai, provinha de boas famílias. Enquanto o pai trabalhava no escritório, Xinmei Liu entretinha-se a desenhar. Depois, a tia levou-a a aulas de desenho nos verões que passavam juntas. E foi quase sempre assim até ao ensino secundário e a uma primeira experiência enquanto estudante no estrangeiro: de repente, desenhar podia ser qualquer coisa mais que um passatempo, qualquer coisa para levar a sério. E hoje é. Com um MFA na School of Visual Arts de Nova Iorque, onde também vive, a jovem ilustradora chegou bem depressa às páginas de publicações que faziam parte da sua lista de “clientes de sonho”: o New York Times, a New Yorker, a NBC News, entre outros. Tem exposto desde 2016 nos Estados Unidos da América (EUA) e em 2019 teve também uma mostra em Xangai. Trabalha à distância para clientes na China e, apesar de ainda precisar de maturação, acredita tratar-se de “um mercado ambicioso com muitas oportunidades”.

       

      – Como define o seu estilo enquanto ilustradora?

      X.L. – Esta é sempre uma pergunta difícil de responder porque acho que o meu estilo muda e cresce organicamente com a minha experiência. Também acho difícil definir o estilo de um artista com uma palavra (ou um conjunto de palavras), porque o estilo é muito mais do que apenas a aparência do trabalho. É também a experiência, as influências e a mensagem que moldam o corpo de trabalho do artista. Dito isto, as minhas ilustrações são fortemente inspiradas pela cultura asiática, pelos pósteres vintage e também por gravuras, acho que estes são elementos-chave para o meu estilo.

       

      – Nas suas ilustrações cruza essas referências nostálgicas dos pósteres de época com uma abordagem satírica. É assim?

      X.L. – Acho que essa é uma descrição acertada para descrever o meu conjunto de trabalhos intitulado “Model Citizen Guidelines”, que começou como a série que fiz para a tese do meu MFA [Master in Fine Artes] e depois se expandiu como tema no meu trabalho pessoal. Depois de terminar o MFA, também explorei umas quantas outras direcções, em abordagens mais pessoais. Sempre gostei de pósteres vintage de propaganda, pela sua arte e estilo de design. Além disso, os slogans nesses pósteres são muitas vezes simples e ingénuos, e quase engraçados vistos nos dias de hoje. Simplesmente peguei nessas ideias e imagens, e nos valores que elas representam, e enfatizei-as de um modo que torna as suas contradições mais óbvias. Por exemplo, é sempre melhor colocar os interesses da comunidade antes dos seus? Trata-se de uma mensagem que provavelmente me foi ensinada na maioria das vezes durante a minha educação, e a lógica de raciocínio é que os indivíduos só florescerão numa comunidade próspera. Questionei isto numa imagem de um grupo de crianças a jogar ping-pong juntas, como se fossem um só jogador (o que é obviamente estranho, já que se trata de um desporto individual), emparelhando-a com o slogan “Sê um jogador de equipa”. Acho que isto também pode ser algo para se pensar quando falamos sobre patriotismo no actual contexto.

      – Neste sentido, qual a importância da sua formação e das suas origens – na China, as gerações que viveram antes de si – para o seu processo criativo?

      X.L. – É importante no sentido de que estas são as coisas que experienciei na minha vida. O conflito de opiniões entre mim e a geração dos meus pais, ou outras pessoas com quem me cruzei, fizeram-me pensar e questionar a minha educação. No meu processo criativo, acho sempre mais fácil lidar com assuntos que experienciei ou nos quais estou interessada. Mas não desenho apenas coisas especificamente asiáticas ou chinesas. Acontece que muitos clientes viram isso no meu portfólio e estou a receber mais trabalho com base nisso. Aprendi muito sobre a minha própria cultura ao trabalhar nestas encomendas.

       

      – Quais diria que são os principais temas do seu trabalho de ilustração actualmente?

      X.L. – Para o meu trabalho pessoal, eu diria que recentemente sou levada a criar peças baseadas em memórias de infância e paisagens urbanas nostálgicas (que também são extraídas de memórias de infância). De um modo mais geral, sou movida pela cultura no meu trabalho, seja para mim ou para um cliente. E tento sempre fazer o máximo de pesquisa possível, garantindo que as minhas imagens têm “cultura” nos detalhes.

       

      – Voltemos ao princípio. Como começou a desenhar?

      X.L. – Eu era uma criança solitária, então desenhava no escritório do meu pai quando ele estava a trabalhar (ele era professor universitário e naquela época as famílias chinesas raramente tinham amas). A minha tia levava-me para aulas de desenho quando eu passava o verão com ela. Não me lembro muito bem, mas acho que desenhar foi uma coisa que sempre gostei de fazer. No ensino básico, arranjei um caderno de esboços e comecei a desenhar “ilustrações” inspiradas em letras de músicas pop com lápis de cor. Isso continuou até ao momento em que concorri a cursos de arte na faculdade.

       

      – E como foi essa decisão de ir para uma escola de artes?

      X.L. – Acho que sempre quis ir para uma escola de artes, desde que estava no ensino básico, mas sabia que os meus pais não aprovariam. Naquela altura muitas pessoas, especialmente das gerações mais velhas, pensavam que cursos de arte serviam para pessoas que não eram suficientemente inteligentes para estudar algo “decente”. Estavam totalmente erradas – na verdade, o processo cognitivo é a parte mais importante do meu processo criativo, enquanto a parte do desenho é bastante fácil e relaxante. É preciso uma boa cabeça para chegar a um óptimo conceito. Eu estava nos EUA como estudante de intercâmbio quando comecei a concorrer a faculdades, então simplesmente decidi avançar. Não sabia se entraria em alguma escola de artes, mas achei que não havia mal em concorrer. Os meus pais não aprovavam, mas eu não os via todos os dias, o que tornava tudo mais fácil para mim. E, felizmente, o meu professor de arte à época deu-me muito apoio e encorajamento.

      – Porque é que decidiu estudar fora da China e permanecer no exterior?

      X.L. – Na verdade, muitos dos meus amigos do ensino secundário estavam a sair para escolas no exterior, era uma espécie de tendência. Frequentei uma espécie de escola secundária pública elitista em Xangai, onde todos os anos muitos ex-alunos eram aceites nas universidades da Ivy League. Eu também não poderia entrar numa escola de artes chinesa porque nunca fiz o treino para o exame de admissão. Acho que foi muito porque sempre vivi na mesma cidade e num ambiente competitivo até àquela altura, queria ver o mundo lá fora. E, na verdade, voltei para casa em Xangai depois da faculdade, fiquei por lá dois anos. Mas não gostei muito. Não conseguia viver de trabalhos freelance e, honestamente, não conhecia muito o mercado na China, já que tudo o que sabia sobre ilustração fora aprendido nos EUA. Estava prestes a desistir totalmente da ilustração quando entrei no programa de MFA da School of Visual Arts [de Nova Iorque]. Então, decidi voltar aos EUA e fui capaz de fazer alguns progressos a partir daí.

       

      – Como surgiu a possibilidade de colaborar com publicações como o New York Times e a New Yorker? O que é que isso significa para si como profissional?

      X.L. – Na verdade apenas enviei e-mails para os directores de arte dessas publicações com o meu portfólio e eles foram suficientemente gentis para me confiar esses trabalhos. Felizmente agora é muito fácil para os artistas promoverem-se por meio das redes sociais e via e-mail. Publicações como o NYT e a New Yorker usam muitas ilustrações e estão sempre em busca de novos ilustradores. É claro que sou extremamente sortuda por ter estas oportunidades, já que estas publicações estão na minha lista de clientes de sonho há algum tempo. Mas faço por tratar todos os trabalhos de forma igual, tentando apreciá-los o máximo que posso, para que consiga chegar ao melhor resultado, não importa que seja para um cliente maior ou menor.

      – Também colabora com algumas publicações na China. Quais são as principais diferenças no trabalho comissionado que recebe destes dois países e de duas realidades diferentes?

      X.L. – Comparativamente, a indústria criativa está mais madura nos EUA, e mais pessoas estão cientes de que os artistas devem ser pagos de forma justa pelo seu tempo e trabalho. Acho que a indústria na China está a melhorar, mas apercebo-me que muitas vezes as pessoas que encomendam as ilustrações não são da área criativa. Por vezes são editores de texto e não conseguem visualizar as ideias tão bem quanto um criativo, de modo que isso causa sempre alguns problemas de comunicação e resulta em perda de tempo. Mas é um mercado ambicioso, com muitas oportunidades.

       

      – Como é o seu processo técnico? Li noutra entrevista que desenha com tinta da china, depois digitaliza e pinta no Photoshop. É assim?

      X.L. – Sim, esse é o meu processo. No começo faço sempre esboços de ideias com um lápis no papel e por vezes preencho muitas folhas com vários conceitos. Se for um trabalho para um cliente, irei então seleccionar alguns esboços bons e desenhá-los no meu iPad ordenadamente, para enviar ao cliente. Sinto que o processo de rascunho não deve realmente ser menorizado, por vezes leva mais tempo do que a produção da própria peça. Finalmente vêm a caneta a tinta da china, a digitalização e o photoshop sobre os quais leu.

       

      – Ainda trabalha como assistente editorial na Paradise Systems, que publica comics chineses? Como é esse trabalho?

      X.L. – Sim, estou a trabalhar em part-time para a Paradise Systems e é uma combinação de tarefas, desde design, edição, tradução, até embalamento de remessas. Somos uma pequena editora com uma equipa principal de três pessoas e, na verdade, para mim é mais um projecto que faço por paixão. Tanto o Orion (que é o fundador) quanto o Jason (editor) têm outros trabalhos paralelos, e eu também. Na verdade, já conhecia pessoalmente alguns dos cartoonistas que publicamos quando entrei para a equipa e estou muito entusiasmada por partilhar o trabalho desses incríveis artistas chineses com o público de língua inglesa.

      – Fez muito recentemente uma ilustração para a crítica literária do romance da autora Yan Ge agora publicado em inglês, Strange Beasts of China.  Como foi ilustrar tendo por inspiração o trabalho desta escritora?

       

      X.L. – A peça para a crítica do livro Strange Beasts of China foi absolutamente divertida de fazer. Creio que o romance foi um dos seus primeiros trabalhos, publicado há mais de uma década. O objectivo era captar o clima melancólico geral do livro, bem como o cenário urbano retratado ao longo do romance. Felizmente, consegui ler o romance original em chinês numa versão online, enquanto trabalhava na peça, para sentir melhor o clima, e adorei. O livro na verdade descreve as “bestas” como sendo muito semelhantes aos humanos, mas no final ajustámos a aparência da “besta” na ilustração para ter mais características animais, de forma que não fosse muito subtil para o leitor – espero que Yan Ge não esteja muito incomodada com isto. Gostei de desenhar a paisagem urbana, a cidade fictícia de Yong’an, na qual a história se passa, lembrou-me da zona de Xangai onde cresci.

       

      – Já recebeu alguma encomenda sobre Macau ou Hong Kong?

      X.L. – Fiz uma ilustração no início deste ano para a NBC News sobre uma história de uma adolescente que fugiu de Hong Kong para o Reino Unido. Ainda não trabalhei com nenhum cliente em Macau ou Hong Kong, mas adoraria.