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      Um recipiente onde guardar a memória

      Stacey Qiao

      Nascido em 1982 numa pequena cidade costeira na província chinesa de Fujian, Cai Chongda 蔡崇達 é um escritor reconhecido do grande público, não apenas pelos seus textos, mas igualmente pela actividade mediática e empresarial que tem vindo a desenvolver. Ainda na escola secundária,  Cai ganhou o primeiro prémio no Concurso de Escrita New Concept, a contenda literária mais prestigiada para jovens escritores do país. Aos 27 anos, foi contratado pela GQ China como Director de Reportagem, tornando-se a pessoa mais jovem a ocupar esta posição nas dezassete filiais internacionais da revista. Pouco depois, avançou para o mundo da moda, fundando a marca de roupa masculina Magmode.

      Tudo isto trouxe fama e reconhecimento a Cai Chongda, mas o seu livro de estreia, um livro de memórias, não fala de nenhuma das suas aventuras empreendedoras. Com o título Vessel《皮囊》, originalmente publicado pela Tianjin People’s Publishing House em 2014, a colecção de ensaios é um relato sincero das histórias da sua família e amigos próximos e, pouco depois da publicação, tornou-se um bestseller nacional, com mais de 3 milhões de exemplares vendidos. No mês passado, a versão inglesa do livro, Vessel: A Memoir, foi publicada por HarperVia.

      Traduzido por Dylan Levi King, o livro de memórias é composto por catorze ensaios, acrescentados de um posfácio e uma nota do tradutor inglês, que ajuda a contextualizar alguns detalhes. Apesar do subtítulo, este não é um livro de memórias que siga a estrutura clássica do género, atendo-se à cronologia. Pelo contrário, o texto vai saltando no tempo sempre que tal é necessário e o seu avanço narrativo gira em torno da evolução do autor em direcção à pessoa que é hoje. As observações profundas sobre as pessoas que o foram rodeando parecem dever muito ao olhar jornalístico do autor, que ocupa parte considerável da prosa com questões universais – a doença e a morte dos entes queridos (e a nossa), o abismo entre o que idealizamos e a realidade, a escolha entre ficar e partir.

      O primeiro ensaio, aquele que dá título ao livro, centra-se na bisavó de Cai, carinhosamente chamada de Nana e figura estruturante da família. Nana tinha a reputação de ser uma velha mulher dura e Cai via-a como se tivesse sido esculpida em pedra, tão resistente que nada a poderia magoar. Perante todos os problemas que a vida foi fazendo desfilar, permaneceu calma e composta, como se nada de muito grave estivesse a acontecer, assumindo-se como pilar da família alargada. A cena que abre o texto é particularmente intensa: quando a filha de Nana, avó de Cai, morreu, com cerca de cinquenta anos, Nana não chorou uma lágrima no funeral: «Quando chegou o momento de ver a sua filha partir, ficou furiosa. Por razões que ela própria não conseguia processar, andou perdida pela casa, praguejando consigo mesma. Abriu a tampa do caixão para olhar para a sua filha, depois foi à cozinha para inspeccionar as ofertas [de comida] para o funeral. Quando voltou para a sala, viu alguém a tentar matar uma galinha. Tinham cortado o pescoço da ave, mas não tinham conseguido cortar a sua artéria carótida. A galinha corria por todo o lado, sujando tudo de sangue. Nana avançou, agarrou na galinha e atirou-a furiosamente para o chão. Os pés da galinha estrebucharam, depois, finalmente, o animal parou de se mexer. “É preciso encerrar as coisas – não deixar que o corpo torture a alma”. Nana não era uma mulher educada, mas tinha a reputação de uma espécie de bruxa, com algo de médica. Ocasionalmente, saía-se com frases que pareciam ter sido tiradas de algum velho livro poeirento.» Foi esta mulher, já velha e com uma vida dura pelas costas, que deu a Cai a ideia de que as pessoas precisam de deixar que os seus corpos as sirvam, e não o contrário: «O nosso corpo é um recipiente. Se esperarmos que ele faça alguma coisa, não há esperança para nós. Se pusermos o corpo a trabalhar, podemos começar a viver».

      No entanto, há alturas em que o corpo pode ser um verdadeiro fardo. Parte considerável dos outros ensaios que compõem Vessel: A memoir centram-se no pai de Cai, um homem “encurralado” no seu recipiente. Antigo líder comunista, perdeu o emprego por violar a política do filho único e, mais tarde, ficou parcialmente paralisado por um acidente vascular cerebral. Privado de qualquer possibilidade de uma vida confortável, lutou arduamente para manter intactos os últimos restos da sua dignidade. Cai escreve sobre o seu pai sempre agarrado à ténue esperança de recuperação, insistindo em sair de casa para se exercitar, mesmo no dia em que um intenso tufão atingiu a sua área de residência:  «A voz do meu pai fez-me lembrar um tractor inclinado, com o motor a rugir. Os vizinhos ouviram-no e começaram a as janelas para verem o que se passava lá fora. Fui até à porta e escancarei-a. “Vai”, disse eu, “vai”. Ninguém te está a impedir”. O meu pai nem sequer me olhou de relance. Equilibrando o seu volume envergonhado na bengala, saiu pela porta fora. O vento e a chuva pareciam intensificar-se naquele momento. Foi soprado para o outro lado da estrada, como se não pesasse mais do que uma folha.»

      A história arrebatadora de uma família marcada pela doença de um membro e tentando sobreviver a esse episódio foi o primeiro ensaio que Cai escreveu, e foi ele que o levou a anotar outras coisas sobre pessoas de quem gostava. Como o autor recorda no Posfácio, «terminar aquele ensaio criou em mim um sentimento de urgência: não queria parar com o meu pai. Se conseguia levar a cabo essa tentativa de ver verdadeiramente o meu pai, pensei que deveria tentar ver também outras pessoas na minha vida e honrá-las da mesma forma. Ia caminhar contra a correria do tempo para tentar preservar algo delas. Era também uma forma de me compreender a mim próprio. Afinal, são as pessoas nas nossas vidas que nos formam e fazem de nós a pessoa que vemos ao espelho”.

      É com essa vontade de compreensão que Cai faz desfilar outras personagens. A sua mãe, uma mulher resiliente que sempre recusou a simpatia dos outros e que vivia obcecada com a construção de uma casa de quatro andares, a mais alta da aldeia; o ambicioso amigo universitário, Hope, que sonhou demasiado alto e acabou por ser devorado pelos seus sonhos; Wenzhan, uma alma inquieta que Cai idolatrou quando criança e se apercebeu que era como ele próprio; Tiny, uma criança de esquerda que, no final, se juntou à sua família em Hong Kong, mas que sempre se sentiu como um forasteiro. Ao longo do livro, há inúmeras referências à cultura e às tradições locais da aldeia de Cai, em Fujian, material que acaba por ser um modo de testemunhar as grandes mudanças ocorridas na China nas últimas décadas, bem como de perceber os vestígios ainda visíveis dessas tradições. Vessel: A memoir não romantiza nem condena as pessoas e as circunstâncias que moldaram a sua vida. Em vez disso, oferece um caminho em frente, revelando como a tradição pode enriquecer a vida moderna.

       

      Cai Chongda

      Vessel: A Memoir

      HarperVia