Edição do dia

Terça-feira, 25 de Junho, 2024
Cidade do Santo Nome de Deus de Macau
céu pouco nublado
29 ° C
29.9 °
28.9 °
89 %
3.6kmh
20 %
Seg
28 °
Ter
30 °
Qua
30 °
Qui
30 °
Sex
30 °

Suplementos

PUB
PUB
Mais
    More

      CRÍTICA

      Leïla Slimani e Clément Oubrerie

      Nas Suas Mãos – A incrível vida de Susanne Noël

      Iguana

      Tradução de Tânia Ganho

       

      UMA VIDA EM CARNE VIVA

       

      Não é frequente que grandes romancistas decidam criar narrativas em banda desenhada. As adaptações de romances a esta linguagem acontecem muitas vezes, mas não costumam ser os seus autores originais a tratar do argumento. Neste caso, não se trata de uma adaptação, mas de uma incursão da escritora Leïla Slimani, vencedora, entre outros galardões, do Prémio Goncourt, na escrita para banda desenhada, trabalho que dividiu com o desenhador Clément Oubrerie para a criação deste Nas Suas Mãos – A incrível vida de Susanne Noël. O ponto de partida é a biografia de Susanne Noël, pioneira da cirurgia estética, mas a dupla Slimani e Oubrerie faz desta história de vida algo mais que a mera sucessão de eventos biográficos.

      Comecemos por esses eventos. Nascida em 1878 no seio de uma família de classe média de Laon, em França, nada indicava que Susanne Noël haveria de seguir uma carreira médica, acabando por alcançar esse marco de ser pioneira na cirurgia estética. Houve alguma sorte no percurso, mas houve sobretudo persistência e pouca vontade de aceder aos mandos e desmandos de uma sociedade que colocava as mulheres num patamar doméstico e de submissão. Aos 19 anos, Susanne casou-se com o dermatologista parisiense  Henri Pertat, que sempre a apoiou na sua decisão de estudar. Concluído o bacharelato, inscreveu-se na Faculdade de Medicina de Paris e, depois de múltiplas batalhas com colegas e corpo docente, decorrentes do exotismo de uma mulher frequentar as salas escolares de tão alto grau, acabou por revelar-se uma médica mais do que promissora, mudando muita coisa na cirurgia plástica, tecnicamente, mas também ao nível da percepção social.

      Sem ser possível separar de modo inequívoco argumento e desenho, o que confirma a qualidade desta primeira incursão de Slimani na banda desenhada, percebe-se que este percurso exerceu na escritora um fascínio capaz de desencadear a narrativa complexa e atenta aos tropeções da natureza humana que aqui se lê. Entre alinhamento dos factos e mise-en-pâge, o livro tira partido do pioneirismo da protagonista, elevando-o à condição de tema, mas estende-se noutras direcções, mais interessantes do ponto de vista diegético, sobretudo quando são geradoras de conflitos. Os mais óbvios passam, naturalmente, pelo choque entre os desejos de Susanne e as limitações impostas pela sociedade às mulheres que desejavam outra coisa que não fosse casar, ter filhos e dedicar-se à vida do lar. Esses são explícitos e vão contrastando não apenas com a tenacidade da personagem, mas também com o seu envolvimento político com grupos de mulheres, em França e não só, que juntam a luta pelo sufrágio universal a outras lutas pelos direitos das mulheres. Mas há outros, mais profundos, entre eles a percepção social do trabalho médico de Susanne, independentemente do sexo de quem o leva a cabo. A jovem médica passa os primeiros tempos como cirurgiã explicando que operar pessoas de algum modo desfiguradas, ou com traços fisionómicos que não se encaixam numa ideia de normalidade, não é mero capricho estético, podendo mesmo ser o gesto fundamental para restabelecer uma auto-estima que não é independente da saúde geral do corpo. Só quando começam a chegar a Paris os primeiros soldados desfigurados vindos das trincheiras da Grande Guerra essa explicação ganhará adeptos, reviravolta que não será total (a opinião geral mantém-se, abrindo uma excepção para os soldados), mas que o livro de Slimani e Oubrerie explora de modo exemplar. Vejam-se as pranchas onde surgem, lado a lado, as imagens da guerra e o cenário do hospital cheio de feridos, um jogo visual que começa por parecer contraste entre o medo e a segurança, mas que rapidamente se revela uma continuação, uma vez que as experiências vividas no terreno não desaparecem e as marcas que deixam no corpo são disso o melhor exemplo.

      O argumento nunca foge à cronologia da vida de Susanne Noël, seguindo-lhe os passos desde a infância, mas o trabalho conjunto de Leïla Slimani e Clément Oubrerie extravasa o tom biográfico, mergulhando noutras águas a partir de um trabalho intenso de caracterização psicológica, sempre reflectido nas imagens criadas por Oubrerie, umas vezes antecipando acontecimentos – como acontece com as incursões da pintura ocidental que se vão imiscuindo em certas pranchas e vinhetas, como que anunciando o momento em que Susanne quase perde a visão («Com os meus problemas de vista, tenho a impressão de estar emersa nos quadros de Gaugin», comenta a dada altura, numa das suas viagens) – e outras acentuando a convicção da protagonista nas suas acções através do desenho de ângulos e posturas que a confirmam.

      Longe do facilitismo que atravessa tantas biografias ou cenas históricas contadas em banda desenhada, Nas Suas Mãos foge de tiradas didácticas ou linearidades básicas, preferindo o risco de explorar as dúvidas, os tropeções e as lutas que fazem uma vida valer a pena. O filão histórico, chamemos-lhe assim, não se perde, e há espaço para transmitir o papel pioneiro desta cirurgiã francesa, bem como o contexto em que viveu e desenvolveu o seu trabalho, mas é nas histórias quotidianas e nos desejos e sonhos que fazem mover a protagonista que está o osso deste livro, exemplar na ligação inquebrável que estabelece entre texto e imagem, bem como na abordagem do abismo, da ternura e do caos que compõem uma vida tão fascinante como a de Susanne Noël.

       

       

       

       

       

       

       

      Ponto Final
      Ponto Finalhttps://pontofinal-macau.com
      Redacção do Ponto Final Macau