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      Esquecer para não lembrar

      Há uma canção dos americanos LCD Soundsystem, que nada tem que ver com a China, em que a dada altura James Murphy diz assim: «but wait until the weekend/ and we can make our bad dreams come true». Não passou exactamente uma semana desde que algumas das distopias literárias mais relevantes do século XX foram escritas e publicadas – Admirável Mundo Novo, de Aldus Huxley, em 1932; 1984, de George Orwell, em 1948, a que mais nos interessa neste caso por ter inspirado Ma Jian – mas a velocidade a que alguns estados modernos têm vindo a colocar a tecnologia ao serviço do domínio e repressão de todas as esferas da vida dos seus cidadãos é bem próprio de uma máquina de realização de sonhos, de sonhos maus.

      Se os LCD Soundsystem nada têm que ver com o que aqui nos traz para lá da sugestão já referida, o mesmo não se pode dizer do seu país. A minha geração (e outras antes da minha) cresceu a ouvir o jargão “sonho americano” na televisão e no cinema e na política. O conceito, descubro para escrever este texto, foi cunhado pelo historiador John Truslow Adams Adams em 1931, na obra Epic of America. Oitenta e um anos depois, apareceu o “sonho da China” 中国梦, primeiro nos discursos do presidente Xi Jinping, depois propagado através de slogans políticos e campanhas de propaganda, na internet e nas paredes de Pequim e de outras cidades chinesas, em obras sobre o pensamento político chinês contemporâneo e, em 2018, no título do livro deste livro de Ma Jian: O Sonho da China.

      Nas palavras de Xi, este desígnio nacional, misto de orgulho patriótico e realização pessoal, define-se mais ou menos assim: «Devemos fazer esforços persistentes, avançar com vontade indomável para realizar o sonho chinês, o sonho do grande rejuvenescimento nacional da China.»

      Ma Jian, por sua vez, tem uma visão bem diferente deste sonho. No prefácio a O Sonho da China, agora publicado em português, o ficcionista há muito radicado na Europa – primeiro na Alemanha e depois no Reino Unido – não é de meias medidas: considera-o um «slogan vago e nebuloso» e diz que «na China os tiranos nunca se limitaram a controlar a vida das pessoas; sempre procuraram entrar-lhes na mente, moldando-a a partir de dentro». É esse o grande desígnio do protagonista do livro, o anti-herói Ma Daode, director da Repartição do Sonho da China.

      Ma, um funcionário governamental de alta patente, tem estatuto, dinheiro, diversas amantes e um quotidiano que serpenteia entre o serviço público e a necessária corrupção. Defensor acérrimo do “sonho” do seu presidente, Mao explica aos colegas que este «não se trata de um sonho egoísta e individualista como os dos países ocidentais. Trata-se de um sonho do povo». A sua função é «fazer com que o Sonho da China penetre na mente de todos os residentes da cidade de Ziyang». Para tal, é preciso «eliminar as lembranças e os sonhos privados», através de uma lavagem ao cérebro, por via de um implante neuronal que Ma almeja criar e ser o primeiro a utilizar: o Dispositivo do Sonho da China.

      O problema de Ma Daode é que são as suas próprias memórias que acabam por traí-lo. Numa espécie de descida aos infernos privados da sua consciência, Ma vê-se assolado por torrentes de lembranças daquilo que foi a sua vida durante a Revolução Cultural – as privações por que passou, as vidas que viu humilhadas, destruídas ou mesmo ceifadas com a sua participação ou conivência, como as dos seus pais. Ma, ambicioso e fiel, esforça-se por esquecer, quer esquecer para não lembrar, perde o controlo das suas próprias memórias e, por extensão, da sua performance profissional perante os outros. Depressa vê a sua vida ruir a uma velocidade infinitamente superior àquela da sua construção.

      Ma Jian utiliza protagonistas e factos reais para narrar esta história, a começar por Xi Jinping. Adiciona-lhes doses industriais de sátira e de crítica violenta, para chegar a uma receita de livro-denúncia ou livro-panfleto, consoante os olhos que o leiam. O autor de Beijing Coma (sobre Tiananmen) e Dark Road (sobre a política de filho único) palmilha há muitos anos uma estrada de oposição aos governos da República Popular da China, desde que, em 1987, viu proibida a sua primeira colecção de histórias sobre o Tibete, Stick Out Your Tongue, considerada pelas autoridades como “poluição espiritual”. O Sonho da China, vertido para português por Maria Marques a partir da versão inglesa preparada por Flora Drew, a companheira de Ma Jian, é um livro-arma importante sobre a paranoia do controlo dos cidadãos e o modo como «o povo chinês perdeu a capacidade de distinguir a realidade da ficção» após aquilo que Ma descreve como «décadas de doutrinação» – nessa versão inglesa, a capa é da autoria de outro dissidente de extenso currículo, Ai Weiwei. No entanto, O Sonho da China é também, ao menos em português, um livro de fracos méritos literários no que ao trabalho de linguagem diz respeito.

      Vale a pena observar que Ma Jian e Xi Jinping nasceram no mesmo ano de 1953. Ambos passaram por décadas conturbadas no seu país natal e ambos as sentiram na pele ou pelo menos nos tecidos familiares. Hoje, um lidera a China; o outro não pode sequer entrar na China. É por isso que, ferido, Ma Jian afirma: «O Sonho da China nasceu da minha raiva contra as falsas utopias que escravizaram e infantilizaram a China a partir de 1949, e com o objectivo de resgatar o período mais brutal da sua história recente – a fase de “luta violenta” que foi a Revolução Cultural – e um regime que continua a reprimi-lo». Ma Daode, a vida corrupta que leva e as rememorações delirantes que o assaltam e o desgraçam, são o mecanismo que encontrou para fazê-lo.

       


      Ma Jian
      O Sonho da China
      Quetzal
      Tradução de Maria Marques