EDITORIAL

0
45

Passam cem anos sobre o nascimento de José Saramago. Um século do único escritor de língua portuguesa a ser distinguido com um Prémio Nobel da Literatura, mas sobretudo de um escritor que deixou obra extensa e actual, capaz de continuar a questionar-nos e a fazer-nos questionar o mundo e a nós próprios. O ano será marcado por reedições de muitos dos seus livros – algumas delas já nas livrarias – e também por exposições, concertos, debates, conferências e novos livros que se debruçam sobre a obra do autor de Memorial do Convento. Um deles, uma autobiografia assinada por Ricardo Viel e Alejandro García, trará vários retratos e instantâneos inéditos, contribuindo para renovar e ampliar o que se conhece da vida de Saramago. E conhece-se bastante, sobretudo porque o autor se afirmou sempre como cidadão, não prescindindo de intervir politicamente no mundo e nas múltiplas formas que este tem de se organizar, mas também porque houve várias polémicas que o envolveram, das afirmações do ministro Sousa Lara sobre O Evangelho Segundo Jesus Cristo aos debates recorrentes com a hierarquia da Igreja Católica, nomeadamente aquando da publicação de Caim. Não desvalorizemos as polémicas, até porque a discussão, a defesa de diferentes pontos de vista e mesmo a crítica mais demolidora são elementos fundamentais de uma sociedade que não se tenha por amorfa. Os grandes consensos tendem a dever mais à hipocrisia do que a um modo pleno de habitar a pólis – mesmo que a pólis seja o mundo. Por todos estes motivos, a edição deste mês do Parágrafo é em boa parte preenchida pelo centenário de José Saramago. Traçamos percursos possíveis pelo programa das comemorações que já começaram, apresentamos alguns dos muitos livros que se publicarão e escutamos Carlos Reis, responsável pela programação, sobre o que aí vem e sobretudo sobre a importância de Saramago para a literatura universal. Para além disso, regressamos à Jangada de Pedra, com uma análise crítica de Ana Paula Dias, e lemos o próprio José Saramago sobre algumas das ideias presentes nesse romance, num texto que publicou no Libération.  As crónicas, as críticas, o conto e a atenção ao que de novo chegou às livrarias mantêm-se, mas pareceu-nos essencial acolher este centenário sem demasiadas condicionantes de espaço. À Fundação José Saramago, o nosso agradecimento pela cedência de fotografias, algumas delas inéditas, e pela autorização para publicar o texto do autor, originalmente publicado no Libération.

[Declaração de interesses: quem assina este editorial escreve regularmente na revista publicada pela Fundação José Saramago. Também por isso, os textos sobre Saramago, a sua obra e o centenário foram entregues a outros autores.]