Fazer as pazes com o passado é uma expressão que se escuta com frequência, sobretudo proferida por responsáveis políticos que assumem esse passado como uma espécie lugar estrangeiro (provavelmente onde as coisas se fazem de modo diferente, nas palavras do romancista inglês L. P. Hartley). Ora, o passado não nos é estranho, pelo contrário. Se sentimos necessidade de o invocar, é porque lá temos ainda raízes, razões, coisas por perceber, e isto até em passados que nos são geracionalmente anteriores. É essa a ideia estruturante que atravessa O Abismo do Esquecimento, de Paco Roca e Rodrigo Terrasa, uma narrativa em banda desenhada sobre os “desaparecidos” do franquismo, em Espanha, eufemismo para os tantos que morreram às mãos do Estado e cujos corpos nunca foram devolvidos às famílias.
Em Espanha, a Lei da Memória Democrática foi aprovada em 2020, permitindo a exumação e o novo enterro das vítimas do franquismo, bem como a criação de um banco nacional de ADN que contribua para que conheçam as identidades dos tantos corpos por identificar. Depois disso, a sua aplicação efectiva teve avanços e recuos. Muitos responsáveis políticos, alguns com ligações históricas ou ideológicas ao regime de Franco, tentaram que travar processos de exumação, cortando fundos ou argumentando que o passado era coisa para se deixar sossegada. Neste livro, Roca e Terrasa mostram que essa recusa de convocar o passado não tem como contrariar a vontade férrea de muitos dos descendentes desses assassinados pela polícia franquista. A história que aqui contam, e para a qual convocam pessoas reais, documentos e factos, é a de alguns desses descendentes, mas também a das próprias vítimas, trazidas para o tempo presente através dessa ferramenta absolutamente extraordinária que guardamos enquanto espécie: a capacidade (talvez seja mais correcto chamar-lhe necessidade) de contar histórias. A persistência de Pepica Celda, filha de uma das vítimas cujo corpo a família não pôde velar, assume nesta banda desenhada o duplo papel de exemplo, quase uma sinédoque humana representando todos os descendentes que não sabem do paradeiro dos seus familiares assassinados, mas apresentando também a sua história única, pessoal, onde podemos reflectir-nos, mesmo não partilhando um percurso que se assemelhe.
Se Pepica Celda, e vários outros descendentes dos mortos enterrados no cemitério de Paterna, na região de Valência, puderam ter esperança de identificar os restos mortais dos seus familiares, isso deveu-se em boa medida a Leoncio Badía, um republicano que, caído em desgraça pelos seus ideais, recebeu do regime de Franco a missão, dada como castigo, de enterrar em Paterna os que o mesmo regime ia assassinando. Isto já depois de terminada a Guerra Civil, o que ainda contriuiu mais para que destas vítimas não se quisesse falar. Badía, outra figura central nesta banda desenhada onde tantas vozes tomam a palavra, assumiu a responsabilidade de fazer os possíveis para que os corpos que enterravam não caíssem no esquecimento, pelo que foi registando lugares de enterramento, recolhendo indícios – um pedaço de roupa, botões, madeixas de cabelo – que permitiram identificar algumas vítimas. E foi por causa de uma madeixa de cabelo de José Celda que Pepica nunca perdeu a esperança de reencontrar o corpo do pai.
A história de O Abismo do Esquecimento confirma que o passado, em boa verdade, talvez não exista, pelo menos com esse sentido de um tempo à parte, afastado do que somos, apenas um eco. Ao longo de quase trezentas pranchas, o eixo do tempo vai-se deslocando, não apenas entre o período do franquismo e o presente em que uma equipa de antropólogos forenses escava a vala 126 do cemitério de Paterna. O tempo recua ainda mais, convocando os primeiros enterramentos humanos, as histórias narradas por Sófocles e Homero (estas assumindo uma vertente gráfica marcadamente diferente, despojada, os traços quase dourados sobre um fundo preto a remeterem para uma ancestralidade que ainda assim continua a ser-nos presente), essa necessidade humana de lidar com a consciência da finitude. Recua de tal modo, e de tal modo avança, que se torna claro que é um mesmo tempo: precisamos, como sempre precisámos, de confirmar os nossos mortos, de lhes aceitar o fim, de saber como guardar o que deixaram, e o acto de narrar faz parte desse processo.
Em pranchas marcadas pela combinação da habitual linha clara de Paco Roca e de tons sépia que não se limitam aos episódios passados, O Abismo do Esquecimento é uma homenagem aos que caíram às mãos de Franco, mas também aos que guardaram as histórias e as memórias (alguns assumindo essa tarefa ao mesmo tempo que as vítimas eram fuziladas, como Leoncio Badía) e aos que, não sendo herdeiros directos dos que partiram, ainda assim persistem no direito à memória, como os elementos da equipa forense retratada neste livro. De certo modo, também Paco Roca e Rodrigo Terrasa se integram nesse grupo, ainda que não sejam personagens do livro. Fazer as pazes com o passado nunca é esquecê-lo, por mais que haja quem se empenhe em querer fazer desse esquecimento regra. Neste livro, uma bela elegia em banda desenhada que acaba por ser também ode à memória e à sua condição de matéria presente, reconstrói-se um pouco do passado menos querido de Espanha, mas faz-se sobretudo justiça e de um modo que talvez seja o que melhor serve à posteridade: contando as histórias que ficaram por contar.










