Arquitectos pedem cautela na revitalização do Pátio da Claridade

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FOTOGRAFIA ELOI CARVALHO

O proprietário do Pátio da Claridade, na zona do Patane, quer revitalizar aquele espaço com hotéis e restaurantes. Arquitectos de Macau ouvidos pelo PONTO FINAL salientam que o projecto deve ser desenvolvido respeitando o património. Carlos Marreiros diz que recuperar aquele espaço será “um exercício muito difícil”. Christine Choi aplaude a tentativa de dar vitalidade àquela zona. Já Nuno Soares gostava de ver o Pátio da Claridade classificado como conjunto.

O proprietário do Pátio da Claridade quer revitalizar aquele espaço de forma a que se transforme numa “atracção turística”, com um hotel boutique e uma rua de gastronomia. Ao PONTO FINAL, vários arquitectos de Macau defenderam que essa revitalização deve ser feita com cautela.

Numa opinião remetida ao Conselho do Planeamento Urbanístico, o proprietário defendeu que a revitalização da zona não deve estar sujeita a “condições restritivas”, uma vez que não se tratam de imóveis classificados. O proprietário, uma empresa local denominada por Grupo Lek Hang, adiantou que o plano é construir um complexo ao longo do pátio, com rés-do-chão e primeiro andar equipados com mais de 40 restaurantes de cozinhas de diferentes países. Já no restante complexo será construído um hotel, “com uma aparência esteticamente agradável para atrair turistas a tirarem fotografias”. O grupo revelou também que iria instalar uma zona de exposição sobre a história do Pátio da Claridade, do Patane e do Porto Interior, bem como organizar workshops sobre cultura e gastronomia.

Na reunião do Conselho do Planeamento Urbanístico (CPU) a Direcção dos Serviços de Solos e Construção Urbana (DSSCU) afirmou que o projecto de Planta de Condições Urbanísticas mais recente do Pátio da Claridade “consegue equilibrar o desenvolvimento e a conservação”. Esta planta prevê a preservação das fachadas dos edifícios existentes e também permite o aumento da altura das construções, sendo que a altura máxima permitida naquele terreno é de 20,5 metros. A planta exige também que a concepção arquitectónica da parte acrescida deva estar em harmonia com a aparência das respectivas construções originais.

NUNO SOARES DEFENDE CLASSIFICAÇÃO

O arquitecto Nuno Soares explica que o Pátio da Claridade refere-se a um conjunto de 48 casas voltadas para um espaço central, formando uma comunidade. É o maior conjunto de pátios de Macau e a sua extensão é semelhante à Rua da Felicidade, criando “uma malha uniforme”, um “elemento que não é só de arquitectura, mas de tecido urbano”.

“O Pátio da Claridade faz parte de uma tipologia arquitectónica e urbana que é única em Macau, a tipologia dos pátios”, detalha, assinalando que estes edifícios foram desenvolvidos no Porto Interior sobretudo no século XIX até ao princípio do século XX e eram os locais onde vivia a comunidade chinesa em Macau.

Nuno Soares nota que os edifícios do pátio têm, só por si, mérito arquitectónico, mas além disso “a tipologia é muito rica e merece ser preservada porque é muito sintomática de como a população vivia em Macau no passado”. “São património que no futuro vai continuar a ter valor”, frisou o autor do estudo “The Inner Harbour Vernacular Heritage”, publicado em 2014, sobre o Porto Interior. Nesse estudo, o arquitecto sugeria a classificação do Pátio da Claridade e de muitos outros pátios de Macau como conjuntos. Esta proposta, suportada por investigação histórica, foi enviada para o Instituto Cultural (IC), mas até hoje não foi acolhida.

“Temos uma lista de património classificado em Macau que é muito reduzida. Este pátio está fora da zona de protecção, não é um conjunto, não é um edifício de interesse arquitectónico e não é um monumento. Porém, claramente tem mérito para ser um conjunto, tal como a Rua da Felicidade, mas não é”, lamenta, indicando que, por esse motivo, aplica-se a lei geral. O IC propõe para classificação cerca de dez edifícios por ano. Para Soares, “é bom, mas é pouco”.

O arquitecto e investigador sublinha que “o que o proprietário quer fazer é legítimo”, contudo, “paulatinamente, à medida que vão surgindo propostas dos proprietários para alterar [este tipo de espaços], eles vão sendo alterados e não há muito que se possa fazer”. “Macau é pequeno, não é difícil fazer um inventário dos edifícios que têm mérito arquitectónico, histórico ou representatividade tipológica, de forma a preservar esses edifícios. Se isso acontecesse, não íamos ter mais estas preocupações e sobressaltos quando há estas propostas”, refere.

Há mais de 200 pátios em Macau e só dois estão classificados: o Pátio da Felicidade e o Pátio da Eterna Felicidade. Na opinião de Nuno Soares, o Pátio da Claridade “é um dos pátios com maior potencial para ser classificado porque é um dos maiores”. “Não há outro conjunto de pátios com esta dimensão e potencial”, destaca.

Nuno Soares diz que, do ponto de vista do interesse comum, o Pátio da Claridade “devia ser preservado o melhor possível nas condições que tem”. Do ponto de vista privado, “eles claro que querem maximizar o potencial de retorno económico que esse espaço pode ter – por isso é que não podem ser os privados, por iniciativa própria, a defender o interesse comum, esse é o papel do Governo”. “O Governo é que tem de fazer a lista do património e garantir que ela é representativa da riqueza de Macau e dos diferentes períodos da evolução arquitectónica de Macau e tem de garantir que o plano director e os diferentes planos de pormenor tiram partido do património que lá está”, defende, reiterando: “Os interesses do proprietário são legítimos e a proposta cumpre os regulamentos normais, mas seria muito melhor que, em vez de ser desenvolvido assim, se preservasse o conjunto”.

CARLOS MARREIROS DIZ QUE REVITALIZAÇÃO DO PÁTIO SERÁ “EXERCÍCIO MUITO DIFÍCIL”

Na opinião de Carlos Marreiros, esta planta de condições urbanísticas já tem “tantos condicionalismos” que “é surpreendente haver alguém interessado em investir”. O arquitecto explica que o terreno é muito estreito e as fachadas têm de ser protegidas, “o que é um exercício bastante difícil”. Há também zonas sem telhado e outras que podem estar em risco de ruína. “Construir por dentro desta carcaça, permitindo dois pisos de recuo de uma só vez, é um exercício muito difícil”, sublinha.

Marreiros diz temer que uma eventual requalificação do pátio o faça perder identidade. Porém, “se não se fizer nada, este lote ficará cada vez mais degradado”. “Em termos culturais e da defesa do património, mete pena que este espólio urbano, estes testemunhos do passado, possam desaparecer”, afirma. Contudo, “uma intervenção interessante e seguindo os condicionalismos, que são muitos, da autoria de um arquitecto talentoso pode fazer daquilo uma coisa engraçada. Em última análise, salvava-se uma zona de eventualmente poder colapsar”. “Primeiro devia-se salvar o corpo, depois pô-lo bonito. Os dois exercícios terão sucesso? Darão êxitos? Aí está a questão”, atira.

Carlos Marreiros admite que, “em termos sentimentais e de gosto próprio” também gostava de ver o Pátio da Claridade classificado. Porém, “racionalmente falando e procurando ser justo”, o arquitecto tem dúvidas. Isto porque “há conjuntos, edifícios e lotes muito mais importantes do que o lote deste pátio que podiam e deviam ser classificados”.

CHRISTINE CHOI APLAUDE REVITALIZAÇÃO DO TECIDO URBANO

A arquitecta Christine Choi começa por assinalar que “as zonas urbanas de Macau necessitam de novos programas e novas funções para se rejuvenescerem, revitalizando o tecido da cidade”.

Assinalando que o Pátio da Claridade está abandonado há bastante tempo, a vice-presidente da assembleia-geral da Associação dos Arquitectos de Macau salienta que isto “não beneficia a comunidade nem o meio urbano envolvente”. Por isso, “explorar novas propostas para trazer actividade e vitalidade de volta àquela área pode ser um passo positivo”, mas “desde que a essência e a qualidade do carácter urbano existente sejam compreendidas e integradas de forma criteriosa, permitindo adaptações e renovações que vão ao encontro das necessidades contemporâneas”.

Sobre a eventual classificação do pátio, Choi alerta que “a classificação dos sítios patrimoniais exige uma avaliação cuidada da sua importância cultural, histórica e arquitectónica”. Por outro lado, “a reutilização adaptativa e a regeneração sensível de espaços subutilizados podem beneficiar muito a cidade” e “Macau beneficiaria de orientações e quadros claros para orientar esta revitalização”. “Sem eles, os projectos promissores podem enfrentar resistência desnecessária e oportunidades perdidas”, afirma, concluindo: “Procedimentos transparentes e prazos realistas podem ajudar a equilibrar a preservação do património com as necessidades da comunidade e o crescimento urbano sustentável”.