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      InícioCultura"Show-Off 4.0" apresenta tesouros pessoais de três coleccionadores de Macau

      “Show-Off 4.0” apresenta tesouros pessoais de três coleccionadores de Macau

       

      A Associação Cultural do Bairro da Taipa apresenta a quarta edição da série “Show-Off”, uma exposição invulgar onde três coleccionadores locais revelam ao público o valor afectivo e cultural das suas possessões artísticas. De 4 de Março a 15 de Maio, o Taipa Village Art Space acolhe as colecções do economista José Isaac Duarte, do consultor jurídico Luís Pessanha e da artista Chao Iok Leng, três personalidades com percursos distintos cujas escolhas revelam o acto de coleccionar como um espelho da personalidade e um contributo para o património cultural colectivo.

      Coleccionadores encontram-se num diálogo artístico na exposição “Show-Off 4.0: Three Collectors’ Exhibition by José Isaac Duarte, Luís Pessanha and Chao Iok Leng”, que inaugura no dia 4 de Março, às 18h30, no Taipa Village Art Space, com uma cerimónia que incluirá uma mesa-redonda com os três coleccionadores presentes. Organizada pela Taipa Village Cultural Association, ou Associação Cultural do Bairro da Taipa, esta quarta edição da série “Show-Off” propõe uma reflexão sobre a natureza do acto de coleccionar, partindo do princípio de que o impulso de reunir objectos é uma característica humana fundamental, enraizada na própria evolução da espécie.

      Como recorda a curadoria, a cargo de João Ó, no seu texto de apresentação, a passagem de uma existência nómada para uma vida sedentária trouxe consigo não apenas o armazenamento de alimentos, mas também de utensílios, o que por sua vez inspirou outras formas de registo, como as pinturas rupestres. Neste sentido, a exposição convida o público a reflectir sobre as motivações profundas que levam um indivíduo a rodear-se de objectos artísticos e sobre o papel que essas colecções desempenham na construção de uma identidade pessoal e, por extensão, de uma memória cultural colectiva.

      Os três coleccionadores convidados representam universos estéticos e trajectórias de vida radicalmente diferentes, demonstrando como o gosto pessoal pode traduzir-se em conjuntos de objectos com significados muito particulares. Longe de serem apenas acumulações de valor monetário, as obras expostas funcionam como extensões das personalidades dos seus proprietários, revelando as suas histórias, afectos e visões do mundo.

      Chao Iok Leng, vice-presidente da Associação de Caligrafia e Pintura Yi Un de Macau e figura conhecida no meio artístico local, traz para a exposição objectos de natureza profundamente pessoal e emocional. Destacam-se duas placas com os nomes das suas antigas lojas, a Livraria Ngai Chi Hin, fundada nos anos 80, e a Nam Fan Lou, criada no início dos anos 2000. Guardadas em casa com orgulho e forte apego sentimental, estas placas (zhāopái) representam uma tradição cultural chinesa de longa data, funcionando historicamente como sinalética, capital cultural, veículos de aspirações e símbolos de reconhecimento comunitário. Hoje, podem ser entendidas como verdadeiros objectos de um peso cultural único, testemunhos de uma vida dedicada à promoção das artes do pincel e da tinta.

      José Isaac Duarte, economista, docente universitário e antigo sócio-gerente da Galeria Amagao, apresenta uma colecção focada na arte dos países de língua portuguesa, com particular ênfase em artistas moçambicanos. O destaque vai para Malangatana Valente Ngwenya, uma das figuras mais importantes da arte moderna moçambicana e da arte africana do século XX. Pintor, poeta, muralista, activista cultural e político, Malangatana tem obra representada em colecções de renome internacional, como o Museu de Arte Moderna de Nova Iorque (MoMA). A escolha de Duarte reflecte não apenas uma afinidade estética, mas também um compromisso em divulgar e preservar a produção artística da lusofonia, estabelecendo pontes entre Macau e o vasto universo cultural dos países de expressão portuguesa.

      Luís Pessanha, consultor jurídico da Assembleia Legislativa e docente da Faculdade de Direito da Universidade de Macau, traz uma colecção construída a duas mãos com a sua companheira. Filho da pintora portuguesa Ana Pessanha, cresceu dentro no mundo das artes e, nas últimas décadas, tem vindo a reunir um acervo que privilegia artistas, artesãos e fotógrafos locais. A colecção é rica em significado pessoal e histórias. Em sua casa, as obras acumulam-se pelas paredes, refere o curador, estendendo-se em direcção ao tecto, espelhando o seu compromisso com a arte. Como observa João Ó, habitar uma casa com uma colecção de arte carrega um significado muito maior do que viver num apartamento de paredes brancas e vazias.

      A exposição “Show-Off 4.0” não se limita, portanto, a exibir objectos. Ao trazer para o espaço público obras que normalmente habitam a intimidade do lar, convida a uma reflexão sobre o coleccionismo como um acto cultural que, embora comece por iniciativa individual, pode gerar um sentido mais amplo de riqueza partilhada.

      A prática de coleccionar vem assim destacar-se por si só como uma actividade independente, que colabora directamente com o mercado da arte e o significado que as obres carregam, não através da criação ou da epifania artística do indivíduo, mas pelos olhos de quem admira e aprecia. Os observadores transpõem-se a coleccionadores, concluindo o ciclo como expositores.

      A cerimónia de abertura, marcada para as 18h30 do dia 4 de Março, incluirá uma recepção de boas-vindas a partir das 17h30 e, entre as 19h00 e as 19h30, um painel de discussão com os três coleccionadores, moderado pelo curador João Ó.