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      InícioEntrevista“Macau foi onde me emancipei como mulher”

      “Macau foi onde me emancipei como mulher”

      Quase oito depois da partida, a actriz portuguesa, Margarida Vila-Nova, está de regresso para apresentar o espectáculo de teatro À Primeira Vista, integrado no Festival Literário de Macau. Em entrevista ao PONTO FINAL, a também realizadora fala sobre os anos que aqui viveu, os vários sítios onde pretende ir, assim que pisar o território, e os projectos actuais e futuros, em Portugal, onde agora reside.

      Vais regressar a Macau, passados sete anos. Que expectativas tens?

      Foi uma grande alegria receber este convite. Vou revisitar uma cidade que me acolheu e onde fui tão feliz. Foi onde nasceu o meu segundo filho. Montei a Mercearia Portuguesa, construí novas amizades e foi a porta de saída para tantas viagens no sudeste asiático. Foi onde me emancipei como mulher. Houve um grande período de transformação durante o período em que vivi em Macau, como mãe, filha, mulher e actriz. Sou uma “melhor pessoa”, pela experiência enriquecedora que foi ter vivido em Macau, longe do meu país, da minha família, dos meus amigos e do meu lugar de conforto. Não estava na minha agenda regressar e, por isso, fiquei muito emocionada quando recebi o convite. É o pretexto para poder regressar, tendo recebido um convite tão especial e tão particular como este. Lembro-me da primeira edição do Festival Literário de Macau. Estava lá quando o festival arrancou. Poder regressar como actriz e apresentar este espectáculo em particular, que me é tão querido e tão pessoal. Este espectáculo nasceu da vontade de eu querer colocá-lo em cena. Poder partilhá-lo com toda uma comunidade macaense e com todos os meus amigos e as amizades que construí todos os anos que lá vivi é muito especial.

      É verdade que, enquanto estiveste em Macau, ainda rodaste filmes como o Na Escama do Dragão e Hotel Império, mas, no geral, a tua passagem pelo território foi quase uma pausa na tua carreira de actriz. Que importância é que essa paragem teve?

      Foi muito importante para uma pessoa se redimensionar, se reestruturar e fazer um balanço do percurso feito até ali. Tornou-se muito claro onde eu gostaria de me posicionar, o que é que eu gostaria de fazer a seguir, como actriz e mãe. Foi muito importante esse tempo de família, esse tempo de qualidade. Foi muito importante viajar. A vida não é só trabalho e eu comecei a trabalhar muito miúda. Fiz o meu liceu todo a conciliar com projectos em televisão e cinema.

      FOTOGRAFIA EDUARDO MARTINS

      Quantos anos tinhas, quando começaste a representar?

      O meu primeiro projecto foi aos seis anos e depois aos nove. Aos 18, aluguei a primeira casa e fui viver sozinha, já fruto do meu trabalho. A minha adolescência foi partilhada, a pari passu, entre a série Os Jornalistas ou Os milagres Segundo Salomé, uma longa-metragem, e tantos outros projectos, como A Fúria de Viver,que foi a minha primeira novela em elenco fixo. A minha adolescência e o meu tempo de liceu foram marcados por uma vida profissional paralela. Quando cheguei a Macau, com 28 anos, já contava com, pelo menos, uns 15 anos de vida adulta. Foi um tempo muito importante, no meu crescimento pessoal, para respirar, ver os filhos crescer e dedicar-me a outros projectos noutras áreas de negócio. Sempre acreditei que as pessoas não tinham apenas de fazer uma coisa na vida. Esta coisa de fazer personagens: estou sempre a viver a vida das outras pessoas, os problemas das outras pessoas e as emoções das outras pessoais. Foi o tempo de eu viver o meu tempo.

      FOTOGRAFIA CARLA PIRES

      Alguma vez tinhas pensado em lançar um negócio como a Mercearia Portuguesa ou chegaste a Macau e percebeste que havia uma oportunidade?

      Estava a pensar num negócio paralelo à minha área para não ter de depender financeiramente do meu trabalho. Mas passaram-me vários projectos e ideias pela cabeça. Cheguei a montar uma produtora de teatro. Tenho um lado de empreendedora, de fazer as coisas acontecer, de construir ideias e de pô-las em prática. Tinha uma vaga ideia de um negócio que queria, mas foi numa viagem onde passei por Macau, que surge a ideia da Mercearia Portuguesa, pela relação que o território tinha com Portugal e por ter encontrado uma ausência total de produtos tradicionais portugueses numa terra que tem um laço histórico único.

       

      Foi difícil?

      Claro que foi uma experiência muito desafiante. Estamos a milhas de distância — sim, porque os contentores iam de barco — e há todo um mecanismo de importação e de exportação da parte portuguesa, além de consulta de todos os fornecedores. Foi uma aprendizagem incrível: conhecer os artesãos, os produtos tradicionais, as raízes, a identidade e a cultura.

      Acabaste com a Mercearia Portuguesa e voltaste para Portugal, para te focares na representação a 100 por cento. É onde te sentes mais confortável?

      Sim, durante sete anos ainda conciliei a vida profissional em Portugal, mas, após sete anos, não fez sentido manter o projecto e passei o testemunho. Hoje em dia, por muitas dúvidas que a pessoa possa ter, dentro e fora de palco, dentro e fora de cena, quer na televisão, no cinema ou no teatro, é onde acredito que a minha realização profissional passa: como actriz e realizadora. Talvez tenha sido o último passo que tenha dado, em termos profissionais, nesta minha perspectiva de não nos termos de cingir a único sonho e vontade. Descobri, há três anos, que sou muito feliz a realizar. E retomei a minha vida como actriz e fiz diversos projectos, desde que regressei, já lá vão sete ou oito anos. Mais recentemente, a realização é um lugar onde me sinto realizada e feliz: é um trabalho de equipa, em que, juntamente com a direcção de arte, a fotografia, os figurinos e os actores, se constrói um filme. Fiz duas curtas-metragens. Vou agora fazer um telefilme ainda este ano para a RTP e tenho milhares de projectos na cabeça.

      Agora levas a Macau o espectáculo À Primeira Vista. Quais são as expectativas?

      Vou de coração aberto. A minha expectativa agora é reencontrar o Tap Seac e a praia de Hac-Sá. É um prazer e um motivo de orgulho enorme estar inserido dentro do contexto do Festival Literário de Macau, juntamente com tantos outros artistas, escritores e realizadores, que vão cruzar o festival durante a semana. Penso em partilhar este momento com tantos outros artistas, num momento importante em que sentimos estas águas tão agitadas e tantas facções. É importante. É isso que eu tenho sentido ao longo da digressão que tenho feito em Portugal. Há duas semanas, já tínhamos atingido os 50.000 espectadores e isso é um marco.

      O espectáculo vai sofrer adaptações no território?

      O encenador [Tiago Guedes] vai acompanhar o espectáculo, por isso, teremos oportunidade de ensaiar e ajustar alguma coisa que tenha de ser adaptada ao espaço. O cenário foi todo reconstruído em Macau. Há um certo nervosismo, de reestrear o espectáculo. É uma réplica deste cenário [no Teatro Maria Matos], que, por questões logísticas, vai ser construído lá. Depois, tenho uma relação de profundo respeito pelo Tiago Guedes. Falamos com alguma regularidade, mas, pela ordem natural das coisas, o encenador não continua a acompanhar as coisas, ao fim de um ano e meio [em palco]. Ele vai, não só para acompanhar as coisas, mas também, como realizador. Vai estrear os seus filmes em Macau. É um espectáculo que já foi feito na Austrália, Brasil, Inglaterra, Espanha e França. Tem estado a correr o mundo e fico feliz por poder ser eu a fazê-lo numa terra onde fui tão feliz e que me acolheu durante tantos anos.

       

      Neste regresso ao território, quais são os sítios que não podes falhar?

      Tenho saudades de ir à baixa, passar na Livraria Portuguesa, cruzar o Leal Senado e descer até ao Cais 22. Quero passear pela praia de Hac-Sá e fazer um rali tascas em Macau.

      FOTOGRAFIA CARLA PIRES

      Terminada a passagem por Macau, quais são os teus projectos?

      A digressão termina em Macau. Ainda tenho 30 e 31 de Março, em Lisboa, mas Macau é o último espectáculo da digressão, fora de Lisboa. Ainda que haja muitos pedidos para continuar o espectáculo, por razões pessoais e profissionais, preciso de uma pausa. Não estou a fechar as portas ao espectáculo, porque sei que irei ter saudades de o fazer, pela sua pertinência, pela importância que tem, pelo momento que atravessamos e pela temática. É um espectáculo que deixo a porta aberta, para dar seguimento e continuidade, mas este ano estou a gravar uma novela para SIC, a Páginas da Vida. Paralelamente, tenho um filme do João Pedro Rodrigues para filmar ainda este ano, que farei ainda no final do primeiro semestre de 2026. Depois, tenho um telefime para realizar até ao final do ano, e é um projecto que fui convidada para fazer e preciso de algum tempo para me dedicar. Tenho um espectáculo no fim do ano para fazer e, pelo caminho, ainda quero fazer umas viagens, escrever e ler.

       

      Pensas voltar a ter um negócio como tiveste em Macau?

      Não. Vejo os desafios na vida como feitos. Tem a ver com ciclos da vida, que são importantes abrir e fechar. O trabalho ocupa muito tempo da minha vida e gostaria de, a médio-longo prazo, ter mais tempo para estar no Alentejo, ver filmes, ler, escrever, viajar e estar com os amigos e com a família. Esta urgência de fazer coisas que tenho desde que me conheço, cada vez mais, as coisas que urgem são simples e leves. São menos ambiciosas do ponto de vista artístico, porque, do ponto de vista pessoal, ambicionarmos ter calma e paz é contra-corrente do que se vive hoje em dia.