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      “Quando vejo forças políticas a agitar bandeiras do antigo regime sou acometido de uma profunda tristeza” 

      De regresso a Macau para participar no Rota das Letras, António Duarte Mil-Homens será homenageado mais logo pelas 18h30 na Livraria Portuguesa com uma exposição que celebra meio século de serviço “atrás das lentes”. Dias depois, no domingo, 17, é a vez de a associação de fotografia Halftone destacar a carreira do fotógrafo com o lançamento da última edição da revista, que lhe foi inteiramente dedicada. O PONTO FINAL ouviu os relatos de uma vida que testemunhou momentos marcantes da sociedade portuguesa e também de Macau.

      FOTOGRAFIA ANDRE VINAGRE

      No ano em que Portugal assinala cinquenta anos do 25 de Abril, o fotógrafo António Mil Homens celebra cinquenta anos de carreira. Isto porque foi exactamente naquele dia revolucionário que finalmente pôde ter a sua própria máquina fotográfica nas mãos, correndo até ao Largo do Carmo para documentar aquele momento histórico. Aquele momento incontornável deu início a uma actividade a que se dedicou de corpo e alma, fotografando em diferentes áreas, transmitindo os seus conhecimentos através de inúmeros cursos de fotografia, e desenvolvendo vários projectos em Portugal e em Macau.

       

      Que trabalhos seus vão estar expostos na Livraria Portuguesa?

      É uma mera amostragem. São trinta fotografias, que não representam aquilo que se considera uma retrospectiva, algo que, de qualquer modo, seria impossível de fazer. Assim como não é possível nas cerca de sessenta fotografias que vão sair na Revista Halftone a lançar no domingo na Rota das Letras. Como é que se condensa cinquenta anos em mais de uma dúzia de áreas diferentes? Mas é um marco, um testemunho e uma tomada de posição: são cinquenta anos, e alguma coisa tinha de ser feita. É dessa forma que agradeço que as pessoas encarem a exposição: que apreciem aquilo que vai ser exposto, mas que interpretem a exposição apenas dessa maneira.

       

      Pretende convidar os participantes da abertura a conhecer de perto as histórias de cada fotografia?

      É essa a minha ideia, estou a ver de que forma. Tenciono ter um ‘display’ para passar fotografias para que quem tiver interesse possa ter uma amostragem mais alargada daquilo que tem sido o meu trabalho ao longo destes cinquenta anos. No lançamento da revista na Casa Garden a ideia será falar de uma forma mais calma e com uma plateia mais estruturada. O Gonçalo Lobo Pinheiro será o moderador da apresentação, e vamos falar sobre este meu percurso.

       

      Justamente queria perguntar-lhe como foi desenvolvido esse processo com a revista Halftone, foi o António que seleccionou as fotografias para a próxima edição da revista? Como foi feita a organização?

      Enviei-lhes uma série de pacotes relativos a toda uma série de temas, tendo plena consciência que ia ser impossível, repito, estruturar do ponto de vista cronológico toda aquela informação. Como é que em cinquenta e poucas páginas consegues resumir o percurso de cinquenta anos em tão diferentes áreas? Então dei-lhes carta livre, e confiei neles em termos estéticos e gráficos, concretamente no que diz respeito ao trabalho do Nuno Tristão, cuja capacidade admiro. E eles fizeram “N” tentativas. Há, portanto, todo um trabalho curatorial que levou ao resultado que vai ser apresentado. Repito: é o possível em termos de testemunho, e é uma mera amostragem da minha história em termos fotográficos ao longo de cinquenta anos.

       

      Podia nomear alguns dos temas centrais que são destacados?

      Acabou por se deixar cair essa visão temática, e as fotografias foram escolhidas de ‘per si’ de várias épocas, tendo em conta o seu encadeamento visual e a paginação final da revista. Há fotografias mais antigas, obviamente começando com as de 25 de Abril de 1974. Como sempre tenho frisado, é onde eu balizo o início do meu percurso fotográfico, na medida em que foi quando tive a minha primeira máquina fotográfica. Embora já tivesse feito fotografias com pequenas maquinazinhas emprestadas, há ali realmente um marco, e isso era forçoso, escolher aquelas imagens. Depois, foi uma escolha mais pela qualidade das imagens.

       

      O facto de o seu primeiro dia com a sua própria máquina fotográfica nas mãos, levantada numa loja na Calçada do Duque a meros cem metros do Largo do Carmo, ter coincidido com o dia da revolução do 25 de Abril, é algo que considera um mero acaso sem importância, ou dá-lhe um valor ou interpretação particular?

      Olhe, foi mais um acontecimento extremamente importante em que a vida me demonstrou que tudo acontece por uma determinada razão, e nada acontece por acaso. A minha vida está plena dessas coincidências, e essa terá sido, porventura, uma das mais marcantes, assim como a que aconteceu em 1996. Vim a Macau, e era para ficar aqui. Trouxe mais de 300 quilos em carga aérea despachada, mas acabei por regressar a Portugal, por coisas que não vêm agora a propósito referir, ao fim de cinco meses e meio. Eu tinha de voltar: pude partilhar com a minha mãe os últimos meses de saúde que a minha mãe teve.

       

      Mas quando voltou para Portugal já sabia que a sua mãe estava doente?

      Não, não sabia. Passei bons momentos e viagens com a minha mãe. A vida mostrou-me que eu tinha voltar, e ainda bem que voltei. Esta história da minha primeira máquina, foi que eu já a tinha sinalizado em Fevereiro, e tinha acordado que a iria buscar no dia 25 de Abril, porque naquele dia teria o resto do dinheiro, e já estava combinado com o dono da loja.

       

      Como é que o acontecimento do 25 de Abril o marcou?

      A minha consciência política teve um salto enorme, antes de mais, pelo facto de eu ter ido à tropa, e ter ainda sido mobilizado para Angola, portanto em plena guerra colonial. Quando regressei de Angola no fim de Julho de 1973 vinha completamente consciente de que algo tinha que acontecer em Portugal. De uma forma muito reduzida, procurei contribuir para que alguma coisa mudasse. Através de malta amiga que, na clandestinidade, desenvolvia actividade política, comecei a distribuir panfletos durante a noite à porta de fábricas, a colar pedacinhos de papel kraft com slogans anti-guerra colonial e anti-fascistas em postes de paragens de autocarros e eléctricos. Lambia a parte com cola, e colava e as pessoas que a seguir que tivessem naquela paragem liam essas mensagens. Portanto estava à espera, e sabia que alguma coisa estava em preparação. Já não estava na tropa e não era oficial, portanto não tinha pormenores, mas havia a informação de que algo se estava a preparar. Quando corro para a loja de material fotográfico, o proprietário estava a encerrar portas. Ele ainda tinha aberto a loja, mas havia uma grande confusão ali ao lado. Lembro-lhe que a loja era a cem metros do Largo do Carmo, portanto se eu não tivesse a máquina nas mãos naquele dia dava-me uma coisinha má [risos]. E tinha as limitações da experiência fotográfica, com o facto de ter uma máquina pela primeira vez nas mãos, só com uma objectiva, e condicionado ainda pelo dinheiro que não permitia comprar mais do que aqueles dois rolinhos. Lembrei-me que ia acontecer o Primeiro de Maio, e que de certeza que ia ser uma coisa extraordinária, e então foram dois rolos que tive de fazer render para o 25 de Abril e até ao Primeiro de Maio.

       

      Ao longo de cinquenta anos, certamente teve outros momentos que o marcaram na sua carreira. Que momentos que se lembre com estima gostaria de destacar?

      Por altura do nascimento da minha filha Ana, comecei por fazer a fotografia que me era possível. Depois, malta conhecida que precisava de fotografia dos seus ensaios levou a que começasse a fazer trabalhos remunerados, mas ainda não havia a dedicação plena à fotografia, que aconteceu só a partir de 1984, quanto tive então o convite para ir fazer fotografia de publicidade. Ainda antes, escrevia artigos e fazia reportagens fotográficas para o jornal regional dos concelhos de Oeiras e Cascais, o “Pódio”. Comecei realmente a usar a minha fotografia com um intuito informativo e formativo, digamos assim. Foi um percurso que se foi delineando ao sabor dos acontecimentos e solicitações.

       

      E em Macau?

      Em Macau, depois dos primeiros meses em que cá estive em 1996, e em que fiz fotografias para a Revista Macau e para um livro sobre o aeroporto, quando voltei a Macau em 1999, fiz a cobertura de todo o processo de transição para a Revista Macau. Contribui ainda para um processo que já estava em curso, que era o livro escrito pelo José Pedro Castanheira do Expresso: “Macau, os cem últimos dias do império”. Quando contactei o Rogério Beltrão Coelho, que na altura editava a Revista Macau, ele referiu que estava empenhado num projecto editorial que era precisamente esse do José Pedro Castanheira, e integrei o projecto que já estava em marcha com todo o gosto. Ainda fiz cerca de um terço das fotografias que ilustram esse livro.

       

      E como começou a fazer os cursos, como professor de fotografia?

      Isso foi quando estava como fotógrafo no Instituto Superior de Agronomia em Lisboa. A malta da associação de estudantes veio ter comigo porque queria abrir o leque de ofertas para os associados, e convidaram-me a leccionar um curso de fotografia. Fiz “N” cursos lá, depois com a malta de Farmácia, onde ainda fiz dois cursos, e outros com o Instituto Nacional de Habitação, e na sociedade que gere os parques de Sintra. Foi sempre por entreposto de uma pessoa que já se tinha inscrito em cursos feitos por mim, e foi-se continuando a desenvolver esse processo. Em Macau, foi através da Casa de Portugal. O primeiro foi em 2008, e o último em 2018, isto cursos mais longos e estruturados. Workshops, ainda organizei alguns depois de 2018. Fins de semana intensivos. Fotografia com iPhone, e pelo menos dois workshops intensivos de fotografia de rua.

       

      O que mudou no mundo de fotografia, nestes cinquenta anos, para além do digital?

      Mesmo antes do digital, aconteceu a “moda” da fotografia. Começaram a proliferar cursos de fotografia em Portugal e, quer queiramos ou não, o mercado num país pequeno também não era propriamente muito grande. A partir de certa altura, a malta que tinha ingressado na fotografia como meio de vida, às tantas, com pouco trabalho, lembraram-se de organizar cursos de fotografia, alguns com intuito profissionalizante. Ou seja, estavam a formar a concorrência, o que é um perfeito contrassenso. Os meus cursos de fotografia sempre foram vocacionados para quem gosta da fotografia como meio de expressão. Posso acrescentar que nestes anos todos, que me lembre, das centenas de pessoas que frequentaram os meus cursos, só me estou a lembrar de três que abraçaram a fotografia em termos profissionais. Continuo a achar que a fotografia tem lugar como modo de expressão, como ferramenta de apoio para as mais diferentes áreas de actividade profissional, e é assim que continuo a ver os meus cursos de fotografia. O digital veio por um lado democratizar, e é inestimável o acesso à imagem. Mas, por outro, veio rebentar com o mercado da fotografia profissional, e esperemos agora para ver o que é que acontece com a Inteligência Artificial. De repente, alguém diz a um software de IA que quer uma fotografia com certos elementos, e tem ali uma “masterpiece” de arte fotográfica, seja para fins de expressão artística, seja para fins profissionais. Penso que, em certa medida, como modo de vida, a fotografia se calhar tem os dias contados.

       

      Como vê o trabalho desenvolvido pela Revista Halftone?

      A associação fotográfica e a publicação em simultâneo da revista tem o intuito de propiciar aos membros da Halftone – profissionais ou não – a possibilidade de mostrar a sua criatividade e publicar portefólios. É esse, e tem de forçosamente continuar a ser, o espírito. Foram publicados sete, está para sair o oitavo número da revista. Está “dependente” da apresentação de projectos e de portefólios, e depois conta com o trabalho editorial do génio de paginação do Nuno Tristão. Tem sido em cada edição o melhor possível que se pode fazer com, precisamente, por um lado, o material apresentado como proposta para publicação e, por outro, o trabalho do grupo editorial.

       

      Como estão a correr os seus projectos em Portugal?

      Alguns estão a correr a passo a passo, porque dependem de questões logísticas e de organização do espaço, e depois tenho projectos pessoais ligados a exposições, que estão a acontecer, curiosamente e propositadamente relacionados com Macau. A exposição de bicicletas, que tinha estado patente em Lisboa, veio a Macau, já esteve em Castelo Branco, em Coimbra, e há interesse de mais algumas câmaras de que a exposição aconteça lá. Assumi-a, portanto, definitivamente como exposição itinerante. A par disso, tive uma outra exposição de fotografia que apresentei em Lisboa na galeria Ato Abstrato que vai voltar a estar à disposição do público em Maio, mas desta vez no Centro Científico e Cultural de Macau na Junqueira. Algumas das obras já tinham sido expostas em Macau, mas achei que em relação ao público em Portugal havia lógica em apresentá-las, e complementei-as com mais uma dúzia de outros trabalhos inéditos.

       

      Hoje, por esta altura em que o entrevisto, um partido de ideologia de extrema direita alcançou o terceiro lugar nas legislativas em Portugal. Como sente esta viragem à direita, precisamente no ano em que se assinala meio século do fim da ditadura de Salazar?

      Com uma infinita tristeza. Uma infinita tristeza em relação à fraca memória de parte da população, à não-memória de outra parte da população, mais jovem e que não sabe, não quer saber, não é informada sobre o que era o Portugal antes do 25 de Abril. Quando vejo forças políticas hoje em dia a agitar o mesmo tipo de bandeiras que eram imagens e ideias do antigo regime, sinceramente aquilo que me sou acometido é de essencialmente uma profunda tristeza.