O suicídio

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O suicídio

 

Chego ao local da ocorrência às cinco e sete minutos da tarde. Vejo o corpo de Leong Fu, estátua antecipada de carne feita mármore, a cabeça coberta com um saco de plástico. Tudo limpo e arrumado à volta. Versão oficial já previamente anunciada: suicídio.

O meu chefe dá ordens em cantonês e observa descontraidamente o cenário, começando a acender um cigarro. Mas, de repente, lembra-se da lei anti-tabaco, desiste da ideia. Respira fundo, tira uma pastilha elástica do bolso, depois de calçar as luvas, apanha a mala da vítima tombada no chão, ao lado da sanita. Abre-a. Está meticulosamente organizada e arrumada: uma caixa com tranquilizantes, uma navalha, ligeiramente suja de sangue, o baton, espelho, lenços de papel, uma esferográfica, um pequeno bloco de notas, o telemóvel, carteira com documentos, cartões de crédito platinum, óculos de sol guardados na caixa correspondente. Os pulsos da vítima têm marcas de cortes ligeiros feitos talvez pela navalha, que depois terá sido limpa e arrumada dentro da mala. Uma morte planeada e organizada ao mínimo detalhe. Será possível esta frieza e calculismo nos últimos momentos? O que fará alguém sair de casa com uma navalha na mala, alguns tranquilizantes para, horas depois, ser encontrada sem vida na casa de banho de um edifício, asfixiada por um saco de plástico colocado na cabeça… Isto, quando era suposto estar numa importante reunião de trabalho.

Mala tão arrumada! Conseguir na morte aquilo que Leong Fu nunca foi em vida, sobretudo na esfera pessoal: organizada! Segundo a empregada filipina, que lhe limpava  a casa, a sensação que se tinha ao entrar no seu apartamento era que um tufão de nível oito acabara de sair de lá naquele preciso momento. Tudo sempre espalhado por todo o lado, sem haver sequer a noção da necessidade de guardar as mesmas coisas nos mesmos sítios. Parecia que cada dia os objectos encontravam naquela casa novos lugares, como se fossem criaturas pensantes a quererem libertar-se da escravidão da rotina: os sapatos na escrivaninha, o papel higiénico em cima do frigorífico, canetas ou marcadores na cesta da fruta…as coisas mais estranhas, nos sítios mais inimagináveis.

A tese de suicídio foi, desde o início, instaurada pelos meus colegas da polícia como verdade absoluta. Leong Fu chegara, havia sete anos, da China interior. O marido e os filhos continuaram a viver no continente, mas visitavam-na com alguma frequência. Viera trabalhar para o CCAC (Comissariado Contra a Corrupção), onde parecia ter uma carreira em meteorítica ascensão, tendo atingido rapidamente um posto de chefia. Numa terra onde tudo é tão transparente e cristalino como o lodo poluído do Rio das Pérolas, quem poderia desejar o fim de Leong Fu? Curiosamente, pouco antes, no seu apartamento ocorreu um pequeno incêndio – acontecimento comum em terra de incensos, panchões e onde se queimam frequentemente oferendas aos deuses e aos antepassados. Mas Leong Fu sempre foi friamente racional, distanciada de crendices e rituais. Diz-se que andava estranha ultimamente, talvez demasiado nervosa. Mas do trabalho não falava a ninguém. Levava muito a sério todas as questões do sigilo profissional.

Os colegas dela declararam que, profissionalmente, tudo lhe correria demasiado bem: sempre em ascensão, boas relações com superiores,  amigos influentes – o  que parecia insuflar-lhe mais rapidamente o percurso. A nível pessoal, talvez houvesse uma história qualquer de traições… talvez tivesse descoberto que o marido tinha uma amante indonésia, massagista de um SPA que ele muito frequentava quando vinha a Macau… que, talvez, a dita moça estivesse grávida… mas ninguém sabia ao certo. Outra versão era que o marido engravidara a empregada filipina. Coisas que se diziam. Também havia quem dissesse que Leong Fu investigava um caso de corrupção muito grave, a envolver proprietários de grandes casinos…muita e poderosa gente a quem o magnetismo do dinheiro catapulta para o Olimpo acima de qualquer lei. Mas não, só podia ser boato, ou “fake news”, como se diz agora, além do mais, aqui, em terra de tão cristalinas honestidades. E que Leong Fu recebeu alguns telefonemas ameaçadores semanas depois de ter sido proibida a entrada no território de um contentor misterioso – enfim, talvez uma brincadeira de gente ociosa, a quem falhou a Netflix, ou se esqueceu da password das redes sociais e se viu, subitamente, desocupada.

Oficialmente, concluiu-se que Leong Fu, cansada de viver, deprimida ou desiludida, talvez, escolheu a casa de banho pública de um condomínio para se despedir da vida: auto-asfixia com um saco de plástico. A estes e outros mistérios, ninguém jamais responderá, nem sequer o seu corpo, agora mero vulto de formas quase indefinidas sob um lençol branco encardido, empurrado numa maca, depois de o meu chefe ter acabado com a caixa das pastilhas elásticas. Afinal o que pode ser a vida?  Com que linhas se desenha a morte? Segredos sem resposta sepultados no delta de todas as dúvidas.