
O sonho mexicano
Os contos de Eduardo Antonio Parra abrem um caminho diante daqueles que, lendo, avançam pela força das palavras e, ao mesmo tempo, pelas paisagens rurais e urbanas do norte do México. Se continuássemos a caminhar para norte, encontraríamos a fronteira com os Estados Unidos. A cada passo, a cada parágrafo, percebemos que poderíamos passá-la e nunca mais voltar ou, com a mesma facilidade, poderíamos morrer ao tentar passá-la. Nessa linha, existe uma distância enorme. Somos capazes de imaginar aquilo que existe no outro lado, mas não passamos, não passamos nunca, não podemos passar. No nosso lado da fronteira, à beira desse limite permanecem os limites da miséria, do sofrimento e da desolação.
Nesta terra, as fronteiras não são riscadas apenas no chão. Um traço igualmente definido é aquele que separa a sanidade da loucura. Quase sempre, sanidade é ter poder, mandar, desmandar, obrigar. Loucura é atravessar a linha do sofrimento e do medo inumano. Essa é também a fronteira que separa o centro e a margem, o justificável e o injustificável. Depois, na divisão que, quando se lê, separa sempre dois países, aquele que pertence ao próprio texto e aquele que pertence ao leitor, o justificável transforma-se em injustificável e vice-versa.
Eduardo Antonio Parra é um dos contistas mexicanos mais notáveis dos últimos trinta anos. A sua obra contribui para dar notícia de uma memória colectiva que, apesar de tão imensa e presente, não é a mais difundida e dominante. Refiro-me à perspectiva de todas as pessoas que, a sul da fronteira que divide o México e os Estados Unidos, sonham com o lado de lá, sujeitam-se a terríveis sacrifícios na tentativa de cumprir esse sonho.
Com frequência, esse projecto de vida fica suspenso num limbo, sem possibilidade de partir ou de regressar. Nós, pela leitura de Parra, somos levados por desertos inclementes, por aldeias sonhadas, por cidades reais, por ruas e becos de lixo, por bairros onde a vida tem pouco valor e onde a crueldade decide quem tem direito à esperança. Connosco, vão os últimos entre os últimos da sociedade mexicana: migrantes, camponeses, loucos, vagabundos, prostitutos, bruxos, órfãos, viúvas. Nas palavras que descrevem os seus rostos, assistimos à tragédia, mas também à ternura. Essa é, aliás, uma das marcas fortes da escrita de Parra: a sua humanidade. Após algumas páginas, sabemos que estas personagens vivem e que o seu sofrimento é real. Na tragédia que lhes é imposta, não há espaço para boas intenções ou para meias vinganças. A violência que as condena é absoluta e poderia vir noticiada nas páginas de jornais sensacionalistas. No entanto, a abordagem de Eduardo Antonio Parra não poderia afastar-se mais do voyeurismo e da exploração da violência feita pelos tablóides de crimes. A diferença fundamental é a compaixão das palavras que descrevem os seus rostos, as suas ilusões de felicidade, a realidade das suas vidas.
Todos os seres humanos, mesmo os últimos, mesmo os mais esquecidos, são feitos de contradições e de múltiplas perspectivas que, paradoxalmente, reforçam a sua unidade: heterogénea homogeneidade. Talvez por isso, os contos de Parra são como um caleidoscópio de escrita e de maneiras de narrar o mundo, incluindo sempre as pessoas: do relato mitológico ao realismo, do delírio à denúncia, da aparente complexidade da poesia à aparente simplicidade da informação.
Herdeiro dos grandes cultores mexicanos do conto, Eduardo Antonio Parra abre-nos um caminho para um mundo que acontece, hoje, agora mesmo, no norte do México, a pouca distância da fronteira dos Estados Unidos; e que, sob outras formas, acontece muito mais perto, aqui mesmo.
As próprias migrações, sejam elas de onde forem, bem como o enorme preço em vidas e em injustiça que acarretam, e que tanto se faz sentir no mundo em que vivemos, encontram-se magistralmente teorizadas pelo humanismo de Parra.
A aparente inevitabilidade da violência, o eterno confronto do ser humano consigo próprio, a fé como espaço invisível e indestrutível de salvação são alguns dos vários aspectos que conferem à obra de Parra uma perspectiva universal. O norte do México está talvez muito mais próximo do que se imagina.






