Com um percurso musical que começou no gospel, passando depois pelo rock and roll, jazz e soul, Selma Uamusse tem-se demarcado a solo por uma sonoridade muito ligada às raízes moçambicanas. Presente em Macau para dois concertos integrados no Festival da Lusofonia — amanhã, no Jardim Iao Hon, e na sexta-feira, no Anfiteatro das Casas da Taipa —, a cantora fala, em entrevista ao PONTO FINAL, sobre a sua evolução enquanto artista, a importância de usar a sua voz para passar algumas mensagens, mas também sobre a sua ligação a Macau e a vontade que já tinha há algum tempo em vir ao território actuar.
Estudou e trabalhou em Engenharia do Território e tudo indicava que seria esse o seu caminho. Como é que a música entrou na sua vida?
Nunca pensei enveredar por um caminho artístico ou musical. Tive uma infância muito exposta às artes, à música e, de uma forma muito espontânea, os caminhos foram convergindo para aquilo que acabou por se tornar a minha escolha.
No ano em que entrei na universidade, fui a uma festa de aniversário e lá conheci um maestro que estava a formar um grupo de gospel. No final dessa festa, houve um momento musical e eu participei de forma muito natural. Ele [o maestro] disse-me: tens uma óptima voz, estou a formar um coro e gostava muito de te convidar. Sempre tinha gostado de cantar, mas, aquilo que era inicialmente um hobby, acabou por se tornar um ofício.
Na altura, estamos a falar de 1999/2000, aquele coro acabou por se profissionalizar bastante e havia muitos grupos, muitas bandas e muitos programas de televisão e de rádio que, em vez de terem coros normais, gostavam muito de um coro gospel. Acabei por me destacar e ia fazendo muitas coisas ao nível profissional. Envolvi-me na gravação do disco de uma banda de rock and roll, que eram dos Wraygunn. Fui um pouco responsável por acedermos ao convite, porque conhecia-os e fizemos alguns concertos, enquanto coro gospel, com os Wraygunn. Depois, houve um dia em que recebi um convite para eu própria fazer parte da banda, já não como coro, mas como parte da banda, isto tudo enquanto estudava. O gospel, o rock e todos os convites que vieram na sequência disso, como as colaborações com Buraka Som Sistema, Sean Riley & The Slowriders, Rita Redshoes — era jovem, solteira e estava muito disponível — acabaram por me profissionalizar muito depressa.
Termino a licenciatura numa altura em que estava no activo de uma forma muito regular ao nível musical, já em grandes palcos e a fazer tournées. Acabei por sentir ali alguma necessidade em perceber quem era musicalmente e encontrar uma identidade. Fui estudar jazz. A partir daí, comecei a trabalhar num percurso a solo e tornou-se mais incompatível aquilo que era o meu percurso musical com o meu percurso na engenharia. Entendi que, se o meu desejo era ser um agente transformador da sociedade, o conseguiria muito mais facilmente através da música do que através da engenharia — este seria um processo muito mais lento, menos empático e com menos contacto humano. Terminei a licenciatura em 2005 — falamos em seis anos de um percurso muito activo — e acabo por deixar a engenharia para trás em 2010, já numa fase em que trabalhava muito em ambos os lados, mas que, inevitavelmente, algum tinha de ficar para trás.
Passou por vários estilos musicais, bem diferentes. Gospel, rock, jazz e agora, a solo, um registo mais próximo das suas raízes. Todos eles faziam sentido ou há algum com que se identifica mais?
Cresci com uns pais que, não sendo artistas, estavam muito conectados com movimentos artísticos da dança, do teatro. Cresci a ouvir muita música. No processo do gospel e do rock, e nos convites todos que recebia, aceitava porque me identificava com a musicalidade e com a mensagem. Para mim, eram experiências que tinha e sabores que experimentava, mas nunca tinha como mote: isto faz parte da minha construção artística individual. Não era esse o meu objectivo, tanto é que o meu percurso a solo chega muito mais tarde.
Levei tudo de uma forma muito intuitiva e todos esses géneros que acabei por representar — gravei com malta do hip hop, da soul — eram experiências que abraçava com muito carinho, mas de coisas que também gostava de ouvir. Muitos destes eram projectos que já ouvia e que admirava — penso no Valete, nos Cacique 97’, mais tarde no Rodrigo Leão e no Samuel Úria. Eram um acumular de experiências que me edificavam como artista, mas que não tinham nenhum objectivo concreto, o de trabalhar a solo. Mais adiante, isso acabou por acontecer. Todas essas experiências acabaram por construir depois a artista a solo que me tenho tornado, que não se consegue dissociar dessas experiências todas e, por isso, na minha música, existem essas camadas.
Há, no caso do projecto Selma Uamusse, um desejo de me reconectar com aquilo que é a minha identidade africana, aquilo que é a minha identidade moçambicana, mas sem omitir e sem esquecer todas as minhas outras influências, o gospel (o meu lado muito espiritual), o rock (a minha atitude também em palco), mas que depois, ao nível musical, cose muito facilmente com as influências do jazz.
Conforme a própria Selma diz, o gospel faz parte do seu lado mais espiritual. Considera-se uma pessoa religiosa?
Não cresci num contexto cristão, muito embora a nossa cultura seja judaico-cristã. O que acabou por acontecer foi através do gospel. Houve um despertar espiritual em mim, que não vinha de uma educação cristã. Tive algum contacto com a Igreja Católica, mas acabo por ter um processo de conversão mais invasivo, no sentido de mudança de estilo de vida e de identidade, ao qual eu nem chamo religião, mas passo a chamar-lhe relacionamento. Passo a ter um relacionamento muito mais conectado com o cristianismo e isso muda muito a minha forma de estar na vida, muda muito a mensagem, que passa a ser mais importante para mim.
Sim, frequento uma igreja. Sim, faço parte de uma comunidade cristã, mas é mais do que isso. É mais do que fazer parte de um grupo ou de uma igreja, é um relacionamento que passo a ter. Um relacionamento com Deus, um sentido de responsabilidade social também, daquilo que são os valores cristãos. A música tem um papel fundamental nessa mudança de percepção de estilo de vida, mudança de percepção naquilo que me importa também cantar, falar, abordar, naquilo que é a minha forma também de estar em palco. Há uma grande mudança em mim através deste processo de fé.
Isso sente-se também, hoje em dia, nos seus trabalhos a solo?
Sente-se em tudo. No meu activismo, por exemplo. Só tenho uma vertente muito mais sócio-activa por causa desses valores. Está na forma como uso a minha voz para muitos assuntos que importam e que vêm dessa responsabilidade que sinto. Está na minha postura em palco, na forma como falo com as pessoas, na forma como me dirijo a elas, no ambiente que crio em palco, naquilo que escrevo, naquilo que digo. Está na minha essência, porque não é dissociável. Há obviamente um fundamento, que é um fundamento que conecta muito as pessoas por meio de uma religião em comum, mas, acima de tudo, há um relacionamento e, sem relacionamento, não há esse exercício de fé. Não digo que sou cristã, porque me é conveniente, pelo contrário. Atualmente, não é uma coisa que seja muito popular. Não é uma coisa que seja sequer fácil no meio artístico, afirmarmo-nos como pessoas que seguem um credo ou determinados preceitos.
Nos trabalhos a solo, é notório um regresso às raízes moçambicanas. De que forma isso é importante na sua música?
Quando comecei a pensar no que teria para dizer a solo, foi fácil perceber que precisava de voltar a casa. Embora tenha vivido a maioria da minha vida em Portugal, via uma espécie de chamada àquilo que é a minha ancestralidade, aquilo que eram os sons e ritmos de Moçambique. Volto a casa, não necessariamente com o grande conforto de conhecer a música tradicional moçambicana, mas com uma espécie de desconforto que me inspirava naquilo que é o valor patrimonial da música moçambicana: as polirritmias, as polifonias, os sons, as línguas, a fonética, os instrumentos musicais que uso na minha música, a timbila, a diversidade dos ritmos.
Esse desconforto, conjugado com outras áreas musicais com as quais estava mais confortável, nomeadamente o jazz, o gospel, o rock, é um voltar a casa — no sentido de que, quando ouço determinados ritmos, sinto-me livre, mas com um conforto e com uma estética musical que me interessam muito.
As pessoas estranhavam muito no princípio. Porque é que estás a fazer isto? Podias estar a fazer um projecto de soul, um projecto de gospel ou a cantar em português. Havia uma espécie de estranheza, mas que, ao mesmo tempo, também me trazia um desafio estético, musical e artístico que, para mim, foi muito interessante.
Muitos moçambicanos, por exemplo, acham estranho que uma pessoa que está na diáspora tenha pegado nessa riqueza cultural e esteja a defender essa bandeira. Sinto um grande orgulho em poder, de alguma forma, na diáspora — no meu processo diaspórico, que não é 100 por cento tradicional, será 60/40 por cento tradicional — levar esta bagagem. Visto-me sempre com os tecidos tradicionais de Moçambique. Utilizo muitos sons típicos e característicos de Moçambique, como a kulungwana, um determinado grito que se faz em Moçambique. Estas camadas ajudam-me a levar o património musical de Moçambique a vários lugares, mas, como não desvirtuo quem sou, acaba sempre por ser uma coisa um bocadinho mais minha, e isto também me dá muita liberdade artística para fazer e para me expor de uma forma muito livre.
O que já pode revelar sobre trabalhos que tenha em mãos?
Estou a trabalhar em imensas coisas. Estou a trabalhar sem pressa num próximo álbum. Neste preciso momento, estou a preparar um concerto muito especial que será no dia 1 de Novembro, no Centro Cultural de Belém [Lisboa], para o qual convido a Orquestra Geração, a Garota Não e uma série de vozes que, para mim, são vozes do futuro da música em Portugal. Tenho dois projectos associados às comemorações dos 50 anos do 25 de Abril. São dois projectos de homenagem ao legado do Zeca Afonso. Um é mais disruptivo, o “Other Songs”, cuja ideia parte da família do próprio Zeca Afonso, que tem várias pessoas de várias nacionalidades a participarem nele. Outro, o “Lá no Xepangara”, é uma abordagem às canções do Zeca Afonso, inspiradas no tempo em que ele viveu em Angola e em Moçambique, e que claramente tem essa sonoridade e essa polirritimia. Tenho um programa de rádio [Antena 1], a convite do Nuno Galopim, em que, mensalmente, tenho convidados com os quais falo sobre diferentes temáticas. Dou aulas de performance.
Publicou um post nas redes sociais dizendo que a ida a Macau era um sonho antigo. O que a encanta nesta vinda ao território?
Em primeiro lugar, quando comecei a trabalhar a solo, trabalhei sempre com a convicção de que a minha música e que o trabalho que eu queria fazer teria sempre um cariz mais internacional, que não se encerraria só no circuito e no mercado português, mas que seria sempre um trabalho que gostaria de fazer pelo circuito internacional. Sempre tive muito interesse pelo circuito asiático, porque está muito aberto a diferentes sonoridades.
Já fiz alguns trabalhos também com autores chineses, mas, Macau em particular, tem alguma ligação a Moçambique. Há uma comunidade macaense em Moçambique à qual estive exposta, e tenho muitos amigos portugueses que viveram aí e que, naturalmente, falaram-me sobre Macau, desde 1999, quando regressaram, quando Portugal deixou a administração portuguesa. Tenho um grupo de amigos de pessoas que estiveram em Macau, e que, naturalmente, deixaram o bichinho de Macau, através das histórias, das fotografias, das próprias decorações das casas. Há muito tempo que havia uma espécie de namoro também ao nível de programação com Macau. Vir a Macau é uma realização pessoal e tenho amigos que vão estar em Macau a ver o concerto, porque alguns vão de propósito para o Festival da Lusofonia, outros estão lá, alguns estão nas proximidades, em Singapura, nas Filipinas, e vão de propósito.
Que expectativas tem relativamente a estes concertos em Macau?
Nunca coloco altas expectativas, porque os públicos são sempre diferentes. Coloco mais as expectativas em mim, naquilo que posso fazer através da minha arte, de conseguir fazer chegar a minha mensagem às pessoas. A expectativa que coloco é poder conquistar o público em Macau e darmos o nosso melhor, que é o que sempre fazemos, porque amamos e respeitamos muito a música, a arte e o privilégio de nos podermos ocupar espaços culturais, como serão os dois palcos em que estaremos em Macau.
O que leva para estes concertos?
Temos dois concertos, um bem mais curto do que o outro. Um será um bocadinho um concentrado daquilo que é nosso best of, provavelmente. E no outro concerto é uma viagem, que se foca mais no último disco, o Liwoningo, e faz parte da Liwoningo Tour.
Começou a entrevista a dizer que abandonou a Engenharia do Território e mudou para a música, porque era dessa maneira que queria ser um agente transformador da sociedade. Tem sido bem sucedida nessa missão?
O lugar da música é um lugar muito especial. Tem efeitos imediatos e tem efeitos a longo prazo. A música dura muito mais do que os músicos que a criam.
Lembro-me de ter dado um concerto e havia um casal que foi ver o concerto e, nesse dia, decidiu que se ia separar. Mas, por algo que ouviram no concerto, no final disseram: foi tão bonito e tão especial aquilo que disseste, que decidimos tomar a decisão de nos reconciliarmos. Entretanto, casaram-se e tiveram filhos, e decidiram o nome de uma das filhas num dos meus concertos. Isto é um exemplo muito pequenino como, às vezes, podemos trazer paz através da nossa música. Mas, acima de tudo, mais do que este lado mais emocional que os concertos têm, uso muito os concertos não só para cantar, mas também para passar mensagens específicas em que acredito.
Tenho utilizado muito a minha vocalidade e o meu lugar de privilégio para organizar concertos de beneficência como “Mão dada a Moçambique”, em que conseguimos angariar 500.000 euros para as vítimas do ciclone Idai, “Estamos aqui, Iémen!” ou “Uma voz pela paz”. Trabalho muito com algumas organizações, faço trabalho solidário no centro de dia, vou a escolas. Esse é um lugar no qual também podemos escolher fazer parte e sermos agentes transformadores da sociedade, naquilo que diz respeito ao ensino e ao empoderamento social. Falo muitas vezes para mulheres, para meninas. Esse lado mais vocal de usar a nossa exposição é uma escolha e escolho poder fazê-lo. Certamente não teria acesso a estes lugares através da engenharia ou, pelo menos, não da mesma forma.












