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      Eric Fok

      “O meu trabalho actual ainda não chega, mas espero um dia participar na Bienal de Arte de Veneza”

      Em entrevista ao PONTO FINAL, um dos nomes do momento da cena artística do território assumiu que “há bons pintores em Macau”, só precisam de uma oportunidade para se mostrarem. Ao mesmo tempo, Eric Fok assume que a Bienal de Arte de Veneza é um dos seus objectivos de vida, mas ainda precisa de mais tempo e afirmação para poder “jogar com os melhores”.

      Actualmente em Taiwan para continuar os seus estudos académicos com a realização de um doutoramento em Arte, o artista de Macau Eric Fok acedeu a conversar com o PONTO FINAL. O seu percurso, o que conseguiu até agora, o que ainda falta conseguir. Com humildade e muita maturidade, o artista falou de tudo um pouco, desde a sua infância em Macau até ao sonho de uma vida artística: a Bienal de Arte de Veneza. Para Eric, uma incógnita: o estado do mercado de arte em Macau. “Acredito que a arte tem seu o seu valor e o seu mercado”.

       

      Existem bons pintores em Macau?

      Definitivamente, há bons pintores em Macau. Se eles tiverem mais oportunidades de desenvolvimento e forem descobertos, haverá mais bons artistas.

       

      E há pintores famosos em Macau?

      Na história, por exemplo, houve vários como George Chinnery ou Gao Jianfu. E muitos outros pintores famosos viveram em Macau por um curto período de tempo.

       

      Como está o mercado de arte em Macau?

      Há venda de obras de arte em Macau. Não é muita, mas há. Não sei se se se pode chamar a isso um mercado. Não tenho a certeza. Como também não tenho a certeza se o mercado da arte vai evoluir com o desenvolvimento económico. E afinal qual é a opinião do público sobre a arte? A cidade precisa de arte? Continuo a acreditar que a arte tem o seu valor e o seu mercado.

      A sua presença na mundialmente conhecida exposição Bologna Illustrators é, até ao momento, o ponto alto da sua carreira?

      Essa exposição foi o início da minha carreira artística, foi a oportunidade que me deu confiança. Sempre me perguntei se seria o apogeu, mas foi, de facto, até agora o momento mais alto. Ficaria preocupado se ficasse por aqui, mas o que importa é estar sempre a desafiar-me, mais e mais, cada vez mais. Na verdade, o que quero é que as minhas obras resistam ao passar do tempo e permaneçam para sempre.

       

      Macau mudou muito nos últimos anos e o seu trabalho reflecte essa mudança.

      Sim. Macau mudou muito. Além de prédios, casinos e metro ligeiro, a maior mudança deve ter sido nos valores das pessoas. Diante de grandes tentações, dinheiro e riqueza, muita gente mudou e nem sempre para melhor. Contudo, ainda considero a cidade actual boa para conversar com ela através da pintura.

       

      Por é que as suas obras são sempre intituladas com um número?

      Como a nomenclatura dos números é a uma série, é só seguir a linha de continuidade. Talvez fosse melhor criar um nome para as obras, mas o meu tempo é todo dedicado a pintura.

       

      A caneta é sua grande amiga?

      A caneta é tudo. É a minha linguagem, a minha boca, a minha companheira, a minha camarada de armas.

       

      Você manteve uma vida entre Macau e Taiwan, mas agora acaba de se estabeler em Taiwan por um tempo. Qual é a razão?

      Principalmente porque vou voltar a estudar em Taiwan, fazer o meu doutoramento em Arte. Por lá, existem muitos tipos de livrarias, existem grandes bibliotecas, existem artes. Macau também é um bom lugar, mas espero sair da zona de conforto. Pode não ser necessariamente uma boa escolha, mas é certamente uma forma de enriquecer a minha vida.

      Quem são os seus mentores ou influências?

      Há muitos mentores na minha vida. Wong Ka Long. Ensinou-me sobre a arte e sobre a vida. Acredite que sem Wong Ka Long, não existiria Eric Fok.

       

      O Eric já assumiu por diversas vezes gostar de “cidades históricas e silenciosas” como Lisboa, Edimburgo, Florença ou Bolonha. Mas Macau é a sua casa. Você pode falar sobre isso e sobre os sentimentos que se misturam?

      Todas essas cidades são lindas. Lisboa torna-me mais consciente de Macau. Edimburgo é a primeira vez que vejo um mundo diferente. Florença e Bolonha são os modelos da minha carreira artística, a ligação também pode ser encontrada na história, tais vestígios também podem ser encontrados em Macau durante a Renascimento e durante os Descobrimentos, quando os ocidentais chegaram ao Oriente.

       

      Em 2016, em várias entrevistas, afirmou que ainda estava a tentar descobrir que caminho seguir. Já se encontrou?

      Sei exactamente para onde quero ir e raramente hesito, mas também sei a distância entre a realidade e o sonho. Ainda não cheguei, mas estou a mover-me nessa direcção.

       

      O que significa o seu nome em chinês Fok Hoi Seng?

      霍凱盛 Fok Hoi Seng. 霍Fok é o meu sobrenome. Para ser franco, não sabia o significado do meu nome até aos 26 anos. Depois perguntei à minha mãe e ela disse凱 Hoi significa retorno triunfante (凱旋), porque os meus pais vieram para Macau no início dos anos de 1980. 盛 Seng significa sumptuoso (豐盛), porque os meus pais desejam que eu tenha uma vida rica, boa e maravilhosa.

       

      Diz adeus a Macau com a exposição “Before Departure”. Qual tem sido o feedback sobre a exposição?

      Esta exposição deve ser vista como o meu diário antes da partida. Espero manter alguns registos, que podem voltar sempre que tenha um sentimento diferente ou de introspecção.

       

      O facto de ter sido convidado pela SJM para ter trabalhos seus em paredes de hotéis do território foi uma boa iniciativa?

      É uma rara oportunidade, especialmente no casino Lisboa, em Macau, de colocar a obra num bom local, de se tornar parte do edifício. Só espero que a obra sobreviva até quando for velho ou mesmo quando estiver morto.

       

      Gostaria de ter a oportunidade de representar Macau na Bienal de Arte de Veneza?

      Claro! Como artista, espero participar da Bienal de Veneza um dia, porque é uma exposição muito importante para mim. O meu trabalho actual ainda não chega, mas espero um dia participar na Bienal de Arte de Veneza. Porém, a minha idade e experiência ainda não podem representar-me. Só tenho que ter um bom trabalho para poder jogar com os melhores.

       

      Quem compra arte em Macau?

      No meu caso, a minha primeira obra foi vendida à Fundação Oriente. Mas também já vendi a estrangeiros em Macau, incluindo diversos portugueses, ao Governo de Macau, a hotéis e a casinos e a outros individuais locais.

       

      Qual foi o país mais estranho ou o cliente mais estranho que lhe comprou uma obra de arte? Tem alguma história engraçada que queira partilhar com os leitores?

      Como a maioria das obras é vendida através de galerias, há pouca comunicação directa com os compradores e coleccionadores, mas o mais feliz é que os coleccionadores estrangeiros trazem as suas obras para países estrangeiros. Posso nunca morar em muitos países para além da China, mas as minhas obras podem viver noutras culturas. Mais, as minhas obras podem ser colocadas no mesmo lugar que as de outros mestres. Alguns coleccionadores vão às lágrimas quando aprendem a história que está por detrás da obra, que, para mim, acredite, é o mais significativo. Mais significativo do que dinheiro ou riqueza. Pela primeira vez, em Macau, desenhei a casa de infância da mãe de um coleccionador. Há muitas memórias naquele quadro. Uma segunda vez, em Hong Kong, uma coleccionadora chorou depois de ouvir a introdução à obra. São esses sentimentos que guardo. São, de facto, muito positivos para o meu trabalho. É a emoção. É a expressão humana.