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      «É uma tolice desejar o fim do PCC»

       

      Hélder Beja

      Timothy Cheek estuda a história do Partido Comunista Chinês e dos seus intelectuais desde os anos 1980. Lamenta as actuais dificuldades na investigação conjunta com académicos chineses, mas bendiz a qualidade do trabalho feito nas universidades do Continente. É crítico do regime chinês, ao mesmo tempo que lhe reconhece conquistas merecedoras de reflexão, bem como uma grande fraqueza: a ausência de um mecanismo de transição de poder que garanta uma sucessão estável.

      A qualidade da investigação levada a cabo nas universidades chinesas e o modo como, ao longo das últimas décadas, investigadores de todo o mundo têm vindo a trabalhar com académicos do Continente são, para Timothy Cheek, as duas principais mudanças vividas durante a sua geração de sinólogos. Nascido na Austrália e actualmente a leccionar no Departamento de História e Escola de Política Pública e Assuntos Globais da Universidade de British Columbia, Canadá, Cheek é um dos editores da obra The Chinese Communist Party: A Century in Ten Lives, que reúne ensaios assinados por autores de várias proveniências. O investigador acredita que o actual momento, quer para os estudos chineses quer para a China e o PCC, é desafiante. Mas deixa uma garantia: «Goste-se ou não, o Partido Comunista provavelmente ficará connosco por muito tempo».

      Timothy Cheek

      Além de ser um dos seus editores, participa no livro The Chinese Communist Party: A Century in Ten Lives com um ensaio sobre Wang Shiwei, um intelectual, escritor, tradutor e voz crítica de Mao Zedong. O que o levou a pesquisar e escrever sobre a vida deste homem?

      T.C. – Wang Shiwei foi a primeira investigação que fiz no final dos anos 1970. Escrevi algumas coisas sobre ele ao longo dos anos, mas nas últimas duas décadas houve alguns desenvolvimentos no que sabemos, então quis revisitar o caso. Wang Shiwei era um comunista, na verdade era um teórico e tradutor marxista, mas também seguia a tradição dos escritores cosmopolitas do 4 de Maio. Devo dizer que ele provavelmente não é um bom romancista, mas entendeu o marxismo e o leninismo e dedicou-se à modernização da China. Envolveu-se com os intelectuais que foram para Yan’an no final dos anos 1930 e tornou-se o exemplo do que não se deve fazer. Criticou o partido em 1942 e irritou Mao, e não foi o único. Ding Ling, uma mulher, era a líder; Xiao Jun, um excelente e muito famoso romancista, também, e nunca se arrependeu. Ai Qing, o pai de Ai Weiwei, foi crítico. Todos, excepto Wang Shiwei e Xiao Jun, se arrependeram. Por isso Wang Shiwei é uma janela para as tensões entre os intelectuais e o partido. Não que Wang Shiwei fosse um democrata que se opunha a Mao, ele era comunista. Este é um debate intrapartidário e é o que me interessa. Durante toda a minha carreira estudei os intelectuais do sistema. É como olhar para os críticos católicos da igreja. O que é interessante para mim é esse conflito, o papel de Wang Shiwei: ele não estava do lado de fora, ele era um intelectual dentro do sistema. Isso significa que os intelectuais eram necessários para o partido, mas ao mesmo tempo eram um problema. Este é um dilema que perpassa todos os 100 anos do PCC.

       

      Os intelectuais ainda são necessários e ainda são um problema para o partido hoje em dia? De que forma?

      Sim e sim. Xi Jinping foi comparado a Mao, mas acho que ele se parece mais com Liu Shaoqi. As pessoas que não passaram a vida a estudar o Partido Comunista podem não estar familiarizadas com o nome de Liu Shaoqi. Ele era o número 2 do partido e era muito organizacional. Escreveu um ensaio muito famoso, que foi usado no movimento de rectificação de Yan’an, chamado Como Ser Um Bom Comunista. Mao deu a visão, mas Liu Shaoqi estabeleceu as bases de como fazê-lo, e isso passava por ser um burocrata transformador num governo ideológico que salvará o mundo desde que haja obediência. Muitos académicos usam a Igreja Católica como metáfora para ajudar os ocidentais a entender o PCC: uma organização salvadora que fez coisas terríveis, além de ter feito coisas maravilhosas. O que é difícil aos ocidentais contemporâneos entenderem é se o PCC é simplesmente terrível, um império do mal, ou se é maravilhoso, como se reivindica. E de facto é ambos e nenhum ao mesmo tempo. Xi Jinping lembra-nos Mao, mas ele é muito diferente, não tem o carisma de Mao. E o mundo e o partido também não são iguais. A China dos anos 2000 não é a China dos anos 1960 ou 40. A Organização Mundial de Comércio e o comércio internacional não tornaram a China democrática, mas tornaram-na global e isso mudou as pessoas. Hoje toda a gente pode aceder à internet e ter informações de todo o mundo. Deste ponto de vista, os intelectuais são necessários para Xi Jinping porque ele está a vender ideologia novamente e precisa de sacerdotes que dirijam as cerimónias e dêem a comunhão. Jiang Shigong é um bom exemplo. Trata-se de um teórico constitucional de Pequim, um muito bom académico e seguidor absoluto de Xi Jinping. Foi um dos principais autores do Livro Branco sobre Hong Kong. Ao mesmo tempo, vemos nos jornais alguém como Cai Xia, que leccionava na escola do partido e agora é muito crítica; houve outros, como Liu Xiaobo, Ai Weiwei… O Partido Comunista fica realmente incomodado com essas pessoas. Eles não põem na prisão pessoas que não os assustam. Quando falo com intelectuais chineses, eles dizem “Ah, a liberdade que vocês tem no Ocidente”, e eu digo “Sim, tu também podes ter. Só precisas ser tão irrelevante quanto eu”.

       

      Como é a sua cooperação e de outros colegas não chineses com os académicos da RPC? A atmosfera política influência de alguma forma essa cooperação?

      Aí está identificado o desenvolvimento mais importante da minha geração nos últimos 20 anos: trabalhamos muito mais com os nossos colegas na China. Quando comecei a ir à China, na década de 1980, mal conseguia encontrar-me com alguém, precisava de ser muito cauteloso e as conversas eram muito limitadas. Agora, metade dos alunos de pós-graduação que supervisiono na Universidade de British Columbia nasceram e foram criados na China, têm bacharelatos na China e estão a fazer pós-graduações no Ocidente. Fui treinado como historiador e fiz o meu doutoramento sobre a China em meados dos anos 1980. Achava que meu trabalho enquanto ocidental era aprender chinês, ler imenso chinês, contar a muita gente o que tinha descoberto e, em seguida, treinar jovens anglófonos para fazerem o mesmo. Mas nos últimos 20 anos tenho recebido cada vez mais alunos de pós-graduação chineses. Então, na segunda metade da minha carreira percebi que estou a ajudar os académicos da RPC a tornarem-se mais internacionais. A partir de meados de 1990 e por 20 anos tenho trabalhado muito com o académico Xu Jilin, de Xangai, em questões intelectuais e sobre o partido. Tivemos conferências juntos, partilhámos alunos de pós-graduação, e isso não é especial, é o que a minha geração está a fazer. Nos últimos 20 anos assistimos à integração da comunicação e produção académica, conectando académicos dentro e fora da China. Tem sido maravilhoso e melhorou o nosso trabalho nos dois lados. Hoje isso está a ser desafiado, está a piorar cada vez mais nos últimos dois anos. Há oito ou nove anos, Xi Jinping disse “É preciso tomar cuidado com a poluição espiritual das influências ocidentais”, etc., e nós pensámos que era mais conversa fiada do partido, mas agora ele está realmente a implementar isso. Académicos com quem trabalhei durante anos deixaram de responder ou apenas conversam sobre questões pessoais. Então, o que fazer? O que fazemos é o que podemos. O objectivo fundamental deste livro e também do meu trabalho actual é manter os canais abertos. Talvez não possamos fazer tanto – fizemos um trabalho realmente interessante entre 2001 e 2015 e essa janela está fechada – mas estou actualmente a trabalhar com académicos dentro da China, via Zoom, abertamente, sobre a história do partido. Como é que podemos fazer isto? Porque estamos a traduzir artigos legalmente publicados na China, para apresentar aos leitores ocidentais alguns dos excelentes trabalhos que vêm sendo produzidos lá.

       

      Quer dizer que o acesso à actual pesquisa académica que está a ser feita na China influencia muito a qualidade do que vai sendo publicado em inglês?

      Com certeza. Eu diria que nenhuma tese de doutoramento nos últimos cinco anos, escrita em inglês, é adequada se não envolver substancialmente investigação académica secundária em língua chinesa. Não se trata apenas de usar textos em chinês como recurso passivo para recolher dados, trata-se de envolver académicos da Universidade Fudan ou da Universidade Zhongshan, assim como envolvemos académicos de Heidelberg ou Harvard, e isso é maravilhoso. Devo dizer que esta comunicação teve um impacto semelhante na geração mais jovem na China. A primeira onda de influência ocidental foi a leitura dos grandes teóricos, Weber, Foucault, etc., e a sua aplicação. Eles ignoravam os estudos em língua inglesa e outras línguas europeias sobre a China. Agora debruçam-se sobre isso e são críticos, o que é óptimo. Estamos a encontrar um terreno comum no nosso compromisso partilhado para com o nosso trabalho profissional, no meu caso a História.  Os bons académicos com quem trabalho na China têm a mesma abordagem fundamental da História que eu, no sentido de ler textos em contexto, de aplicar uma ponderação racional, de fazer uma crítica cuidadosa das fontes, todas essas coisas. Mas as perguntas que eles fazem e as conclusões a que chegam são interessantemente diferentes, e isso é enriquecedor. É por isso que adoro o meu trabalho.

       

      Mencionou que cada vez mais estudantes chineses vêm para o Ocidente continuar os seus estudos. E os alunos ocidentais, estão mais ou menos interessados em estudar a China do que estavam, digamos, há uma década?

      Vivi o momento áureo dos Estudos Chineses no Ocidente, durante a Guerra Fria. É o que chamamos de momento Sputnik: o financiamento de todos os principais centros sobre a China na América do Norte e na Europa através de governos que perceberam “A União Soviética é assustadora, não a entendemos, por isso temos que aprender as ‘línguas do inimigo comunista’”. Com a queda dos sistemas socialistas, na década de 1990, essa fonte de financiamento secou e também se desvaneceu o interesse. As pessoas simplesmente pararam de estudar a União Soviética. A China, porém, tornou-se popular, não por razões geopolíticas, mas devido aos negócios. Agora o interesse empresarial esmoreceu, pois ninguém pode ir à China a não ser uns poucos líderes empresariais, e não poderemos ir no próximo ano, devido a esta realidade que é a Covid e também à desculpa que é a Covid. Tenho dito ao governo canadiano e a outros governos que estamos num novo momento do Sputnik e que eles precisam de financiar centros de estudo nesta área novamente. Vamos ver o que acontece. Como sabe, em geral a cobertura mediática sobre a China é muito negativa e, francamente, Xi Jinping e a sua diplomacia agressiva não têm ajudado. O que estão a fazer em Xinjiang é horrível; o que estão a fazer em Hong Kong é de partir o coração. O interesse diminui porque o acesso, a disponibilidade e a ideia de que é possível conseguir um bom emprego na área de negócios têm diminuído. A última parte é a académica: dois problemas são as disciplinas e os empregos. Na década de 1980, a maioria das universidades tinha um cientista político da China, um sociólogo da China, um economista da China. Isso já não acontece. Enfraquecemos realmente a nossa base de conhecimento sobre a China e recebemos todo o tipo de ideias estúpidas pela imprensa, que chegam ao governo. As poucas pessoas que lêem chinês e que passaram algum tempo na China olham para aquilo e dizem “Mas isto é loucura”. Há empregos académicos limitados. Eu preocupo-me com a quantidade de alunos de doutoramento que aceito porque temo que não haja empregos para todos eles. Estamos a atravessar um momento desafiante.

       

      Como vê o actual momento da China e do PCC, que agora cumpre 100 anos?

      O Partido Comunista Chinês sempre surpreendeu e confundiu observadores externos. O partido recusa-se a morrer. Relatos da sua morte foram claramente exagerados. Desde Tiananmen, em 1989, todos nós ficámos muito irritados, eu inclusive, e alguns investigadores têm previsto a morte iminente do partido: “Vai entrar em colapso, este ano ou no próximo”, prevêem eles há uns 30 anos. E, como disse o académico Joseph Fewsmith, um dia estarão certos, mas não nas últimas três décadas. Isto significa que, goste-se ou não, o Partido Comunista provavelmente ficará connosco por muito tempo. Quer isto dizer que tem de ser a versão do partido de Xi Jinping? Não. Novamente, se usarmos a imagem da Igreja Católica, as pessoas de fora da igreja vêem-na como algo monolítico, mas é claro que é muito diversa – há partidos dentro do partido. Creio que a China demonstrou poder haver desenvolvimento económico e uma terceira onda de industrialização sem democracia e sem o Estado de Direito da maneira que você e eu o conhecemos e entendemos, que é pela protecção dos direitos individuais. Mas isso não significa que o PCC seja exactamente o oposto disso. Não me interprete mal, não estou a recomendar o sistema chinês, mas há desafios e, em termos da nossa compreensão da história mundial, o PCC e o desenvolvimento económico da China confundem-nos. Precisamos olhar novamente para tudo.

       

      Este modelo criado pela China é algo que pode apelar a regimes mais autocráticos ou a democracias menos maduras em outros lugares?

      Com certeza. Qual foi a atracção do estalinismo? Foi paz, amor e democracia? Não. Foi: “Como governante, posso controlar o meu país, montar um exército forte e assustar os meus vizinhos que já me estão a assustar a mim”. Mas acho que é uma tolice desejar o fim do PCC. Não amo o partido, gostaria que a China fosse democrática, mas livrámo-nos do partido comunista na União Soviética e como foi que isso correu? O leninismo tem um efeito a jusante que todos devemos considerar: é como a penicilina, mata o vírus, mas também mata todas as outras bactérias. Por outras palavras, não há sociedade civil na China no sentido habermasiano. Se cortarmos a cabeça do partido, o resultado não será nada dócil, nem mesmo uma irritadiça Bélgica, o resultado será uma Rússia. Sou a favor da democratização, sigo Yu Keping, que tem um livro em inglês chamado Democracy Is A Good Thing e vem falando sobre democratizar o PCC. Lembre-se, são 90 milhões de pessoas, três vezes a população do Canadá. Isto poderia fazer de alguém um líder de vanguarda na sua sociedade, demonstrando como se faz a democracia, com eleições plenas e livres, com a protecção dos direitos individuais, etc. Começar com o PCC e trilhar o caminho a partir daí. Sugeri aqui alguns dos pontos fortes do sistema comunista. A sua fraqueza, porém, é a sucessão. Vimos no Ocidente que as democracias podem ser desafiadas, conhecemos as limitações dos sistemas eleitorais. Mas a grande fraqueza dos sistemas comunistas é a transição. Seja Xi Jinping bom ou mau, um dia vai morrer e eles não estarão prontos, haverá instabilidade. Se o partido cair, será porque causou o seu próprio colapso.

       

      VVAA

      The Chinese Communist Party: A Century in Ten Lives

      Cambridge University Press

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