Paul French
Condenado a navegar para sempre no ferry de Macau – Ferry to Hong Kong (1957), de Simon Kent
Publicado em 1957, Ferry to Hong Kong, de Simon Kent, é um romance de uma simplicidade particular, embora talvez pudesse ser melhor designado por Ferry to Macau. Passo a explicar: Clarry Mercer é um americano em Hong Kong, perturbado e algo acabado, que, depois de uma escaramuça num bar, é expulso da colónia britânica. Os polícias escoltam-no a bordo do Fa Tsan, mais conhecido por “Fat Annie”, um barco a vapor da era vitoriana que faz a ligação mais acessível, ainda que lenta, entre Kowloon e Macau. O Fat Annie é comandado por um alemão bastante severo e com excesso de peso chamado Herzl, acompanhado por um taciturno engenheiro escocês, McFadden, e um imediato macaense, Miguel. Herzl não aprova o alcoolismo de Mercer, enquanto McFadden gosta mais de quem possa aborrecer Herzl… e também gosta de uma bebida. Miguel tenta manter a calma entre a tripulação. Entre os passageiros habituais, destaca-se uma bela mulher italiana, Anna Ferrari, que leva os alunos de uma escola religiosa de volta a Macau, depois de uma visita a Hong Kong. Herzl, que está bastante interessado em Anna, espera não ter de suportar Mercer para além do tempo da travessia para Macau. Anna, por seu lado, sente-se atraída por Mercer, apesar da sua degradação. No entanto, ao chegar a Macau, as autoridades portuguesas consideram os documentos de Mercer inválidos e recusam-lhe a autorização de entrada. Torna-se então uma espécie de prisioneiro a bordo do Fat Annie, aparentemente condenado a fazer a travessia entre Macau e Kowloon para sempre.
O livro foi um best-seller – talvez porque toda a gente se sentia um pouco à deriva e incapaz de se estabelecer nos anos 50 do pós-guerra? Os estúdios britânicos Rank fizeram uma versão cinematográfica do romance em 1959. Mercer tornou-se um austríaco chamado Hart (interpretado por Curt Jürgens), Herzl foi interpretado por um Orson Welles adequadamente corpulento, e a escura beleza latina Anna tornou-se uma governanta inglesa loura e impulsiva, interpretada por Sylvia Syms. Vejam o filme, se quiserem, mas eu recomendo o livro. Simon Kent, um romancista de Manchester cujo nome verdadeiro era Mark Finkell (1907-1992), era um escritor com grande capacidade de evocação: «Pense-se num brinco cintilante de brilhantes pendendo garbosamente de uma orelha chinesa: e isso é Hong Kong. Pensem num pequeno e casto dedo feminino que se dirige para lá, por detrás do leque que a dama de um grande senhor poderia ter agitado desonestamente em Lisboa, alguns séculos atrás, e o que terão é a Macau portuguesa.»
Apesar de tudo isto, não encontro provas de que Simon Kent tenha alguma vez ido a Hong Kong ou a Macau. Pelo contrário, essa curta travessia entre duas colónias tornou-se, para ele, um pesadelo burocrático. Talvez não seja propriamente “kafkiano” – Clarry sente-se muito à vontade na Fat Annie, a andar de um lado para o outro, a beber o whisky McFadden’s e a aproximar-se de Anna –, mas está preso numa repetição interminável, sem fim à vista. Herzl está cada vez mais distraído com a sua presença.
O Fat Annie é uma banheira enferrujada. Transporta os jogadores menos endinheirados de Kowloon de um lado para o outro. É para os que não têm pressa – os falidos e os mortos, pois os caixões vão a bordo, com as suas carpideiras, para serem devolvidos, de uma forma ou de outra, aos cemitérios ancestrais. Os falidos, com as suas poupanças perdidas nos casinos, saltam borda fora para evitar a vergonha. Nas más travessias, os piratas assaltam o navio. Nos dias melhores, a tripulação não se preocupa muito com o facto de o Fat Annie, construído no Clyde na década de 1860, ter uma fuga e poder afundar-se a meio caminho.
Claro que a vida a bordo do Fat Annie, nos mares entre Macau e Hong Kong, acaba por dar a Clarry a oportunidade de provar o seu valor – repelindo piratas, salvando membros da tripulação, fazendo uma tentativa de tréguas com o Capitão Herzl. E talvez Anna possa salvar a alma devastada pela guerra de Clarry, devolvê-lo à vida normal e livrá-lo da bebida – se ele conseguir desembarcar…
Mas não vamos contar o desenlace! É possível que haja piratas derrotados, membros da tripulação salvos, jogadores desesperados e falidos trazidos de volta a bordo, tufões a que se sobrevive, caixões e as suas comitivas entregues, Anna intrigada com o eterno passageiro. Macau aparece mais uma vez, «respirando sonhadoramente durante a sua sesta». Para saber se Clarry está condenado a atravessar eternamente o Mar da China Meridional ou se se instala em Kowloon ou Coloane, terá de ler o livro!
A propósito, o filme custou 500.000 libras em 1959 – na altura, uma soma inédita para um filme britânico. Infelizmente, foi um fracasso de bilheteira, embora o facto de ter sido feito inteiramente no local (e com um barco a vapor de pás especialmente construído para o efeito), três meses a filmr em Hong Kong e Macau, em 1958, aumente consideravelmente o interesse dos amantes da história que procuram imagens antigas de Macau. Infelizmente, foi um fracasso. A revista Filmink chamou-lhe “uma estopada”. Aparentemente, conseguir ter Welles de pé e a actuar todos os dias não foi nada fácil.
Ainda assim, temos os livros de Kent – uma leitura ligeira, mas divertida. E, acreditem, a vida a bordo da lenta Fat Annie parece-me preferível a passar os próximos anos de um lado para o outro num ferry Shun Tak ou uma vida inteiramente vivida no HZMBus!







