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Terça-feira, 18 de Junho, 2024
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      CRÓNICA

      Dora Gago

       

      A terra prometida

      No dia da grande destruição, eu estava longe da minha aldeia e dos que foram meus. Tinha ido visitar uma prima a um povoado distante. Em Myanmar, os caminhos ainda ferem os pés descalços, na demora de quem os trilha. Uma tempestade entardeceu-me o regresso. Ao regressar à aldeia, vi o mais puro inferno. Não sobrara pedra sobre pedra. Tudo fora destruído, saqueado, pelos soldados. Do meu marido e dos filhos não havia sinal. Apenas cadáveres espalhados pelo campo, já cobertos pelo apetite voraz dos grifos e dos corvos. Nada sei de política nem de guerras étnicas e nunca percebi o que leva os homens a matarem os outros, nem a sede doentia de poderes absurdos, inúteis. Nunca estudei. O pouco que sei é feito do trabalho duro no campo, dos filhos paridos, dolorosamente criados e depois perdidos; do sol, da chuva, das montanhas. Aprendi a tecer, consertar e fazer telhados de palha de arroz e tudo o que importa à vida. Sei que sou Kayan, karen (os letrados chamam-nos “minoria étnica). Mas a quem interessa isso? Nasci numa sexta-feira, como todos aqueles cujo nome começa por Thin, por isso me chamo Thinag.

      Das primeiras décadas da minha vida pouco há a contar. Ainda me lembro do espanto com que recebi o primeiro aro no pescoço, aos cinco anos, o frio no pescoço, a dor. Primeiro até gostei, sentia-me mais crescida, quase adulta. Depois veio o desconforto, senti-me prisioneira…Um jugo, um peso para sempre. Àquele aro juntaram-se mais vinte e quatro, de bronze maciço e dourado, cada vez mais pesados. Do uso destas argolas contam-se várias histórias: poderiam proteger-nos dos ataques dos tigres nas florestas (normalmente feitos pela garganta); ou, segundo outros, evitariam a cobiça dos homens de tribos rivais. Nunca perguntei nada. O mundo, as tradições, as leis existem, são aceites e cumpridas ou contestadas. Nada mais. Aprendi a tecer os trajes usados por mim e pela minha família, casei quando era devido casar, o meu ventre gerou os dois filhos varões que o destino me quis depois tragar.

      Assustada, e desorientada como fêmea a quem destruíram a toca e as crias, lancei-me na longa viagem. Não sabia para onde ia, nem em que direcção, mas tinha de ir, só na fuga haveria vida. Virei as costas aos cadáveres amontoados, ao sangue ressequido, à terra queimada, aos escombros do passado, sob pena de ficar soterrada para sempre entre eles. Chorei todas as lágrimas até o meu corpo ficar ressequido como uma tâmara esquecida tempo demais ao sol. Vergada pelo peso dos aros de bronze e do desespero da perda, andei sozinha durante dias e dias, parando só quando o cansaço me travava os pés. Acendi fogueiras com lenhos colhidos do caminho e dormi, escondida em grutas abandonadas. Comi raízes, folhas, frutos silvestres, bebi água das nascentes. Quando o cansaço, a fome e a solidão me venceram, sentei-me numa pedra e fiquei à espera da morte. Eu que sempre tanto tinha lutado pela vida. Mas ela não veio. Em seu lugar, um bando de sombras negras aproximou-se de mim. Pensei que fossem soldados, seria o fim! Já não tinha forças para fugir, nem resistir.

      – Vem connosco. Somos karen como tu. – E levantam as capas para desvelar os pescoços alongados pelas pilhas de argolas – também somos mulheres-girafa. Sozinha, vais acabar por servir de comida aos bichos. Juntas havemos de conseguir chegar a Chiang Mai. Talvez nos ajudem. Já não temos nada. Mataram os nossos homens, os nossos filhos…E vão matar-nos também se nos encontrarem. Cobre bem a cabeça e o pescoço para não saberem quem és.

      E foi assim que segui aquelas mulheres com as mãos cheias de nada e a sede de viver como pesada bagagem. Semanas passaram, talvez meses, quem sabe? O tempo era uma bola transparente a girar entre a escuridão e a luz, sem hipótese de contagem. Depois da dura travessia, magras, famintas, chegámos à fronteira com a Tailândia e a esperança renasceu. Talvez abrigo, apoio, outras manhãs, outros dias e mundos novos por conhecer. Tanta vida pode caber debaixo de um telhado de palha de arroz! O sonho de uma terra prometida onde nem é preciso “correr leite e mel”, só ter um abrigo seguro, paz para plantar o arroz nosso de cada dia.

      Agora, vejo rebanhos de turistas a visitarem o mercado da nossa aldeia inventada. Toca nas peças de artesanato, perguntam o preço, muitos seguem indiferentes, rumo à entrada, onde as outras “long neck women” os esperam para as fotos sequiosas. Somos novos troféus, neste zoo humano. O governo da Tailândia aceitou-nos. Deu-nos cabanas com telhado de palha de arroz numa aldeia isolada de onde não podemos sair, nem sequer temos documentos. Somos alimentadas pelo exotismo dos anéis que nos prendem os pescoços, pelos flashes e sorrisos dos visitantes. Que posso dizer mais? Atravessei o inferno, enterrei os meus mortos, o meu passado e a vida continua, mesmo que a terra prometida não tenha leite nem mel, mas sim enxames de turistas, disparos de câmaras fotográficas e sorrisos tristes, esculpidos no dorso da liberdade perdida.

       

       

       

      Ponto Final
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      Redacção do Ponto Final Macau