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      “A Santa Casa da Misericórdia de Macau é um bom exemplo da coexistência pacífica e harmoniosa entre as comunidades”

      A Santa Casa da Misericórdia de Macau celebra este ano o seu 455.º aniversário. Nos últimos 25 anos, a instituição tem sido liderada por António José de Freitas que, em entrevista ao PONTO FINAL, destaca a diversidade e qualidade dos equipamentos. O provedor assinala que, nos últimos anos, a Santa Casa ganhou um maior reconhecimento da população de Macau.

      A Santa Casa da Misericórdia de Macau comemora este ano o seu 455.º aniversário e, em entrevista ao PONTO FINAL, António José de Freitas realça os equipamentos da instituição. O provedor, que está no cargo há 25 anos, diz mesmo que a creche da Santa Casa é a melhor de Macau. António José de Freitas diz também que actualmente a instituição “está plenamente integrada na grande família de solidariedade social” e, além disso, “ganhou um maior reconhecimento da população geral” da região. Por outro lado, o provedor descreve a Santa Casa como um “bom exemplo da coexistência pacífica e harmoniosa entre as comunidades”.

       

      A Santa Casa da Misericórdia de Macau celebra este ano o seu 455.º aniversário. O papel da instituição continua a ser relevante como no passado?

      Eu diria que o papel da Santa Casa, depois da transferência de soberania, até é mais abrangente. Com o devido respeito pela história, depois da criação da RAEM, a Irmandade tem sabido corresponder às mudanças do tempo, tem sabido trabalhar consoante as premências e consoante a actualidade. Temos uma série de projectos que a Santa Casa não tinha noutros tempos. Eu faço este ano 25 anos como provedor, nunca ninguém exerceu o cargo de provedor durante tanto tempo. Vou acabar o mandato no final do próximo ano…

       

      Já agora, pretende continuar?

      Eu gostava de passar o testemunho para as gerações mais jovens. É importante manter viva esta instituição. A Santa Casa é o espelho solidário de Portugal. O que fazemos espelha o que o país faz. Em Macau, os beneficiários sabem muito bem o que é a Santa Casa. Hoje em dia, a Santa Casa está plenamente integrada na grande família de solidariedade social. Temos ligações fortes com instituições de cariz social. Depois da transferência de soberania, criámos outro modelo de serviço social. Quisemos criar mais projectos, como a creche, que foi criada em 2002; Há dois anos, a creche Lara Reis; Criámos o museu em 2001, com ampliação em 2011; Criámos a Loja Social em 2012. Temos conseguido, durante 12 anos, mensalmente, patrocínios para subsidiar os cabazes de géneros alimentares. Todas as operadoras de jogo estão neste projecto, mas são só seis.

       

      Mas sentem mais dificuldades hoje em dia?

      Sim, sim. De facto, depois da pandemia, a economia não está tão bem. Mas não temos tido problemas. Temos também um subsídio de propinas para os alunos carenciados da Escola Portuguesa, que é um projecto que a Santa Casa abraçou um ano depois da criação da escola, em 1998.

       

      Quantos alunos já apoiou?

      A Santa Casa começou a subsidiar as propinas aos alunos da Escola Portuguesa com menos recursos a partir de 2000/2001. Desde então, foram beneficiados 947 alunos. Os pedidos para este ano começaram a 1 de Julho.

       

      Actualmente, com o envelhecimento da população, é cada vez mais necessária a Santa Casa? Essa é uma preocupação da instituição?

      A Santa Casa da Misericórdia de Macau é pioneira no serviço de apoio à terceira idade em toda a história de Macau. Neste momento, a Caritas tem mais lares, mas a Santa Casa é pioneira. Sobre o envelhecimento da população, ao longo de quase dois anos, a Santa Casa só tem recebido solicitações de admissão no lar de idosos com idade média de 85 anos, o que prova que, de facto, há um grande envelhecimento da população. Neste momento, os lares de Macau praticamente funcionam como lares para acamados. Já não temos idosos activos e independentes. Ou entram semi-acamados ou totalmente dependentes. Hoje em dia é difícil manter um lar, é preciso muitos recursos humanos, precisamente porque os utentes são muito dependentes.

       

      Os recursos humanos que agora têm no lar conseguem dar resposta, ou precisam de mais funcionários?

      Neste momento, conseguimos dar resposta. Mas, no que toca aos cuidadores, não conseguimos recrutar em Macau. São todos trabalhadores não-residentes do interior da China. As pessoas de Macau não querem trabalhar num lar. Era necessário que, a médio prazo, o Governo criasse mais lares.

       

      A Santa Casa tem algum plano para alargar a abrangência dos serviços aos idosos?

      Temos capacidade para 128 idosos. Francamente, não estamos a pensar abrir mais um lar, porque isto implica muitos encargos. O lar da Santa Casa funciona de forma diferente dos outros lares. Há oito anos, o Governo introduziu um novo modelo de subsídio aos lares, que consistia em aumentar consideravelmente o subsídio mensal para os lares, mas tinha uma condição de que todos os lares que entrassem nesse novo sistema entregassem as vagas todas para distribuição central através do Instituto de Acção Social. Muitos fizeram isso, mas a Santa Casa não porque entendeu que não devia passar a ser um órgão subalterno do Governo e ter as vagas controladas. Temos Irmãos já com alguma idade e todos eles precisam do lar. Preferimos manter a autonomia financeira e ser independentes. Queremos continuar a ser independentes. Em qualquer parte do mundo, uma instituição que tenha independência financeira é muito importante.

       

      Referiu há pouco que, nos últimos anos, após a pandemia, foi mais difícil atrair patrocínios…

      A Santa Casa não pede nem um avo à Fundação Macau. Enquanto provedor, eu penso que a independência e autonomia financeira é muito importante para uma instituição marcar presença como instituição de prestígio. Só para a Loja Social é que pedimos às operadoras e outros benfeitores. Só para este projecto.

       

      Foi iniciado recentemente o projecto “adopte um avô”, em que voluntários vão visitar regularmente alguns idosos que estão no lar. Essa ideia está a correr bem? Vão alargar o projecto a mais idosos?

      Está a correr bem. Estamos a trabalhar com a SJM, com um grupo de 50 voluntários formados pelo pessoal do lar. Agora os voluntários já vão duas vezes por mês. O primeiro grupo de idosos abrangidos engloba os mais independentes e lúcidos e agora, na segunda fase, já estão a entrar em contacto com os semi-acamados.

       

      E em relação à creche, qual o ponto de situação? Há uma maior procura?

      Eu orgulho-me de dizer que a creche da Santa Casa é a melhor de Macau. A creche que temos no NAPE desde 2002 é a melhor de Macau e é a única que tem funcionado com língua veicular o chinês, o português e o inglês. A partir do ano passado, devido à baixa taxa de natalidade, não conseguimos preencher as vagas todas. Temos 258 vagas, mas não são todas abertas anualmente, porque há crianças que se mantêm na instituição de um ano para o outro. O Governo devia incentivar mais a natalidade, talvez através de um prémio. A família que tivesse uma criança recebia um prémio de 10 mil patacas, por exemplo, e também a frequência na creche paga pelo Governo. Isto era o mínimo. Tem de haver incentivos monetários, seria muito importante.

       

      Então a Santa Casa não está a planear alargar os serviços para crianças? Os serviços que têm actualmente cobrem bem as necessidades?

      Acho que duas creches é mais que suficiente. A do NAPE e a Lara Reis são creches de grande qualidade. Temos, no total, 160 trabalhadores. Eu há 25 anos que trabalho de forma voluntária, não recebo nem um avo, nem tenho subsídio de representação, tal como todos os membros dos órgãos sociais.

       

      Nestes 25 anos à frente da Santa Casa, que balanço faz? Quais são os destaques positivos e negativos ao longo destes anos?

      Eu não vejo nenhum factor negativo ao longo destes 25 anos. Sinto-me muito bem com as acções que temos feito e pelo trabalho que temos realizado na área social. Ao longo destes 25 anos a Santa Casa da Misericórdia de Macau ganhou um maior reconhecimento da população em geral, sobretudo da comunidade chinesa. Até então, a instituição funcionava de portas fechadas. Ao longo destes 25 anos, a Santa Casa tem feito vários projectos com outras instituições de cariz social, como com a União Geral das Associações dos Moradores de Macau, com quem temos um fundo de apoio monetário para famílias com necessidades prementes. Temos dado apoios pontuais a vários projectos, desde o ano 2000, como por exemplo o Dia Mundial da Criança, em que a Santa Casa dá um patrocínio à entidade organizadora. Temos também dado subsídios anuais à Associação dos Escoteiros de Macau, que está a fazer um bom trabalho. O balanço tem sido muito positivo. Com o devido respeito aos provedores e directores que passaram, eu tenho procurado gerir os activos da Santa Casa de uma maneira muito diferente.

       

      A pandemia, nomeadamente o fim das restrições em Macau, foi um especialmente período difícil?

      Esse foi um factor negativo para toda a Macau, para todas as famílias. Foram as circunstâncias do tempo e da situação.

       

      Mas a Santa Casa deve ter tido mais trabalho porque lida directamente com idosos…

      Tivemos de gastar muito mais com a aquisição de máscaras, batas, equipamentos, purificadores de ar, tivemos de pagar ao pessoal que trabalhou em regime de circuito fechado. Tirando isso, tem corrido muito bem, com o apoio de todos. Todos nós comungamos dos mesmos ideais e dos mesmos objectivos. Macau é um local de muito significado para mim porque foi onde marcaram encontro o Oriente e o Ocidente. A Santa Casa da Misericórdia de Macau é um bom exemplo da coexistência pacífica e harmoniosa entre as comunidades.

       

      E há novos projectos em vista que queiram pôr em prática no futuro a curto prazo?

      Por enquanto, depois da pandemia, queremos respirar e aproveitar o alívio pós-pandemia. Depois deste mandato, se eu continuar a ser provedor, irei pensar em mais projectos.

       

      Já tem alguma ideia de projecto que gostasse de ver implementado?

      Uma coisa é certa: A Santa Casa tem todas as condições para fazer mais e melhor. Para qualquer projecto é preciso dinheiro e, nesse aspecto, nós estamos à vontade. Vamos continuar a trabalhar para prestigiar esta instituição e manter para sempre as suas raízes.