Edição do dia

Terça-feira, 7 de Fevereiro, 2023
Cidade do Santo Nome de Deus de Macau
nuvens dispersas
17.9 ° C
19.9 °
17.9 °
94 %
1kmh
40 %
Seg
20 °
Ter
22 °
Qua
19 °
Qui
20 °
Sex
20 °

Suplementos

PUB
PUB
Mais
    More
      Início Entrevista “Macau tem falta profissionais de enfermagem, mas a equipa de médicos é...
      Chan Iek Lap

      “Macau tem falta profissionais de enfermagem, mas a equipa de médicos é suficiente”

      O presidente da Federação de Médico e Saúde de Macau, Chan Iek Lap, admitiu que houve dificuldades na mobilização de profissionais médicos nos postos comunitários de consulta externa durante o mês passado devido à elevada procura de serviços, bem como à infecção do pessoal. Em entrevista ao PONTO FINAL, o médico e deputado enfatiza que as autoridades e o sector médico estavam a preparar-se bem para um surto após a reabertura da cidade, apesar do facto de a velocidade de contágio da Covid-19 ter sido bastante rápida e as mortes são difíceis de evitar neste contexto.

      Fotografia de Gonçalo Lobo Pinheiro

      Macau fechou a fronteira ao exterior há três anos e decidiu finalmente uma reabertura quando a China abandonou a sua política de zero caso. Em entrevista ao PONTO FINAL, o médico Chan Iek Lap fez um balanço positivo aos trabalhos antiepidémicos do Governo de Macau, que “fez o seu melhor” ao longo desse período, apontando, entretanto, que houve um grande desafio na organização dos postos de consulta externa comunitários devido à infecção do pessoal médico. O médico e presidente da Federação de Médico e Saúde de Macau entende que o surgimento de casos de doenças graves e mortes é “inevitável” com a abordagem pandémica actual, e não é a questão de recursos médicos que pode aliviar a situação. Chan Iek Lap sublinhou ainda que existe carência de profissionais de enfermagem em Macau e considera que o sector médico deve diversificar-se na área pública e privada. O deputado da Assembleia Legislativa, eleito por sufrágio indirecto, assinalou também que está confiante com o desenvolvimento com qualidade do Hospital das Ilhas.

       

      Que comentário faz aos trabalhos antiepidémicos dos últimos três anos?

      Antes de mais, temos de compreender que a política antiepidémica de Macau está sempre a seguir a do interior da China. A economia faz parte da questão principal, temos mais de 100 mil trabalhadores não-residentes, além das Filipinas, do Vietname, da Indonésia, e há mais de 50 mil trabalhadores não-residentes da China que estão a sustentar o funcionamento comercial em Macau. Portanto Macau tem de seguir o Governo Central, o que impossibilitou a abertura ao exterior. O fecho da fronteira com o Continente pode trazer vários problemas às nossas pequenas e médias empresas locais no seu funcionamento normal. Neste aspecto, é necessário manter a circulação entre as partes para assegurar os serviços sociais no território. E em Dezembro, a política da China mudou, Macau seguiu e abriu. A maior questão é a capacidade do sistema médico de Macau para lidar com a situação subsequente da abertura. Tenho de recordar que há cerca de um ano tive a oportunidade de falar com a secretária e os Serviços de Saúde, o Governo tem procurado aumentar a taxa de vacinação dos idosos e crianças. Os jovens e aqueles de meia idade são os mais vacinados. Mas para os idosos, não podemos forçá-los a tomar a vacina. Em Hong Kong, o Governo deu dinheiro para se vacinar, mas acho que não é uma forma adequada. O Governo e o sector médico têm andado a preparar-se para o surto e todas as situações possíveis, estamos a trabalhar muito. Ao longo dos três anos adoptámos a mesma política que a China. E estávamos sempre a preparar para uma eventual abertura, em termos das vacinas e medicamentos. As autoridades fizeram bem a distribuição dos kits antiepidémicos, sabemos que o volume de trabalho é muito e o Governo estava a fazer o seu melhor.

       

      O Governo anunciou recentemente o levantamento das restrições antiepidémicas. Registou depois um grande aumento da procura de serviços médicos de urgência, e os profissionais médicos sofreram uma grande pressão nos serviços. Como médico, qual é a sua opinião sobre isso?

      Relativamente ao surto ocorrido no mês passado, sabemos que a velocidade de contágio da doença é bastante rápida. Em duas semanas, mais de metade da população de Macau foi infectada. Neste contexto, o Governo tem feito o seu trabalho, mas a infecção no surto foi muito rápida. O Governo tem apelado há meses à vacinação, especialmente das crianças e idosos, fizeram muitos trabalhos. Quanto a medicamentos, já foram distribuídos. Foi implementada a triagem de quatro níveis dos pacientes. Sei que houve uma grande procura de serviços nos postos comunitários, as pessoas tiveram de ficar à espera durante duas horas, no entanto, a triagem aliviou a pressão dos postos, sendo que as pessoas com febre ou sintomas ligeiros podem ficar em casa, e as que com sintomas graves vão ao posto ou ao hospital. Os casos de doenças graves e mortes existem, são factos. Na verdade, as pessoas sofrem sempre doenças crónicas após os 60, alguns idosos têm de ficar acamados. Após a infecção, é mais fácil ser curado num corpo saudável, contudo, para os idosos mais fracos, até tossir lhes custa. É de destacar que as mortes devido à pandemia não são casos específicos para Macau. Segundo os dados de Hong Kong, dos Estados Unidos e outros lugares, esta doença ataca sempre mais gravemente os idosos com doenças básicas. Ninguém quer ver o aumento de mortes, mas isto é inevitável e não um problema que pode ser resolvido ao termos mais um respirador ou mais medicamentos. As pessoas mais fracas, até um jovem ou uma criança às vezes, podem morrer com essa doença. Do meu conhecimento, os SSM tratam todos os pacientes com muito cuidado e muito esforço. Não é verdade que o tratamento no hospital é uma confusão, como disseram na internet. Nem todos os casos graves vão morrer, mas aqueles que não se vacinaram ou têm doenças graves, podem não ser capazes de ultrapassar a situação. O Centro Hospitalar Conde de São Januário esforça-se muito para salvar a vida dos residentes. Há muitas opiniões públicas sobre os trabalhos antiepidémicos do Governo, até sugerir distribuir medicamentos para a Covid, da Pfizer. Temos de pensar também em como prevenir a revenda desses medicamentos, como há casos de venda de medicamentos distribuídos do Governo para a febre nas redes sociais, portanto, a distribuição em demasia de medicamentos poderá tornar-se num desperdício.

       

      Como está o funcionamento dos postos comunitários de consulta externa?

      Sabendo que a procura de serviços médicos é alta, o Governo tem mobilizado mais recursos a trabalhos antiepidémicos, nomeadamente para contratar os funcionários dos postos comunitários de consulta externa. Havia inicialmente apenas três postos, e afinal foram estabelecidos 17 postos. Uma das dificuldades foi também a procura de lugares adequados para abrir os postos, de acordo com a necessidade da população. Na minha perspectiva, os profissionais do sector médico sabem que a política do Governo foi atempada, o problema é que a contaminação do vírus é rápida. Com um surto repentino, os cidadãos têm sempre a impressão de que a situação foi muito grave, provavelmente com as informações circuladas nas redes sociais. Alguns casos podiam ser graves, mas nem todos. Os postos são geridos pela Federação de Médico e Saúde de Macau. Tivemos dificuldades na organização nos postos comunitários com a infecção da maioria dos médicos. A falta de pessoal até levou ao corte de quotas dos postos. Normalmente há dois médicos da medicina ocidental, um médico da medicina chinesa e um farmacêutico num posto, durante a época mais difícil só tínhamos um praticante de medicina ocidental e um farmacêutico a trabalharem num posto. Portanto, os cidadãos sentiam que neste meio mês foi tudo uma confusão. Admito isso, e o mais confuso é que os médicos também estavam doentes. Os profissionais até trabalharam quando não estavam totalmente recuperados. Neste caso, agradeço muito ao pessoal que participou no funcionamento dos postos, porque esses jovens se empenharam em coordenar no trabalho, apesar do cansaço e doença, mostrando responsabilidade e profissionalismo para servir os residentes de Macau com o seu esforço durante esse tempo.

       

      Acha que o Governo e a cidade prepararam-se bem para a abertura?

      Macau estava preparado, e preparou-se bem para a reabertura. Mas as pessoas de Macau não estavam psicologicamente a aceitar os acontecimentos, e consideraram que a abertura foi repentina e demasiado rápido, sendo uma confusão. Relativamente ao Governo, havia um plano de contingência. As autoridades tiveram muitos esforços, trabalharam até muito tarde, tinham muitas ideias diferentes para lidar com a situação, como a criação dos postos comunitários e os atendimentos telefónicos. Até pensaram para as clínicas privadas ajudarem a atender os infectados, cuja medida estava quase pronta, mas o número de infectados está agora a cair, e afinal não vamos fazer isso. Essas são coisas que não foram divulgadas ao público, os cidadãos só se queixaram. Participei nos trabalhos, por isso sei que todo o pessoal estava a trabalhar muito.

       

      Após o surto do mês passado, a saúde pública de Macau enfrentará mais desafios nos próximos meses em relação à Covid-19?

      De acordo com a análise científica e opinião de especialistas, geralmente, uma pessoa fica imune entre três e seis meses após uma infecção, tendo anticorpos, e assim não será infectada facilmente. Mesmo que seja infectada, terá sintomas mais ligeiros. O último surto em Macau foi em Dezembro, portanto, um grande surto não deve surgir até Junho, ou pelo menos até Março. Sobre a questão de a chegada de visitantes trazer mais variantes de vírus, o Governo já tinha apelado para continuarmos a usar máscaras e ter uma protecção pessoal. Com a referência da gripe, que vai causar um pequeno surto todos os anos, provavelmente com algumas mortes, acho que Macau já tem a experiência de um surto de grande escala, e o sistema médico de Macau é capaz de responder a eventuais pequenos surtos no futuro.

       

      Vários países estrangeiros estão a impor restrições para passageiros oriundos da China e até das RAE. Qual é a sua opinião?

      Não tenho comentário para as medidas de outros países. Mas vou dar um exemplo simples, a Tailândia exigia vacinação completa e seguro para a entrada, mas cancelou a política no dia seguinte. Será que estabeleceu o regime de acordo com a situação pandémica? Ou foi uma decisão administrativa ou uma consideração política? Parece que as restrições não são baseadas da análise científica, mas uma questão política. No entanto, penso que não vão se prolongar por muito tempo, uma vez que a tendência é para se abrir, em virtude de troca comercial, intercâmbio e turismo.

       

      Macau tem falta de recursos médico quer no sector público, quer no privado, particularmente em termos de número de médicos e enfermeiros?

      Macau tem falta profissionais de enfermagem, mas a equipa de médicos é suficiente. Cerca de cem médicos terminam a formação todos os anos, de diversas áreas. Temos jovens médicos, farmacêuticos e terapeutas formados localmente, do interior da China, de Hong Kong e Taiwan. Por isso é suficiente para uma cidade pequena.

       

       

      Como está a situação da perda de enfermeiros em Macau?

      Isso tem a ver com vários factores. Em primeiro lugar, a procura actual de serviços médicos está cada vez maior. Para a presente campanha de vacinação, muitos enfermeiros dos centros de saúde foram organizados para ajudar na administração de vacinas. Por outro lado, alguns enfermeiros do hospital podem deixar de trabalhar no turno nocturno após o casamento para cuidar da família. Vão trabalhar para instituições com horário fixo, como nas clínicas. Particularmente as enfermeiras, depois de terem filhos, muitas decidem ficar em casa com os menores, e só voltam ao trabalho quando os filhos estão crescidos. Há actualmente muitas vagas na enfermagem, pelo que os equipamentos sociais e hospitais estão a contratar enfermeiros não residentes, do Continente, para atender à necessidade da sociedade.

       

      E como está a situação de médicos especialistas?

      Para formar médicos especialistas demorava quatro ou cinco anos no passado, agora é estabelecido um estágio de seis anos, após terem qualificação como um médico clínico geral. Mas durante o período de estágio, os médicos já estão a trabalhar como médicos especialistas, o que ajuda a completar os recursos humanos. Acho que a falta de médicos especialistas é diferente em diferentes especialidades, dependendo da procura de consulta entre os doentes. Contudo, é um caminho certo para a RAEM formar mais médicos especialistas.

       

      Quais são as prioridades para melhorar o funcionamento do sector da saúde de Macau?

      Ao falar do sector médico de Macau, claro que o Governo tem de assumir a responsabilidade pelos benefícios médicos dos residentes, mas, como referiu agora o Governo, toda a população deve também proteger a sua saúde. Era conhecimento comum que o serviço médico é pago, mas hoje em dia muitas pessoas querem só serviços médicos grátis. O que é grátis nunca satisfaz o desejo de todos. Além dos casos de doenças raras, que têm de ser encaminhados para tratamento no estrangeiro, o serviço médico é basicamente suficiente, só que todos recorrem para o serviço público, fazendo com que haja carência óbvia numa parte do sistema. Macau tem mais hospitais que servem pessoas com diferentes necessidades e exigências. Caso Macau desenvolva e fique com apenas serviços grátis, terminando o funcionamento do Hospital Kiang Wu, do Hospital Universitário, do Hospital Yin Kui e das clínicas, será a situação que os residentes querem chegar? O sector médico numa sociedade capitalista deve ter concorrência. O Hospital Kiang Wu desenvolve novos projectos enquanto o CHCSJ promove novas técnicas, é necessário ter concorrência de boa-fé, sendo um equilíbrio do sistema. Caso contrário, não é um desenvolvimento saudável. Além dos casos de doenças raras e difíceis, que Macau de momento não é capaz de tratar, o serviço normal é suficiente, a menos que toda a gente queira só serviços grátis. Nesse sentido, o foco de trabalho deve ser o desenvolvimento conjunto do sector privado e público, e não o sistema público a abranger todos os serviços. Através de diferentes políticas e medidas, as autoridades devem deixar os cidadãos aceitarem gradualmente o serviço de diferentes instituições médicas. Já que o sector privado também deve melhorar a sua qualidade de serviço, o nível de técnica e de equipamentos. As clínicas podem procurar transformar-se num modelo de serviço familiar, promovendo o serviço de médico familiar em Macau.

       

      Quanto ao Hospital das Ilhas, após a sua entrada em funcionamento, Macau vai conseguir tratar os casos de doenças graves e raras?

      O Chefe do Executivo já ponderou o problema de tratamento de doenças raras e difíceis em Macau, para os doentes serem curados localmente, e assim desenvolve o Hospital das Ilhas. Vai contratar médicos profissionais de primeira classe, oferecendo tratamento da mesma qualidade como no estrangeiro. Estou confiante de que Macau vai ter capacidade de tratar doenças raras com o Hospital das Ilhas, os equipamentos médicos são mais novos e inovadores, incluindo os aparelhos para tratar o cancro, ou para consultas em geral. Os residentes não terão de ir a Hong Kong para consulta médica, e podem ser acompanhados pelas famílias durante o tratamento. Entretanto, sendo membro do sector médico local, acho que é necessário o Hospital das Ilhas, no futuro, empenhar-se na formação de talentos locais, com aprendizagem aos especialistas contratados.

       

      Como vê o regime de recrutamento no Hospital das Ilhas?

      Através do recrutamento da função pública, a contratação tem de passar pela Direcção dos Serviços de Administração e Função Pública, demorando muito tempo nos procedimentos administrativos. Se for uma contratação privada, que o Governo acabou por anunciar recentemente, o processo será mais rápido, tudo pode estar pronto quando precisar de pessoal de imediato. Além disso, na função pública, a demissão do pessoal não é fácil. Com o regime privado, se considerar que a qualidade de pessoal não é suficiente para o trabalho no hospital, pode troca-se o funcionário facilmente. A contratação privada é mais flexível. Na minha opinião, isso não tem nada a ver com o salário ser mais alto ou baixo. Para um médico com ambição, mesmo que o salário seja baixo, vai aceitar porque é uma oportunidade preciosa para aprender, e contribui muito para a sua carreira. Julgo que o regime actual beneficia a mobilização do pessoal para formar uma equipa praticamente de alta qualidade.