RTP e TDM: uma história que começa logo na década de 70

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O primeiro grupo de trabalho da RTP, que iria preparar o arranque da Teledifusão de Macau (TDM), chegou ao território logo em 1980, seguindo-se, posteriormente, uma segunda equipa. O caminho inicial estava trilhado e a colaboração com a estação de Portugal foi essencial.

Luciana Leitão

 

Depois da Revolução dos Cravos em Portugal, a 25 de Abril de 1974, começou a pensar-se na necessidade de o território ter a sua própria estação televisiva. Garcia Leandro, então governador de Macau, lançou a primeira semente com a criação de um grupo de trabalho, quatro anos depois. Mas foi em 1979, com o seu sucessor, Melo Egídio, que um grupo composto pelos jornalistas Afonso Rato, José Maria Trindade, Gonçalo César de Sá e José Alberto de Sousa deu início, no território, aos trabalhos preparatórios.

“Em 1979, era eu correspondente da ANOP (ex-Lusa) e assessor de informação do governador e, com o Jorge Rangel (na altura, director dos serviços de Turismo), tentámos melhorar a informação local e projectá-la para fora do território”, recorda Gonçalo César de Sá. “Nesse sentido, foram feitos contactos com a RTP e sugerida a vinda a Macau de uma delegação, que viria a acontecer em 1979 com Afonso Rato e José Maria Trindade, ambos da RTP, para perceber o que se podia fazer”.

 

Uma mexida na legislação

 

A ideia de ter um serviço público de televisão no território estava plantada, mas, para que a RTP pudesse estar envolvida, tornou-se necessário ajustar a legislação em Portugal. “A lei só dava a concessão do serviço público de televisão à RTP em Portugal”, diz o jornalista José Maria Trindade, recordando que se acrescentou Macau ao diploma e só então a equipa da RTP pôde seguir para o território. Em Janeiro de 1980, chegaram a Macau para dar início aos trabalhos.

Depois desse arranque, “a RTP demonstrou interesse em vir para Macau lançar a rádio primeiro, em substituição da estação de rádio local que era dirigida por Alberto Alecrim, e depois a televisão”, continua César de Sá. Houve então um segundo grupo da RTP a deslocar-se ao território — César de Sá regressa então à ANOP em Portugal e é requisitado pela RTP, para integrar essa equipa. “Eu fico responsável pela informação da rádio e da futura televisão”, recorda.

 

Da rádio à televisão

 

Fazem-se alterações na rádio para a modernizar e foi criado um canal permanente em chinês. “Fomos buscar à então rádio Vilaverde, que emitia em chinês, alguns profissionais, como a Rina Tay, para o arranque do Ou Mun Tin Toi, onde trabalharam, entre outros, Heidi Ho, ex-presidente do Instituto Cultural. A rádio portuguesa tinha na informação o José Alberto de Sousa, o João Reis, o Severino e, nessa altura, começa a trabalhar na redacção, o Ricardo Pinto e o José Rodrigues dos Santos, quando ainda eram estudantes do liceu de Macau”, recorda. “Mais tarde, vem a Fátima Cid e a Maria Helena Falé, que se juntam a profissionais como o Victor Chan, ex-director do Gabinete de Comunicação Social (GCS) que trabalhou na TDM, na zona dos programas, então liderada por mim, o João Guedes e a própria Ana Isabel Dias.”

Com a Rádio Macau lançada, era altura de preparar a televisão, depois de terem sido adquiridos equipamentos alemães à Bosch. “É interessante lembrar que o Harald Bruning, actual director do Macau Post Daily, é o profissional responsável pela entrega do material alemão e do controlo da sua montagem com técnicos da RTP e RDP que, entretanto, vieram para Macau”, diz.

O jornalista João Guedes também fazia parte da equipa de Gonçalo César de Sá. “Quando fomos para a rádio, era para preparar a televisão, que viria quatro anos depois. Abel Martins [presidente da TDM em 1984] e o Marcos Vidal [realizador] — são eles os dois que avançam com a televisão e pedem a vinda de mais gente para esse sector”, recorda.

 

A formação das equipas locais

 

Depois de criada a Empresa Pública de Teledifusão de Macau, que integrava os serviços de radiofusão, ao mesmo tempo em que se extinguia a ERM-Emissora de Radiodifusão de Macau, arrancava a primeira emissão televisiva, a 13 de Maio de 1984. Nessa data, juntam-se mais profissionais da RTP, como o Fernando Maia Cerqueira e a Judite Sousa, que trabalhavam na RTP do Porto, e o Rui Letria Dias, o Victor Pereira e o Mário Cardoso, da RTP de Lisboa. “A partir daí, aumentam os quadros com jornalistas, apresentadores e produtores de Portugal e as administrações da TDM passam para profissionais muito ligados aos partidos políticos que governavam Portugal”, recorda Gonçalo César de Sá.

Neste período, o território acolhe na recém-criada televisão nomes sonantes como o realizador Luís Filipe Rocha e os jornalistas Avelino Rodrigues, João Nuno Nogueira e João Barradas. César de Sá, que foi responsável pela informação na rádio e televisão até 1984 e, entre essa data e 1986, pelos programas de TV, recorda a “produção de uma série de documentários sobre a presença portuguesa na Tailândia, Singapura, Malásia, Indonésia e Japão, nomeadamente o filme ‘Tanegashima, a ilha da Espingarda Portuguesa’, que teve na altura grande impacto.” São todos esses nomes que acabam por dar formação às equipas locais, nas diferentes áreas ligadas à televisão.

O jornalista Jorge Silva, que ainda hoje trabalha para a estação televisiva local, começou no território na rádio, em 1985, e só, posteriormente, foi chamado para o telejornal. “O pessoal da RTP tinha experiência e isso é que permitiu arrancar”, recorda. “A colaboração [com a RTP] durou 9/10 anos e depois as coisas começaram a andar, com o nosso acesso aos conteúdos da RTP”, diz, contrapondo que, “em termos de quadros humanos, houve uma redução, acabando por permanecer poucos profissionais da RTP em relação ao que existia desde o início”.

 

O despedimento de jornalistas

 

Nesta relação com a RTP, um episódio marcou os anos em que se preparava o lançamento da TDM. Em 1983, chegavam a Macau, da RDP/RTP, vários jornalistas, que acabariam por ficar pouco tempo no território. “Por decisão do então secretário-adjunto Roque Martins, foram dispensados de funções, nalguns casos 48 horas depois de terem chegado a Macau”, lê-se na edição de então do jornal A Tribuna de Macau.

O jornalista Hélder Fernando, que tinha chegado da RDP para integrar a Rádio Macau, em Junho de 1983, estava entre esse grupo. “Fui o primeiro a ser despedido delicadamente, porque estava à meia-noite lá”, recorda. “Estava a arrumar as minhas coisas e, de repente, veio a São, secretária da administração.” O motivo nunca soube, ainda que corresse a suspeita, na altura, de que tinha a ver com diferenças políticas em relação ao então governador. Ainda assim, continuou no território, regressando depois à Rádio Macau, em 1986.