LEITORES EM CONSTRUÇÃO

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SEM PACIÊNCIA PARA HISTÓRIAS

Gonçalo Viana
Haja Paciência
Orfeu Negro

O mais recente livro de Gonçalo Viana é um álbum, uma narrativa onde texto e imagens funcionam em total interdependência, contando uma história que acaba por ser uma homenagem a todas as histórias infantis e um apelo a que os leitores inventem as suas próprias narrativas. No centro, uma personagem cuja impaciência perante certas interacções sociais é a característica principal. A esse traço psicológico juntam-se características físicas que acrescentam muito ao personagem, ajudando a definir os seus modos e as suas preferências quotidianas: o bigode comprido e recurvado, a careca brilhante e as roupas clássicas são todo um programa que enriquece visualmente o livro, mas também ajuda a definir a personalidade deste habitante de um livro de histórias.
A narrativa é aberta, convocando os leitores para uma participação que dê continuidade ao que se conta nas páginas do livro. Esse homem com pouca paciência para contar histórias, sobretudo porque vive no meio delas e talvez preferisse o sossego de livros menos interactivos (um dicionário era a sua casa de sonho), é, afinal, um excelso participante de um mundo de fantasia sem o qual seríamos seguramente mais pobres enquanto espécie. Afinal, o facto de contarmos histórias é o que mais nos distingue dos outros animais.

 

O JAPÃO DE MESTRE JOSÉ RUY

José Ruy
Lendas Japonesas
Polvo

Foi no final da década de 40 que José Ruy, nome maior da banda desenhada portuguesa de meados do século XX, começou a adaptar uma série de lendas japonesas registadas por Wenceslau de Moraes, transformando-as em bandas desenhadas que foram publicadas no jornal infantil O Papagaio. Cinquenta anos mais tarde, José Ruy voltou a esse material, acabando por redesenhar algumas das lendas anteriormente publicadas, mas foi já em 2020, dois anos antes da sua morte, que retomou o projecto, redesenhando e desenhando novas lendas.
O resultado publicou-se agora, já sem a presença física do autor, num livro que reúne onze lendas japonesas. As pranchas reflectem o traço que popularizou José Ruy, exibindo composições extremamente cuidadas e planos que vão alternando pontos de vista, de modo a criar uma leitura tão total quanto possível. É notório o fascínio que a cultura japonesa e os textos de Moraes exerceram sobre José Ruy, que aqui homenageia esse património de um modo simultaneamente curioso e respeitoso, cruzando um detalhe onde se destaca o rigor histórico com elementos de fantástico que asseguram que a narrativa nunca se afasta do seu lugar mítico.

NAS LIVRARIAS

 

Álvaro Magalhães (ilustr. Carlos J. Campos)
O Estranhão – Diário Secreto
Porto Editora

 

Mac Barnett e Christian Robinson
Vinte Perguntas
Orfeu Negro
Tradução de João Berhan

 

 

Christopher Lloyd
Enciclopédia Britannica Juvenil 1: A Terra
Nuvem de Tinta

 

Joana Lucas Coelho
Um Abraço ao Nosso Mundo
Lilliput