Há “consequências nefastas” tanto para o recém-nascido como para a mãe, na separação de ambos à nascença. A ideia é defendida pelo psicólogo clínico Nuno Gomes, que comentou ao PONTO FINAL o facto de o Centro Hospitalar Conde de São Januário (CHCSJ) estar a separar os bebés das progenitoras, alegando motivos relacionados com a Covid-19 para o fazer.
Nuno Gomes não só não compreende a decisão, como espera que as autoridades sanitárias locais revertam rapidamente. “É efectivamente muito doloroso emocionalmente privar uma mãe desses momentos tão importantes, e a ansiedade provocada por essa privação pode ter efeitos psicossomáticos, podendo inclusivamente afectar a fase da lactação. É muito doloroso. Não podemos privar as mães desta alegria”, começou por dizer ao nosso jornal.
O profissional, devidamente credenciado pelos Serviços de Saúde, considera que havendo separação, vai haver stress e tudo o que é o contrário de relaxamento, por isso, “é fundamental, a nível físico e a nível emocional, tanto para o bebé como para a mãe, estarem juntos, sendo que o contacto com a pele é muito importante, não esquecendo o óbvio que é a importância da amamentação”. “O óbvio também é relaxar a mãe. Para a mãe, é pensar que carregou no útero um feto durante aproximadamente nove meses. Tudo o que uma mãe mentalmente saudável quer é ter o bebé nos braços. O toque, o sentir, o amparar, até o facto de constatar visualmente o bebé em contacto com o seu corpo, conecta e estabelece vínculos muito fortes. Estes vínculos são inclusivamente visíveis no mundo animal. É algo muito inerente à nossa condição como espécie mamífera, fundamental para o início de uma boa saúde mental, emocional, e até física”, referiu Nuno Gomes, sublinhando ser “muito importante mencionar o vínculo emocional que é feito entre bebé e mãe logo à partida”.
O psicólogo português lembra até o austríaco Sigmund Freud que defendia que o nascimento é o nosso primeiro grande trauma. “No nascimento há uma mudança drástica do ambiente do bebé desde o conforto omnipresente do útero, onde o bebé está envolvido no líquido amniótico, para um mundo completamente novo, que envolve uma transição muito física, nomeadamente na adaptação à força da gravidade do mundo exterior, bem como no facto de começar a respirar”, notou, enfatizando que isto não é apenas uma questão do mundo dos humanos porque “é visto também no mundo animal”. “Nos mamíferos, por exemplo, as crias precisam de estar junto das progenitoras, é uma necessidade de vínculo emocional muito forte”.
Aqui entra o método mãe canguru, recordado pelo profissional, que é validado inclusivamente pela Organização Mundial de Saúde (OMS) e “suporta a ideia de que a mãe e o bebé têm de estar fisicamente juntos nestes primeiros momentos de vida da cria”. “Há enormes vantagens a nível físico e emocional. Esta medida tem de ser alterada o mais rapidamente possível”, defendeu Nuno Gomes, que ainda teve uma palavra de conforto para os pais: “Claro que a presença do pai também é importante, principalmente para a mãe, e também para o lado emocional do pai, mas, na perspectiva do bebé, o papel do pai virá a ser importante depois, umas semanas depois.”
Recorde-se que quatro mães, duas que já deram à luz e outras duas que se preparam para o fazer, conversaram com o PONTO FINAL e desabafaram as suas angústias e ansiedades sobre o problema. Acusaram os Serviços de Saúde de criar medidas “lamentáveis e desumanas” e até criminosas, comparando o facto de os recém-nascidos ficarem privados de um dos mais importantes momentos das suas vidas, logo que nascem, com “um rapto”.
O CHCSJ respondeu, de seguida, que a política de inexistência de contacto entre mães e recém-nascidos permanecerá inalterada devido ao “surgimento de um grande número de consultas médicas nos serviços de urgência e de casos de doenças graves” relacionados com a Covid-19. No entanto, as autoridades prometeram tentar alterar a situação, ajustando-as “de forma dinâmica”.
Inalterada também, garantem os Serviços de Saúde, permanece a política de empenhamento em encorajar e promover o aleitamento materno. Apesar disso, a Associação Promotora de Aleitamento e Cuidados Infantis de Macau (APACIM) também já veio a público mostrar-se “bastante surpreendida com a notícia” que, considera, “não está em conformidade com as directrizes da OMS” no que diz respeito à amamentação.
Desde que o Governo de Macau decidiu acabar com a política restritiva ‘Covid zero’, o SARS-Cov-2 infectou, de acordo com a secretária para os Assuntos Sociais e Cultura, Elsie Ao Ieong, “cerca de 70% da população”, o que acabou por criar alguns constrangimentos nos dois hospitais da cidade.











