Único restaurante russo (e ucraniano) de Macau com quebra no negócio

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Como se não bastassem os problemas que têm surgido com a pandemia de Covid-19, uma guerra era o que o Friendmily menos precisava neste momento. Desde há cinco anos que é o único estabelecimento de restauração em Macau dedicado exclusivamente à gastronomia russa… e de Kiev.

 

Está localizado na Rua da Barca o único restaurante russo do território. O Friendmily – um nome curioso que significa, a grosso modo, que amigos são família – abriu portas há cinco anos e é o único restaurante russo de Macau. Russo e ucraniano, pois o cardápio revela iguarias dos dois países. É normal que isso aconteça, quanto mais não seja pela história passada que os une.

Com uma lotação para pouco mais de 30 pessoas, o espaço, com traça moderna, está decorado com motivos da antiga União Soviética (URSS). Há um retrato de Lenin pintado a vermelho e amarelo, e ainda um quadro, também a vermelho e amarelo, com uma foice e um martelo, símbolo adoptado pelo comunismo, criado pelo artista Yevgeny Kamzolkin em 1918. Estas duas imagens solenes contrastam com as dezenas de matrioskas espalhadas pelo local. A boneca russa, construída em madeira e colorida, também se pode encontrar na Ucrânia. Para além da figura feminina, as matrioskas podem representar personagens do imaginário russo, ou até mesmo figuras políticas.

Ponto prévio. Quisemos passar despercebidos e nunca informámos que éramos jornalistas, até porque não era nossa intenção alterar o status quo de um dia considerado normal no restaurante. As imagens que acompanham este texto foram captadas com um telemóvel.

Começámos por escolher uma borscht quente. Trata-se de uma sopa de beterraba com outros vegetais e pequenos pedaços de carne servida com nata azeda, originária da Ucrânia, mas que é igualmente servida na Rússia e em diversos outros países do Leste Europeu.

Para beber pedimos uma cerveja russa, mas encontrava-se esgotada, e porque o dia estava soalheiro, optámos por nos refrescarmos com soda russa, conforme referia o menu. Mas, na verdade, o que nos foi servido foi um copo de Kvas, uma bebida produzida através de fermentação de pão muito tradicional na Ucrânia e na Rússia, bem como noutros países daquela zona do globo. Escritores russos como Tolstói, Dostoiévski ou Tchekhov referiram a bebida fermentada por diversas vezes nas suas obras.

Entretanto, ao nosso jornal, a única empregada do espaço, para além dos cozinheiros, admitiu que nos últimos 15 dias tem havido uma maior quebra no negócio, mas não conseguiu atribuir esse problema ao conflito bélico na Ucrânia. “Desde que a pandemia começou, o negócio não voltou a ser como dantes. É certo que nas últimas semanas piorou, mas não sei se é por causa da Covid-19, se por causa da guerra”, explicou. E mais não disse, até ao fim da refeição.

A música de fundo alternava entre melodias russas e rasgos de pop norte-americana contemporânea. Uma das paredes da sala ostenta diversas molduras com gravuras e fotografias a preto-e-branco que nos remetem para os tempos da Guerra Fria. Há inscrições em cirílico um pouco por todo o lado e ainda uma pintura do Palácio Vermelho de Moscovo, conhecido como Kremlin, situado na Praça Vermelha. Aliás, o monumento, ícone da tradição russa, surge também na capa do menu do restaurante.

Seguiu-se uma vitela grelhada à moda russa. Não sabemos o que significa este “à moda russa”, porque na verdade, se não estivéssemos num restaurante russo, o prato podia ser oriundo da Grécia ou de Itália, ou até mesmo do nosso Portugal. Dúvidas à parte, estava bom.

Na mesma página do menu onde constava a tal vitela russa, também se podia escolher o conhecido Frango à Kiev, que mais não é do que um panado recheado com uma pasta elaborada com peito de frango e diversas ervas e especiarias. Mais um prato ucraniano num restaurante que se assume como russo. Não o experimentámos, mas a fotografia do menu mostrou-se reveladora de bom aspecto.

Joelho de porco à moda da Rússia, sopa solyanka, porco assado à moda russa, prato de pickles russos, pato fumado com molho de beterraba, guisado de beterraba com carne de vaca, trufas com caviar, entre muitas outras escolhas, figuravam no cardápio como iguarias de origem russa. Curiosamente não estavam disponíveis os não menos famosos estrogonofe de carne de vaca ou a salada Olivier.

Durante o repasto, reparámos ainda na presença de um piano clássico em frente ao balcão principal, junto da parede que dá acesso à cozinha e à casa-de-banho. O piano, sem cauda, estava tapado com um manto grenat e com dezenas de matrioskas. Tentámos saber se tinha uso, mas, infelizmente, não conseguimos apurar quando foi a última vez que alguém terá dedilhado as suas teclas.

Pedimos a conta e pagámos. Durante pouco mais de uma hora que estivemos no local não entrou uma alma que fosse. Se a falta de clientes se deve à pandemia ou à guerra não sabemos, mas é certo que as pequenas e médias empresas do território estão a passar por momentos de grande necessidade.

 

Restaurante ucraniano em Hong Kong recebe apoio da comunidade

A dona do restaurante ucraniano Ivan the Kozak, localizado em Hong Kong, admitiu à Reuters que tem recebido diversas manifestações de apoio por parte dos residentes da região vizinha. A maioria dos clientes pretende doar bens a grupos comunitários que podem ajudar a mitigar o impacto da guerra com a Rússia. Olena Wang, há muito radicada da RAEHK, dirige o restaurante com a sua filha. No total, empregam sete pessoas, incluindo ucranianos e russos. Os pedidos para ajudar têm surgido de diversos quadrantes, e aumentam dia após dia. O restaurante começou a publicar online, nas suas redes sociais, explicações de como as pessoas poderiam contribuir. Um cliente, por exemplo, deu uma gorjeta de mais de 10 mil dólares de Hong Kong e pediu ao restaurante que transferisse o dinheiro para os mais necessitados. Olena também fornece recomendações para pessoas que desejam doar directamente a grupos como a Cruz Vermelha, hospitais e voluntários que ajudam o exército ucraniano. A mulher ainda não conseguiu estimar quanto é que os habitantes de Hong Kong já doaram. O restaurante Ivan the Kozak opera há 21 anos em Hong Kong, oferecendo especialidades regionais de toda a Ucrânia, bem como chás e vodkas de outros países da Europa Oriental.

 

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