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      Arte confronta conceitos de morte e existência em exposição no Albergue SCM

      A artista Hio Lam Lei leva à galeria do Albergue SCM uma reflexão profunda sobre a morte e o sentido da vida. Com curadoria de Chang Chan, a exposição “Cruising Through This Mortal Coil” parte dos rituais do Festival dos Espíritos para questionar a ansiedade da mortalidade e transformar o olhar sobre os mortos numa interrogação sobre os vivos. A mostra, patente até 24 de Abril, inclui vídeo, instalação e pintura.

      O Albergue SCM, na Calçada da Igreja de São Lázaro, tornou-se no passado dia 25 de Março o palco de uma jornada artística que transcende o visível. Com a presença de figuras do panorama cultural e artístico local, como Van Pou Lon, director da Divisão de Artes Visuais do Instituto Cultural, o cônsul-geral da Bélgica em Hong Kong e Macau, David Lomastro, e Catarina Cottinelli, representante da Fundação Oriente em Macau, foi inaugurada a exposição individual de Hio Lam Lei, intitulada “Cruising Through This Mortal Coil”, ou “Navegando por este plano mortal”, em tradução literal para a língua portuguesa.

      O trabalho da artista, organizado pela Associação de Artes de Macau (AFA), parte de um lugar profundamente pessoal. Hio Lam Lei, que cresceu com a inquietação sobre a finitude, utiliza a arte para transformar essa angústia numa investigação colectiva. A curadora Chang Chan construiu o discurso expositivo a partir do ritual de oferendas do Festival dos Espíritos, uma cerimónia destinada a apaziguar as almas errantes. Através desta lente, a exposição não se limita a retratar o medo, mas analisa como os rituais funcionam para aliviar a ansiedade da morte, criando uma ponte simbólica entre os que partiram e os que permanecem.

      O ponto central da mostra é a obra em vídeo “If They Really Exist”, onde a artista confronta directamente a sua memória de infância ligada ao pavor da morte. Este trabalho, juntamente com uma série de instalações e pinturas, reconstrói paisagens de almas errantes, não para as assombrar, mas para as usar como um espelho distorcido das trajectórias humanas. A proposta de Hio Lam Lei inverte a lógica tradicional: ao fixar o olhar no percurso pós-morte, o que se ilumina é a forma como os vivos habitam o intervalo entre o nascimento e o fim.

      A intervenção da curadora adiciona uma camada de maior profundidade teórica, convidando o público a uma reflexão existencial. Ao contemplar a morte, os visitantes são indirectamente confrontados com a urgência de viver. A exposição questiona, assim, o que significa estar verdadeiramente presente na própria existência, transformando um tema tabu numa oportunidade de introspecção.

      A escolha do espaço expositivo não deixa de ser pertinente. Com a sua arquitectura colonial e história que atravessa gerações, funciona como um cenário que amplifica as questões levantadas pela artista. O próprio espaço da Albergue SCM, outrora património de acolhimento e agora centro cultural que alberga a arte da contemporaneidade, torna-se um lugar de passagem, uma espécie de território liminar onde o diálogo entre o visível e o invisível, entre a memória e o presente, se torna particularmente intenso através da arte.

      “Cruising Through This Mortal Coil” está patente ao público na Sala D1 da Albergue SCM, com entrada livre. Os horários de visitação são às segundas-feiras das 15h00 às 19h00 e de terça a domingo das 12h00 às 19h00. A iniciativa conta com o apoio do Fundo de Desenvolvimento da Cultura.