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      Entre o passado alcatifado das salas de ‘junkets’ e o futuro em aberto das massas  

      É entre as antigas salas VIP dos promotores de jogo e a nova vagas do turismo diversificado de massas que se situa a fonte de inspiração para “Mass Junket”, exposição a solo de Alexandre Marreiros que arranca hoje no Albergue. Com os pés no luxuoso chão alcatifado das extintas salas de jogo, e os olhos postos num futuro mais aberto às massas, o artista local incita à reflexão sobre esta encruzilhada em que a cidade se encontra.

       

      A frase “Uma analogia possível ou até uma representação daquilo que podemos considerar como globalização – caixas pequenas construídas por todos dentro de uma grande caixa em aberto” está impressa e espalhada por quase todas as peças que Alexandre Marreiros seleccionou para a sua exposição “Mass Junket”, que abre hoje no Albergue da Santa Casa de Misericórdia. Numa estreia a solo na galeria daquele espaço, o artista e arquitecto macaense pretende através do recurso a uma panóplia de materiais e técnicas explorar a forma como podemos compreender a humanidade no sentido de massas anónimas de indivíduos que, apesar de fazerem parte de um todo, têm a sua própria personalidade e cultura. São estas “caixas pequenas”, senhoras idosas, crianças, modelos, um homem com um cão, que vão preenchendo as telas através de colagens que são contrapostas com blocos de cores e linhas gráficas que remetem para esta ideia de caixas dentro de caixas, e do indivíduo encaixado na sociedade.

      A palavra ‘Massa’ nesta exposição, explicou o artista na sinopse da exposição organizada pelo Clube de Amigos da Cultura de Macau, “é uma representação do futuro, num tempo em que a cidade de Macau se quer abrir a receber um grande número de pessoas e não exclusivamente ligada à indústria do jogo”. Para Alexandre Marreiros, estas suas criações são sobretudo uma “homenagem” às massas, que existem para além das modas e das conveniências, e que muito simplesmente existem. “Invisíveis, anónimas”, “ geram e participam da sua própria cultura numa complexidade global”. Esta faceta real e crua do ser humano em sociedade é bela na sua autenticidade e originalidade, destaca, e foi isso que quis evocar com as suas telas e instalações.  A série “Mass”, explicou, “explora um território onde as figuras fazem parte de uma anti cultura ou de não cânone, numa espécie de homenagem ao anónimo, ao abstracto”, um trabalho que surgiu através da observação de Macau mas que tem reflexo e se estende a uma humanidade global, onde mais do que as aparências ou classes sociais, o que importa são “os valores”.

       

      VER COM OS PÉS

       

      Em contraste com esta sua exploração do conceito de massas, a exposição patente do Albergue até 10 de Dezembro também pega nas memórias tácteis das salas de operadores de jogo que foram recentemente extintas no território. A ideia é reflectir sobre o passado de Macau, fechado sobre este modelo de jogo com as salas VIP dos ‘junkets’, e o luxo das alcatifas que estas salas tinham, e compará-lo com esta nova realidade em aberto em que Macau se encontra, com a indústria do jogo a abrir-se ao mercado de massas, e a cidade a adaptar-se a outros modos de funcionar que nunca foram antes explorados. “’Mass’ e ‘Junket’ são conceitos separados e desiguais, mas que acontecem dentro do mesmo espaço pertencendo ao mesmo tempo”, partilhou o artista, acrescentando que esta “antagónica relação de coisas opostas, mas que se pertencem”, é uma boa oportunidade para “levantar questões” relacionadas com o “passado, com a extinção dos junkets”, e o futuro, “com a abertura de Macau para as chamadas massas”. É então, através deste resgate de um passado recente e questionamento de um futuro próximo, que Alexandre Marreiros procura explorar a identidade e modus operandi da cidade em si, em que a relação directa entre a cidade e o jogo “se traduziu em economia, em arquitectura, em histórias e numa cultura aliada a esses pressupostos”.

      Em termos práticos e literalmente palpáveis, a referência aos ‘junkets’ é representada através de alcatifas espalhadas pela galeria, numa reminiscência daqueles espaços de luxo. “O visitante é convidado a fazer parte da obra, ao pisar e caminhar sobre a instalação e sentir a transição entre o chão duro de granito, e as macias alcatifas de lã feitas à mão. As cores, padrões e desenhos desta instalação são parte integrante deste corpo de trabalhos, formando uma composição que pode ser vista, pisada e sentida através do tacto”. Alexandre Marreiros considera que a forma como se olha para uma parede pisando uma instalação é uma experiência que oferece a sensação aproximada de se estar nestes espaços hoje extintos de Macau, que eram “enriquecidos por estas alcatifas de cores vibrantes e de tacto fácil e agradável ao caminhar”.

      Filho do também arquitecto e artista macaense Carlos Marreiros, Alexandre Marreiros nasceu em Cascais, Portugal, em 1984, tendo-se formado em artes e arquitectura pela Universidade Lusíada de Lisboa. Já participou em nove exposições individuais e mais de 30 colectivas em Lisboa, Macau e China, entre elas uma exposição a solo em 2016 no Museu de Arte de Macau. Recentemente foi galardoado com o “Prémio de Prata” durante a 18.ª Exposição Internacional de Arquitetura da Bienal de Veneza, no evento colateral de Macau. Do seu trabalho, o curador da exposição, Lam Kong Chuen, diz ser capaz de “tocar em pontos que a linguagem não consegue transmitir, agitando e reorganizando a relação entre o público e o privado”.

      Recorrendo para isso a “vários meios como a linguagem, a pintura, a colagem, a adulteração, a pintura a spray, as camadas que cobrem, os ‘ready-mades’, e outros para dissolver imagens e desmantelar a sensação de distância na percepção”, destacou o curador, é através deste jogo constante em ocultar e relevar que Alexandre Marreiros consegue chegar aos tais aspectos não ditos por palavras.

      “Mass Junket” – Exposição a Solo de Alexandre Marreiros” conta com o apoio do Fundo de Desenvolvimento Cultural de Macau. Aberta todos os dias entre as 12h e as 18h até dia 10 de Dezembro, a mostra inaugura mais logo pelas 18h30.