Thomas Bird não tinha um contrato editorial quando embarcou pela primeira vez num comboio na China. Tinha um salário de professor de inglês, uma mochila e um plano para viajar durante as férias do Ano Novo Chinês, se por um lance de sorte conseguisse arranjar bilhetes. Num painel da 15.ª edição do Festival Literário de Macau, o autor explicou como esse começo modesto se transformou no seu livro “Harmony Express”, uma odisseia de uma década pela maior rede ferroviária do mundo.
Quando Thomas Bird chegou pela primeira vez à China, em 2005, não tinha um plano claro para escrever um livro. Tinha um mestrado em Estudos Chineses, um certificado de proficiência em ciclismo e um emprego como professor de inglês. O que também tinha era um fascínio por comboios, e um lugar na primeira fila para assistir à expansão ferroviária mais frenética que o mundo já viu.
“Existe uma espécie de presunção entre alguns artistas de que somos, de alguma forma, especiais, apoiando-nos nos ombros de gigantes, dando continuidade à tradição. Achei que seria interessante revelar-vos o segredo de como me inspirei inicialmente para escrever este livro”, disse o autor ao começar o painel pela recomendação de dois outros livros de viagens.
O primeiro livro foi “The Big Red Train Ride”, de Eric Newby, um relato de 1977 sobre uma viagem na Ferrovia Transiberiana. “Vivemos, de certa forma, na era do especialista, do antropólogo, do psicólogo, do geógrafo… E o que este livro me revelou foi que se pode ser todas essas coisas, um jornalista, romancista, historiador… Que a literatura de viagens pode reunir todas essas disciplinas numa única narrativa”, revelou Bird.
O segundo livro foi aquele que o levou à China: “Muitas pessoas que conheço que trabalharam e viveram na China referiam um livro como o que as fez ter vontade de ir. Para grande parte da minha geração, esse livro foi ‘River Town: Two Years on the Yangtze’”, um livro de memórias de Peter Hessler, publicado em 2001. Mas para Thomas Bird, o livro que lhe transmitiu essa vontade foi outro, “Riding the Iron Rooster”, de Paul Theroux, publicado em 1988, que documentava as suas viagens de comboio pela China em 1986 e 1987. Naquela altura, a China só estava aberta a viajantes estrangeiros independentes há alguns anos. As suas ferrovias, praticamente inalteradas desde os anos 50 e 60, tinham-se tornado uma meca para os entusiastas dos comboios a vapor. “Foi esse livro que me fez pensar que queria escrever um diário de viagem ferroviário”, confessou Bird.
Quando Thomas Bird chegou à China, em 2005, o país estava à beira de uma transformação. “É um ano auspicioso. É o último ano em que a China operou um comboio a vapor na linha principal. Se pensarmos bem, em 2008 já tinham o seu primeiro comboio de alta velocidade. É uma aceleração notável do desenvolvimento tecnológico”, observou o autor.
O seu problema, no entanto, era prático. Ao contrário de Theroux ou Newby, que tinham contratos editoriais e adiantamentos, Bird não tinha nem dinheiro, nem tempo: “Eu comecei a trabalhar na China como professor de inglês, como a maioria das pessoas, e só podia viajar durante as férias do Ano Novo Chinês, e conseguir bilhetes para onde quer que seja nessa altura é extremamente difícil”.
Apesar destas limitações, Thomas Bird viajou de Shenzhen para Xiamen a alta velocidade, para Xangai a bordo de um Maglev, percorreu lentamente a província rural de Sichuan numa locomotiva a vapor e atravessou o “terceiro polo” a caminho de Lhasa.
O livro “Harmony Express” é o resultado dessas viagens. A China que Bird retrata nem sempre é fácil de compreender. É um país que atravessa o que o autor denomina de “mudanças vertiginosas”, onde a modernidade colide com a tradição e arranha-céus são erguidos ao lado de aldeias inalteradas há séculos, todas elas ligadas pela mesma rede ferroviária. Para Thomas Bird, a ferrovia tornou-se uma forma de dar sentido a um país que muitas vezes desafia a compreensão.












