Se houvesse uma pandemia de lesbianismo, o que aconteceria? É a partir dessa premissa absurda e humorística que parte o livro “O Desfufador”, povoado de personagens surreais e com um capítulo dedicado a Macau. Integrado no Festival Literário de Macau, a jornalista literária, Sara Figueiredo Costa, e o autor, Valério Romão, apresentaram o livro, ontem, na Livraria Portuguesa.
Em “O Desfufador – Volume 1: Contágio”, cria-se o ambiente para a acção que irá acontecer no segundo volume, mas este “não é um livro prólogo”, alerta Sara Figueiredo Costa. “Apresenta-se a história e a biografia das personagens”, resume, mas “vale por si”. Deixa, porém, tudo em suspenso para um segundo livro, que, conforme adianta o autor, Valério Romão, irá chegar ainda este ano.
O tom de “O Desfufador” é assumidamente humorístico. “O primeiro capítulo apresenta-nos uma criança chamada Alexandre que, durante a rodagem do filme ‘Recordações da Casa Amarela’, de João César Monteiro, leva um pontapé no cu e fica anão”, diz o autor. Num registo muito diferente do seu habitual, Valério Romão explica o arrojo. “Neste mundo tão estúpido e incompreensível, a melhor forma de lidar com este ar geral foi o humor”, diz.
A ideia nasceu depois de ter lido, há muito tempo, sobre uma epidemia de dança em Estrasburgo, que resultou na morte de centenas de pessoas. A pandemia de “O Desfufador” vai um pouco mais além. “Põe em causa a identidade do homem fundada no desejo da mulher e achei isto muito bom”, refere o autor.
A dificuldade do humor
É difícil fazer humor. Ciente de que o estilo pode não agradar a todos, Valério não se preocupa com críticas. “Houve pessoas que disseram que era uma sequência de parvoíces, mas a verdade é que esta língua existe na rua, não é plasmada na literatura e, se não for escrita, desaparece da memória”, afirma.
Sara pergunta: “O humor não pode tratar de assuntos sérios?” Valério discorda. “Há uma pandilha de revolucionários que decide formar o NALGA para contrariar o movimento de tailandização de Lisboa e a grande ideia deles é afundar um transatlântico e afastar os turistas”, descreve. Com humor, trata-se um assunto sério, que é a gentrificação. “Vamos ser todos habitantes de um parque temático”, salienta.
O papel de Macau
Num cenário totalmente surreal, o território não fica de fora, havendo um capítulo que lhe é inteiramente dedicado. “Apaixonei-me por Macau, pela cultura chinesa no sentido mais vasto, pela língua chinesa, por esta civilização”, acrescenta. Por isso, decidiu incluir o território, dando “um pequeno vislumbre” do que é a cidade, da perspectiva de alguém que não percebe nada da cultura chinesa.
Quanto ao segundo volume, já está a prepará-lo. Estará pronto este ano, mas ainda não sabe se Macau entra novamente.












