Quando o arquitecto Carlos Marreiros montou a sua primeira exposição em Macau, em 1976, era um artista de 19 anos que fazia coisas que o território conservador “não esperava”. Cinquenta anos depois, uma casa cheia na Fundação Oriente reuniu-se para examinar uma carreira que abrangeu arquitectura, artes visuais e liderança cultural, traçando o arco de um profissional que, como observou um convidado, ajudou a moldar a própria identidade de Macau.
O Festival Literário de Macau – Rota das Letras organizou, no âmbito da sua 15.ª edição, um painel dedicado à trajectória do arquitecto e artista macaense Carlos Marreiros. A sessão realizada no sábado, intitulada “Meio Século de Luz e Memória: A Jornada Artística de Carlos Marreiros”, contou com os convidados Ung Vai Meng, Carlos Morais José e Roberto Francieri e com a artista e curadora Alice Kok como moderadora.
Carlos Marreiros abriu o seu segmento no painel com uma correcção histórica que desafiou as narrativas convencionais sobre o desenvolvimento da sua terra natal: “As pessoas pensam que o boom em Macau só aconteceu com os casinos, mas não. O boom em Macau começou na década de 70”, reiterou o arquitecto. “Jovens construtores, promotores e intelectuais começaram a desenvolver Macau. Por um lado foi muito bom, por outro lado foi mau, porque foi o início da destruição do património, que se seguiu nas décadas de 80 e 90”.
Esta observação coloca a emergência de Marreiros como artista num momento histórico muito particular. Nascido em Macau a 1 de Janeiro de 1957, o arquitecto atingiu a maioridade num território onde as indústrias tradicionais ainda funcionavam. A década de 1970 testemunhou as últimas décadas da indústria de fósforos de Macau, que produzia os fósforos reconhecidos como os melhores do Extremo Oriente, e da indústria do panchão, que só desapareceria completamente no final da década de 1990. Estas eram as bases económicas sobre as quais as transformações vindouras se construiriam. Registos cartográficos de meados da década de 1970 mostram uma península que conquistou terra ao mar através de uma recuperação contínua ao longo de mais de um século, com antigas zonas costeiras transformadas em áreas urbanas. A Macau da juventude de Marreiros já estava em mudança, embora a direcção dessa transição continuasse a ser contestada.
Durante o painel, Carlos Marreiros descreveu a sua primeira exposição em 1976 e ofereceu uma visão do clima cultural da época: “Cresci aqui e, em 1976, há precisamente 50 anos, fiz a minha primeira exposição em Macau. Fiz coisas que Macau não esperava”, recordou. “Naquela época, havia artistas muito bons, mas normalmente emigravam porque eram demasiado ambiciosos para sobreviver aqui. Era uma época muito difícil, porque era muito conservadora”.
Este conservadorismo reflectia a posição de Macau como uma encruzilhada cultural que ainda não tinha reconhecido plenamente a sua própria hibridização. O carácter único do território, que Marreiros resumiu no neologismo “Mediterrasia”, (junção das palavras “Mediterrâneo” e “Ásia”) permanecia latente, à espera de ser articulado por artistas dispostos a permanecer.
Dirigindo-se directamente às gerações mais jovens, Carlos Marreiros expressou que “os jovens devem ser muito gratos àqueles homens dos anos 70, pelo esforço que fizeram para desenvolver Macau, em vários sentidos”. No entanto, reivindicou também o seu lugar nessa história: “Estou muito feliz com o meu papel no processo desse desenvolvimento”.
O painel dedicado aos 50 anos de carreira do arquitecto não assinalou um ponto culminante, mas sim um marco. Carlos Marreiros mantém a sua prática, os seus cargos de professor e a sua liderança associativa. O seu trabalho continua a ser apresentado em exposições colectivas e individuais a nível internacional.












