Nas escolas locais do território, a história de Macau é contada da perspectiva da China continental e da sua interacção com o mundo, ao longo dos séculos. O conteúdo sobre o território propriamente dito, nos manuais adoptados, é pouco e centrado na identidade nacional.
Desenvolver nos alunos os sentimentos de amor pela língua chinesa, pela cultura chinesa, pela pátria e por Macau é o primeiro objectivo para o ensino secundário complementar, segundo as directrizes curriculares oficiais. Para cumprir este fim, o Governo criou manuais escolares de história da China, onde se menciona o território, adoptados pelas escolas locais desde 2022. Desde então, com o foco do ensino da história de Macau na identidade nacional, pode estar a perder-se o desenvolvimento do espírito crítico, alerta Teresa Vong, professora da Faculdade de Educação da Universidade de Macau, num trabalho de investigação desenvolvido em 2022. Como se ensina a história de Macau no território? Foi isso que o PONTO FINAL quis saber.
No site da Direcção dos Serviços de Educação e de Desenvolvimento da Juventude de Macau, seguindo as indicações das “Exigências de Competências Académicas Básicas”, o conjunto de directrizes curriculares oficiais, estão indicados os materiais didácticos publicados pela DSEDJ em 2025 para o ensino secundário complementar: dois volumes obrigatórios (“História da China” e “História do mundo”) e quatro opcionais (“Vida económica e social”, “Relações Internacionais, globalização e cooperação regional”, “A grandiosa cultura da China” e “Magnífica cultura mundial”). Os manuais obrigatórios, conforme se encontra descrito no site da DSEDJ, foram concebidos com base nas directrizes oficiais curriculares, “de modo a que os alunos possam, através de aprendizagem temática, reorganizar e consolidar os conhecimentos sobre os episódios históricos importantes, chineses e estrangeiros, do período paleolítico até ao período moderno”.
No manual “História da China”, cada unidade inclui aulas de história de Macau e actividades pedagógicas, “de modo a apoiar os alunos no conhecimento pleno da estreita ligação histórica entre Macau e a pátria”. No manual “História do mundo”, Macau surge ligada à evolução da civilização do mundo, “o que contribui para salientar a importante posição histórica do território enquanto lugar de encontro das culturas ocidental e oriental.”
Por outro lado, nos quatro volumes opcionais, aborda-se a história em termos de sociedade e da economia, das relações internacionais, da cultura chinesa e das culturas de outros países. Cada volume inclui ainda conteúdos sobre a ligação entre a história de Macau e os respectivos temas.
Os manuais publicados pela DSEDJ para o ensino secundário geral correspondem às necessidades pedagógicas da disciplina de história. Incluem seis volumes: os dois volumes do 1.º ano do ensino secundário geral abrangem a história chinesa, do período paleolítico até Yuan, ao passo que os dois volumes de 2.º ano do ensino secundário geral abrangem a história moderna contemporânea da China, de Ming até ao retorno de Hong Kong e Macau. Os dois volumes de 3.º ano do ensino secundário geral abrangem a história geral do mundo, da antiguidade até à modernidade.
Todas as unidades do livro “História da China”, do 1.º e 2.º ano do ensino secundário geral, incluem uma parte sobre “Macau antigo e moderno”, de modo a apoiar os alunos “a conhecerem, de forma plena, a estreita ligação histórica entre Macau e a pátria”, lê-se no site da DSEDJ. No 3.º ano do ensino secundário geral, no manual de “História do mundo” liga-se a história de Macau à evolução de civilização.
Uma nova abordagem à história
Nos últimos cinco anos, houve várias mudanças no ensino da história de Macau, nas escolas secundárias. Se, dantes, as escolas chinesas locais recorriam, sobretudo, a manuais de Hong Kong para contar a história de Macau, isso mudou desde a publicação dos livros da DSEDJ, com a maioria das escolas a adotá-los. “Os professores, o método e o sistema de avaliação mudaram”, conta ao PONTO FINAL um professor do ensino secundário, que prefere não ser identificado. “Uma parte é história da China e a outra parte é a segurança de Macau e da China”, refere esta mesma fonte.
Os manuais publicados pela DSEDJ acabam por estar sobretudo focados na história da China, no ensino secundário geral e complementar. “O tópico principal é a China [continental] e a sua interacção com a história global”, refere. Macau surge, por ser parte da China, mas acaba por ser “uma pequena parte” do manual. “Por exemplo, num total de 30 aulas, Macau resume-se a três ou cinco”, diz.
Nesses livros, fala-se sobre a história antiga do Macau e sobre a interacção dos portugueses com o território. “É demasiado simples para os alunos”, afirma este docente. Assuntos potencialmente polémicos, como o motim 1, 2, 3 acabam por ter um destaque muito pequeno. “A maioria dos tópicos relacionados com Macau são factuais ou relativamente incontroversos, como a informação sobre a área, monumentos históricos e antiguidades”, diz ainda.
O ensino da história é importante por três motivos. “Treina os alunos para aprender os factos, por um lado”, diz. Por outro lado, “ensina a pensar na história” e, por último, a experiência pode permitir que “desenvolvam o pensamento crítico no futuro”.
A história de Macau no centro das políticas do Governo
Teresa Vong, professora da Faculdade de Educação da Universidade de Macau, num trabalho de investigação publicado em 2022 com Cheong Wai-Kun, intitulado “Análise da governamentalidade no ensino de história nas escolas de Macau”, referia que o ensino desta disciplina nas escolas de Macau tornou-se um importante campo de acção nas políticas oficiais.
Depois da transferência de administração, com o objectivo de mudar o conceito e a percepção de “nação”, bem como reconstruir a identidade nacional, a investigação, que se sustenta nas Linhas de Acção Governativa (LAG) e na legislação existente, aponta para “o uso de técnicas de governação no currículo formal”. O melhor exemplo disso, conforme o estudo publicado, é “a articulação entre os discursos anuais das LAG e os manuais de história publicados”.
Depois da transferência de administração, deu-se a publicação da Lei do Sistema Educativo, em 2006, respondendo às necessidades da nova realidade. “Nos objectivos gerais da educação desta lei, indica-se que as entidades competentes empenham-se em formar e promover o amor à pátria e a Macau nos educandos”, lê-se no trabalho de investigação, salientando que este objectivo deve ser promovido em conjunto pela administração e pelas escolas.
Em 2014, Macau formulou as “Exigências de Competências Académicas Básicas” para os diferentes níveis de ensino. O primeiro objectivo para o ensino secundário complementar é “desenvolver nos alunos os sentimentos de amor pela língua chinesa, pela cultura chinesa, pela Pátria e por Macau”. Segundo a investigação, para atingir este objectivo curricular, “os manuais escolares servem como veículo directo”. É por isso que, em 2018, “o Governo da RAEM, em colaboração com a People’s Education Press, adoptou os manuais para a disciplina de História da China, que passou a ser plenamente utilizada nas escolas no ano letivo de 2019/2020.”
Além disso, outro tipo de actividades curriculares não formais, como o plano de visitas de estudo “Conhecer a pátria, amar a China”, promovido logo em 2004/2005, visa construir “o sentimento de pertença dos alunos através do conhecimento da cultura e história da pátria”. Por outro lado, continua o documento, “a educação de defesa nacional, iniciada em 2007, que organiza a participação de todos os alunos do 2.º ano do ensino secundário geral em acampamentos de educação de defesa nacional, é vista como uma importante educação de “amor à pátria e amor a Macau”.
Nas conclusões do trabalho de investigação, realça-se que o ensino de história, no início da transferência de administração, foi estabelecido “de forma contínua e gradual, a longo prazo, e que a “governamentalidade” do seu ensino recorre a currículos formais e não formais. Desse modo, através do ensino da história, opera-se uma “remodelação da concepção e cognição” do conceito de nação, além de ter ajudado a “estabelecer uma identidade nacional dominada pela cultura chinesa”.
A técnica de governação do ensino de história foi, de acordo com este documento, apresentada de forma detalhada através da definição de um quadro curricular, competências básicas e materiais didáticos.
Macau versus Hong Kong
No que toca à implementação da educação cívica ou do ensino de história, a experiência da região vizinha é muito diferente de Macau. “Em Macau, a implementação das políticas de ensino de história não encontrou resistência, desde a criação dos textos até à execução, o que está relacionado com a singularidade da sociedade local”, lê-se no trabalho de investigação.
Entre os vários factores elencados pelos investigadores estão o “discurso de construção de uma sociedade harmoniosa baseado na economia política adotado pelo Governo da RAEM”, para além da própria composição da sociedade local. “Desde a guerra de resistência contra a agressão japonesa, Macau tornou-se um ponto de encontro para muitos patriotas que realizavam propaganda e contribuíam generosamente para a resistência”, escrevem os investigadores, acrescentando ainda que, “a partir da década de 1930, um número considerável de escolas migrou do interior da China para Macau”.
Na verdade, as escolas pró-sistema de Macau incluem cerca de 60% dos estudantes do território, de acordo com dados oficiais da DSEDJ, em 2021. Estes estabelecimentos de ensino “destacam particularmente o conceito de ‘amor à pátria e Amor a Macau’”, com o desenvolvimento do ensino de história a alinhar-se com a visão de desenvolvimento nacional. Paralelamente, a sociedade do território manteve sempre números elevados de imigração vinda do interior da China. “Em termos de intenção nacional e técnicas de governação, Macau é um exemplo de sucesso”, conclui o documento, realçando, porém, que alguns educadores da área da história manifestam “preocupação de que uma ênfase excessiva ou exclusiva na identidade nacional possa enfraquecer o pensamento crítico dos alunos, prejudicando a sua sobrevivência no ambiente complexo da globalização”.
E nas escolas internacionais?
Bernardo Silva, coordenador do departamento de ciências sociais e humanas e cidadania, da Escola Portuguesa de Macau, afirma que o currículo seguido pelo estabelecimento de ensino é o português, com adaptações ao território. “A nossa matriz curricular não é exactamente igual à de Portugal. No caso da história, temos uma disciplina no segundo ciclo, que, em vez de ser História e Geografia de Portugal, é a História e Geografia de Portugal e Macau”, refere, destacando que “integra uma parte que está relacionada com Macau e também com a China”. No primeiro e segundo ciclos do ensino básico, a EPM tem manuais feitos pela própria escola relacionados com os conteúdos que são abordados relativamente a Macau e à China. “São manuais que complementam os outros, de Portugal, para os alunos seguirem”, diz.
Já no terceiro ciclo, dentro da disciplina de História, “são abordados conteúdos relacionados com Macau e com a China”, usando para o efeito os manuais elaborados pela DSEDJ. “Há adaptações de português aos manuais, que são utilizados pelas secções portuguesas das escolas oficiais, da DSEJ”, refere.
Especificamente no caso do 12.º ano, a EPM tem de seguir o que está definido para Portugal, mas, garante Bernardo Silva, “há uma disciplina de História de Macau e da China [em paralelo à disciplina de História de Portugal], para o 12.º ano, que segue os manuais da DSEDJ e onde se abordam vários conteúdos.”
Quanto aos conteúdos ministrados, Bernardo Silva diz que, no 12.º ano, “abordam toda a história da China, desde as primeiras dinastias até hoje”, reflectindo ainda sobre Macau com ligação a Portugal e a transferência de administração.
Inquirido pelo PONTO FINAL, o director da The International School (TIS), Lorne Schmidt, respondeu, por escrito, que os “estudantes concentram-se no estudo da história de Macau em conjunto com a história mundial”. Enquanto escola acreditada pelo Canadá, a par do ensino da história do Canadá e do mundo, são “feitas comparações com a história de Macau para assegurar a relevância aos alunos”. Salientou ainda que o currículo da escola encoraja ao pensamento crítico, através do estudo das complexidades e interconexões das diferentes culturas e eventos históricos mundiais.












