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      InícioEntrevista"A saúde mental já não é um tabu"

      “A saúde mental já não é um tabu”

      Paul Pun, secretário-geral da Caritas Macau, considera que, após a pandemia, os jovens da região ficaram emocionalmente mais frágeis, o que tem, em parte, levado ao aumento dos suicídios. Em entrevista ao PONTO FINAL, comenta que a saúde mental “já não é um tabu”, apelando a que quem está mais fragilizado fale com alguém sobre os seus problemas.

      A saúde mental dos jovens está mais vulnerável, considera Paul Pun, aproveitando para apelar a que não se faça dos problemas emocionais um tabu. “Hoje em dia, os jovens acham que todas as soluções estão nas redes sociais e talvez não obtenham as respostas certas. Seria bom que obtivessem as respostas por parte de profissionais ou, pelo menos, procurar ajuda junto da sua família ou professores”, comenta o secretário-geral da Caritas em entrevista ao PONTO FINAL. Paul Pun também afirma que a profissão de assistente social está a atrair as novas gerações. Sobre as condições dos migrantes, em particular dos trabalhadores domésticos, diz que “as famílias deviam fazer um esforço para aumentarem os salários”, ainda que não considere urgente que o Governo inclua este tipo de trabalhadores na lei do salário mínimo.

      Os suicídios têm aumentado exponencialmente nos últimos anos. Qual a explicação para este aumento?

      Não há nenhum factor em concreto que possamos apontar. Acho que, depois da pandemia, os cidadãos em geral – em especial os jovens – estão mais frágeis no que toca a lidar com os seus problemas. O ‘bullying’ não é bom, mas no passado, quando se chamava “gordo” a alguém, a pessoa não ficava chateada, agora a sociedade está mais vulnerável. A camada dos 20 aos 40 enfrenta alguns desafios na sua vida e nas relações interpessoais, o que por vezes pode provocar pensamentos suicidas.

      Há muitos casos de tentativas de suicídio entre crianças dos 5 aos 14 anos…

      São muito vulneráveis, não conseguem equilibrar as suas emoções e sentimentos. Hoje em dia, os jovens acham que todas as soluções estão nas redes sociais e talvez não obtenham as respostas certas. Seria bom que obtivessem as respostas por parte de profissionais ou, pelo menos, procurar ajuda junto da sua família ou professores.

      E o que é que a família, os professores ou os amigos fazer para prevenir esses casos?

      Deve-se encorajar os jovens a encontrarem um equilíbrio na sua vida, através do desporto, nutrição, descanso. Hoje em dia, os jovens dormem menos e passam muito tempo nas redes sociais e no telemóvel. Isto reduz as horas de sono e a falta de descanso perturba o equilíbrio emocional. O Governo também tem falado em encorajar os jovens a fazer desporto e a encontrar alguém com quem falar. Pessoalmente, acho que o descanso é muito importante.

      Os Serviços de Saúde divulgavam frequentemente o número de suicídios, mas agora deixaram de o fazer. O que é que terá levado a esta nova abordagem? Não seria importante que a população tivesse conhecimento do número de suicídios para que fosse mais fácil prevenir?

      Não comento os motivos pelos quais os Serviços de Saúde deixaram de divulgar os números. Digo apenas que os problemas da sociedade devem ser a nossa maior preocupação. As empresas também devem ser encorajadas a detectar quais os funcionários com problemas emocionais para conseguirem dar o apoio certo no momento certo e possivelmente evitar um caso de suicídio. Na minha opinião, divulgar publicamente o número de suicídios não previne suicídios, demasiados detalhes dos casos de suicídio pode até aumentar o número de suicídios. Não encorajamos a que se partilhem vídeos de tentativas de suicídio. Por outro lado, ter conhecimento dos dados permite ao Governo elaborar políticas que reduzam os casos. O Governo sabe os dados correctos e deve fazer a sua análise para abordar melhor esta questão. A sociedade de Macau é pequena, as pessoas conhecem-se e podem apoiar-se. A saúde mental já não é um tabu, se há um problema deve se partilhado.

      De modo geral, o Governo tem protegido bem a saúde mental da população?

      O Governo tem apostado nos serviços de apoio psicológico. É bom que assim seja, mas também é importante que a sociedade de Macau saiba expressar-se. É importante encontrar alguém com quem falar, não esconder o problema.

      A Caritas tem uma linha de prevenção do suicídio. O que é esta linha faz em concreto?

      Seguimos o modelo internacional de ouvir o utente para reduzir a ansiedade. Ouvir é uma forma de ajudar alguém a equilibrar a saúde mental. Se alguém tiver algum problema e não tiver ninguém com quem falar, o problema aumenta. Ouvir e cuidar é a nossa direcção. Estar atento a quem liga reduz a taxa de suicídio. Recentemente também usamos as redes sociais, já que as gerações mais jovens usam muito estas plataformas. É também por aqui que tentamos ouvi-los e ajudá-los a que se sintam melhor. Usamos o WeChat e o Facebook. Os jovens podem usar estas plataformas e enviar mensagem à linha de apoio da Caritas e os profissionais vão ajudar.

      Por vezes surgem críticas nas redes sociais aos assistentes dizendo que estes profissionais não têm a abordagem certa ao lidarem com estes casos.

      Por muito que se faça, há sempre alguém que vai dizer que não é suficiente. As pessoas com pensamentos suicidas precisam de apoio, a nossa prioridade é ouvi-las a elas e não as críticas nas redes sociais.

      Recentemente há mais pessoas interessadas no trabalho social em Macau? Macau precisa de mais trabalhadores desta área?

      Hoje em dia, há mais jovens que querem ser assistentes sociais. Há cerca de 1.500 assistentes registados. No passado, as pessoas queriam ser médicos, enfermeiros, advogados, mas a profissão de assistente social está a apelar mais às novas gerações, mais pessoas querem vir para a profissão. Eu estou na área há mais de 40 anos. Não é uma profissão com visibilidade, nós temos de estar junto das pessoas que precisam de nós, muitas vezes não temos horários. Os assistentes sociais têm primeiro de cuidar de si mesmos para depois cuidar dos outros. Não nos podemos ver como salvadores, temos de nós próprios estar OK primeiro para depois conseguirmos ajudar os outros. Agora precisamos também de assistentes mais experientes que possam partilhar a sua experiência com os outros.

      Disse recentemente que a Caritas recebeu mais de 3.500 pedidos de apoio para o Banco Alimentar e que, até ao fim do ano, a instituição deverá receber mais de 4.000, sensivelmente o mesmo do que nos últimos anos. Com a melhoria da economia em Macau, o número de pedidos de apoio não devia estar a diminuir?

      A situação económica não é tão boa como no passado. O número de pedidos mantém-se alto. Dantes, a classe mais baixa tinha dificuldades em encontrar casa, mas agora é mais fácil conseguir habitação social, o que reduz alguns problemas da classe baixa. Outra questão tem que vem com o facto de hoje em dia as pessoas passarem muito tempo no interior da China, onde os preços são mais baixos.

      FOTOGRAFIA ELOI CARVALHO

      Nesse caso, o número de pedidos de apoio para o Banco Alimentar não deveria ser mais baixo?

      Agora há mais divulgação do programa, as pessoas têm conhecimento de que existe o Banco Alimentar.

      Os pedidos de ajuda são maioritariamente provenientes de residentes ou não-residentes?

      De residentes, na sua maioria.

      Mas o número de pedidos de apoio dos não-residentes tem aumentado?

      Sim, porque eles agora sabem da nossa existência e é mais fácil obter essa ajuda.

      Os trabalhadores domésticos continuam excluídos da lei do salário mínimo. Considera que estão numa situação mais frágil em relação aos outros trabalhadores?

      Os trabalhadores migrantes estão numa situação mais frágil, em especial os trabalhadores domésticos. É importante que as famílias paguem salários melhores, se puderem. Com 3.800 patacas [valor da mediana salarial dos trabalhadores domésticos, segundo indicou recentemente a Direcção dos Serviços para os Assuntos Laborais], é difícil que os trabalhadores sobrevivam em Macau e consigam enviar dinheiro para casa. O objectivo de virem para Macau é enviar dinheiro para casa, então, quanto menos dinheiro conseguirem enviar, pior porque têm de reduzir as despesas em Macau. As famílias deviam fazer um esforço para aumentarem os salários dos trabalhadores domésticos. O Governo já aumentou o salário mínimo, por isso pode-se adaptar esse aumento aos trabalhadores domésticos.

      Acha que os trabalhadores domésticos deviam ser incluídos na lei do salário mínimo?

      O Governo já disse que não. Mesmo que eu diga que sim, eles não o vão fazer. Eles justificam que isto é porque alguns trabalhadores ficam na casa dos empregadores, é complicado.