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      InícioCultura“Em cidades muito urbanas, a água é como um lugar de liberdade”

      “Em cidades muito urbanas, a água é como um lugar de liberdade”

       O projecto “Women From The Sea” explora a ligação profunda entre a mulher e o oceano. Depois de uma primeira edição nos Açores, a iniciativa desembarca agora no Mar do Sul da China à procura de 88 mulheres de Macau e Hong Kong que queiram partilhar as suas histórias de conexão com o mar. As responsáveis pela iniciativa falaram com o PONTO FINAL sobre as origens e as perspectivas futuras para a iniciativa, que já conta com a participação de quase mil mulheres.

      Há quem olhe para o mar e o veja como uma infinita fonte de inspiração e tranquilidade. Outros temem as ondas traiçoeiras, que se tornam tempestuosas assim que se lhes vira as costas, e o azul que cai para breu total em noites pouco iluminadas. O mar é pacífico, destrutivo, apaziguador, aterrorizante – mas, acima de tudo, é símbolo de vida.

      É símbolo, também, de feminilidade. Desde a Antiguidade que se relaciona a figura e o temperamento femininos ao mar, seja através de lendas sobre sereias misteriosas ou de teorias científicas sobre o seu papel enquanto força geradora de toda a vida no planeta Terra. É esta ligação profunda entre a mulher e o mar que o “Women From The Sea” pretende explorar, exaltando vozes muitas vezes negligenciadas numa indústria ainda maioritariamente dominada pelo sexo masculino.

      A primeira edição do projecto teve lugar nos Açores e reuniu centenas de mulheres de diferentes origens, idades, profissões e culturas, debruçadas em torno de uma paixão comum. A próxima fase, que inclui a produção de documentários, uma mini-série e uma campanha de comunicação que se estende às redes sociais, mergulha agora do coração do Atlântico para o Mar do Sul da China.

      O objectivo da organização é encontrar 88 (número escolhido intencionalmente) “mulheres do mar” residentes em Macau e Hong Kong até Janeiro do próximo ano, para que partilhem perante o mundo o que as faz amar, respeitar e temer os oceanos. O que as preocupa, num mundo em que a actividade humana corrompe solos, céus e mar.

      Cerca de um mês antes da data prevista para o arranque da iniciativa, o PONTO FINAL falou com a realizadora e fundadora Raquel Martins e a activista ambiental Tanja Wessels, responsável pelos assuntos internacionais. As mulheres de Macau que sintam uma ligação especial com o mar – qualquer tipo de ligação, sem respostas certas ou erradas – são convidadas a juntar-se a esta comunidade global, à distância de apenas um clique.

      Como é que este projecto surgiu e qual é a sua missão?

      Raquel Martins: O projecto começou em 2021. Na altura, estava à procura de projectos e pediram-me para fazer algo relacionado com o oceano. É algo que sempre adorei, que sempre fez parte de mim… É o meu refúgio, onde me sinto em casa. Naquela altura, estava a começar a envolver-me com pessoas, principalmente da “Escola Azul” [programa educativo coordenado pela Direcção-Geral de Política do Mar], que me falavam do estado dos oceanos. Numa conversa com um amigo, mencionei que adoraria ouvir as vozes das mulheres que têm uma ligação emocional com o oceano e ele achou que seria um projecto muito poderoso. No início, pensámos: “Vamos mantê-lo em Portugal, mas não apenas com mulheres portuguesas. Podem ter qualquer idade, formação profissional ou cultura, desde que tenham uma ligação emocional com o mar”. E essas mulheres começaram a aparecer. No final do primeiro ano, tínhamos mais de 100 mulheres ansiosas por falar. É isto que torna o projecto único: reunirmos mulheres que não têm nada em comum, excepto a coisa mais importante nas suas vidas. O oceano. No final de 2023, pedimos o apoio da UNESCO para sermos um projecto da Década dos Oceanos. Tivemos alguns parceiros muito bons a juntar-se a nós: a Comissão Oceanográfica Intergovernamental da UNESCO, o Ministério da Pesca e do Oceano do Canadá, o Governo dos Açores…

      O primeiro projecto foi nos Açores. Porquê filmar este próximo documentário no outro lado do mundo?

      Tanja Wessels: Em 2026, completarei 20 anos da minha vida na Ásia, e será também o momento de me despedir e voltar para Portugal. Antes disso, adoraria prestar homenagem a duas cidades que significaram muito para mim: Hong Kong e Macau. Levar este projecto para essas cidades seria um sonho tornado realidade e também uma forma de homenagear todas as mulheres extraordinárias que conheci nessas cidades quando lá morava e estava envolvida em projectos de sustentabilidade. Portanto, embora o “Women from the Sea” seja um projecto global – e sempre será um projecto global –, pensei que poderíamos trazer esta parte da Ásia para a conversa. É uma parte do mundo interessante e valiosa, mas por vezes negligenciada quando se trata destes temas. Esse é o meu grande desejo. Temos grandes sonhos e estamos apenas a começar a colocá-los em prática, mas em Janeiro de 2026 esperamos estar no caminho certo.

      Dizem querer encontrar 88 participantes até Janeiro. Porquê este número?

      Tanja Wessels: Estou na China há demasiado tempo (risos). Bem, na verdade o objectivo é conseguirmos o máximo possível de pessoas. Somos cautelosas e ponderadas em relação a quem trazemos para a equipa: conversamos com as pessoas, fazemos entrevistas, contamos com a confiança das pessoas com quem já trabalhamos. Mas também somos muito abertas, porque este não é o nosso projecto. Somos apenas guardiãs do conceito. Então, 88 pareceu-nos uma meta tangível para nos fazer pensar sobre como será o ritmo de trabalho. Precisamos de quantas pessoas por semana? Qual é a logística? Se tivermos mais do que 88 mulheres, fantástico. Não é uma corrida. É um processo muito orgânico.

      Olhando para Macau, nas últimas décadas tem havido uma grande expansão do território através de projectos de aterro. O documentário vai abordar o impacto ambiental desta prática? Que tipo de histórias esperam ouvir aqui?

      Tanja Wessels: Esperamos reflectir o que as mulheres estão a pensar, e isso pode ocorrer de diversas formas. Quando pensamos em poluição oceânica ou problemas no oceano, pensamos em limpezas de praias, por exemplo. Mas, tal como apontou, a realidade é que há muitas camadas diferentes que nem sempre são visíveis ao público. Se conseguirmos encontrar alguém que esteja a fazer campanhas para chamar a atenção para o tema da recuperação de terras e a devastação que isso causa no ecossistema, essa questão será abordada. Grande parte de Hong Kong também é terra recuperada. Habituamo-nos a pensar que isto é normal e natural, mas as pessoas não pensam necessariamente a longo prazo. Com o aumento do nível do mar e com os padrões climáticos incertos, inundações e tufões, o que significa isto para o futuro de Macau daqui a 50 ou 100 anos? Quais são as consequências inesperadas de mexer no fundo do oceano e de construir sobre a água? Ainda não encontrámos ninguém de Macau, mas entrevistei uma jovem mulher de Hong Kong que tinha acabado de se mudar para a ilha de Peng Chau. Era a primeira vez que morava perto do mar e à noite gostava de caminhar à beira-mar… Sentia-se calma, em paz. É alguém que nunca cresceu perto de água, e que agora não consegue imaginar a sua vida sem ela e o bem-estar que obtém dessa experiência. Muitas pessoas simplesmente não sabem o que estão a perder porque nunca souberam como é acordar e ouvir o som das ondas. Como poderiam questioná-lo? Em cidades assim, muito urbanas, stressantes e com pouco tempo disponível, a água influencia o dia-a-dia de formas inesperadas. As pessoas vão meditar, mergulhar… é como um lugar de liberdade para elas. Para as pessoas que vêm de países costeiros pode parecer normal, mas para pessoas que vivem em arranha-céus é uma ideia nova.

      Raquel Martins: Sobre o conteúdo do documentário, temos um conjunto de perguntas que preparamos e adaptamos localmente. Por exemplo, quando estava a filmar nos Açores, perguntei como era viver numa ilha, estar rodeado por água todos os dias. É diferente de viver no continente. Mas o conjunto de perguntas, a base do nosso questionário quando entrevistamos, é emocional. Não temos uma agenda.

      Na vossa página, descrevem a conexão das mulheres com o mar como algo quase espiritual. Acham que há uma predisposição biológica para esta conexão?

      Raquel Martins: Muitas vezes, perguntam-nos: “Porque não homens? Os homens também têm uma ligação emocional com água…”. Não sou cientista, mas sei que viemos da água. Estávamos dentro de água no corpo da nossa mãe – e mesmo agora, quando estou a flutuar, especialmente se o sol está a brilhar e a água não está muito fria, é como se voltasse ao útero. É algo que sinto desde sempre, e depois comecei a ouvir mulheres a falar sobre isso. Viemos da água, carregamos os nossos bebés na água, nos nossos corpos, e cuidamos deles… Há esses dois aspectos, cuidar e carregar, que se relacionam com a água. O nosso papel na Humanidade é o de criar. Obviamente que há homens que também fazem isso, mas têm um programa diferente nos seus corpos. No que diz respeito à sobrevivência, eles são mais agressivos e nós mais unidas. Claro que tudo isto são estereótipos, mas conversar com tantas mulheres ao longo dos últimos quatro anos mostrou-me que isto é comum às mulheres que têm uma ligação com o oceano. São naturalmente cuidadoras. É por isso que é interessante ouvir as vozes de quem se identifica como mulher e tem essa perspectiva feminina sobre cuidar do próximo, porque é esse o nosso lema.

      Quanto ao financiamento, já abordaram alguma organização local?

      Tanja: No dia 31 de Janeiro vamos ao Club Lusitano em Hong Kong, para o lançamento do projecto, e o cônsul-geral português, Alexandre Leitão, vai estar presente para as palavras de abertura. Ficamos muito honradas e lisonjeadas. Também temos mantido contacto com o IPOR e a [directora] Patrícia Quaresma, mas ainda estamos numa fase muito inicial. Esperamos que, assim que terminarmos o ‘pitch deck’, possamos ter mais ‘feedback’ e envolvimento. No grupo de Hong Kong, temos duas mulheres que trabalham com mergulho e sustentabilidade e estão a ajudar-nos a impulsionar esse lado do projecto. Este não é um projecto português – é internacional. Queremos chegar a pessoas que normalmente não fariam parte deste tipo de iniciativas, pessoas que não sabem nadar, que não falam inglês. Queremos fortalecer os nossos laços com as organizações e comunidades chinesas e com todas as pessoas que ainda não conhecemos.

      Raquel: Precisamos de alguém no terreno que espalhe a mensagem, que comece a falar com pessoas e organizações locais. Normalmente é assim que fazemos, sempre de boca em boca. Uma mulher é entrevistada e conhece uma amiga, que conhece outra amiga… É isso que adoro no projecto. Está sempre a crescer, a crescer, a crescer, e agora já somos mais de 900 mulheres.

      Que mensagem deixam às mulheres de Macau que estão a ler esta entrevista?

      Tanja: O primeiro passo é contactar-nos – e há tantas maneiras de o fazer. Estamos no LinkedIn, Facebook, Instagram… basta enviar uma mensagem e nós tratamos do resto. Eu e a Raquel estamos em fusos horários diferentes, portanto há sempre alguém acordado para responder. Estamos a começar do zero e agradecemos todo o tipo de apoio, até em termos de equipamento e locais para as filmagens, tradução…

      Raquel: Também podem entrar em contacto através do nosso site, helpimages.org. O importante é que sintam uma conexão com o mar. Não vamos defini-la, nem há respostas certas ou erradas. É uma conexão emocional. É cuidar do que amamos.