Um fogo destruiu a Corte Medronheira, uma floresta de 36 hectares localizada no Sudoeste Algarvio onde um colectivo de 15 pessoas desenvolvia um projecto de regeneração ecológica e social, com a ambição de se estender a Macau. Mas era mais do que isso: era o sonho de uma vida mais sustentável para alguns ex-residentes do território.
No dia 27 de Novembro do ano passado, o PONTO FINAL noticiava que um grupo de ambientalistas, entre os quais alguns ex-residentes de Macau, apelavam a potenciais mecenas do território que contribuíssem para o financiamento de um projecto de regeneração ecológica no Algarve, em Portugal. Quase um ano depois, o pedido é outro: após um incêndio que destruiu a Corte Medronheira, situada no Algarve, entre Lagos e Aljezur, mesmo no meio da floresta da Serra de Espinhaço de Cão, um colectivo de seis pessoas — que, na realidade, se estende a outros nove, entre colaboradores, companheiros e descendentes — pede ajuda para reerguer das cinzas sete anos de trabalho.
No dia 21 de Setembro, Xana Piteira e Patrícia Russo, co-proprietárias, tinham acabado de chegar ao Alentejo para uma formação, quando receberam um telefonema, alertando para a proximidade que um fogo que tinha deflagrado em Aljezur/Lagos se encontrava do seu terreno. Entretanto, o pior aconteceu, quando Ana Marreiro, co-proprietária da Corte Medronheira, e Margarida Marreiros, uma amiga e colaboradora do projecto (também ela ex-residente de Macau), se encontravam juntas, no terreno, para receber um técnico que iria instalar painéis solares, naquela manhã.
Perante o incêndio, “toda a evacuação foi feita por elas e pela outra Ana [Santos], que estava lá com o filho de nove anos”, conta a macaense Xana Piteira ao PONTO FINAL. “Depois apareceu o pai do Youssef — o nosso amigo que também faz parte da comunidade — que as ajudou e eles ficaram lá mesmo até ao fogo estar quase a comer as casas”, declara.
Ana Marreiro, desesperada, procurou até ao último minuto salvar o que era possível. Tentou molhar tudo no espaço de uma hora — o tempo que os bombeiros disseram que tinha. Infelizmente, o vento estava muito forte e, apenas tinham decorrido 20 minutos, quando alguém a foi buscar, dado o perigo que corria. “Quando saíram de lá, já estavam coisas a arder perto, foi arriscado”, diz Xana. “Saíram de lá depois dos bombeiros.”
Uma esperança, no meio do caos
Entretanto, Xana e Patrícia encaminharam-se para o Algarve e tentaram chegar junto da propriedade. Com as estradas bloqueadas pelas autoridades, pediram ajuda a um vizinho, que as levou de camião, por estradas secundárias. “Chegámos ao topo do terreno e achámos que, provavelmente, tudo estaria a arder”, conta. “Quando passou o fogo, conseguimos descer de jipe: tudo preto, com chamas, brasas e fumo; parecia que estávamos a entrar num filme, foi de partir o coração ir lá abaixo e, de repente, ver tudo ainda a ser consumido pelas chamas e atirar baldes de água que já não serviam para nada, no desespero”, diz, com a voz abalada.
A verdade é que, no fim, os esforços compensaram. Uma das infra-estruturas da Corte Medronheira sobreviveu e é o que lhes permite, neste momento, voltar a pensar na regeneração do espaço. “Ficou a nossa base para agora: temos luz, temos água, temos casa de banho, podemos recomeçar a partir dali”, afirma, esperançosa. “Foi por termos lá ido depois, que conseguimos apagar todos os possíveis focos que estavam à volta dessa estrutura que sobrou.” Mas foi “um grande risco”, admite. “Saímos de lá, já no limite, porque depois o fogo voltou para trás: um carro apitou para fugirmos.”
Junto a essa estrutura, mantiveram-se a salvo as pontas do sistema de abastecimento de água, que era um tubo de quase um quilómetro, debaixo de terra. “Só queimou o tubo, mas o início e o fim ficaram intactos: o termos água lá em baixo foi o nosso maior investimento colectivo até agora”, afirma.
As perdas
Xana Piteira, a companheira e as suas enteadas moravam no terreno. “A Ana [Marreiro] trabalhava em casa e tinha lá tudo, faz fermentação para o mercado local e ficou sem nada”, conta a macaense, ainda sem avaliar a total dimensão dos estragos. “Conseguimos tirar os computadores, os documentos, algumas ferramentas, mas nem pensámos: deixámos muito dinheiro dentro de casa, deixámos todas as nossas memórias, os pais da Ana já morreram os dois, tinha tudo de família e eu tinha as coisas dos meus avós, que passaram para mim quando tive uma casa, os móveis de Macau”, lamenta ainda. As filhas de Ana também ficaram sem nada.
Temporariamente a residirem numa casa dos pais, na Aldeia da Luz, Xana diz que se sente “quase uma refugiada”, por perder o seu lar e não saber quando poderá voltar. “Tínhamos posto um amor gigantesco em cada detalhe, tudo feito à mão nos últimos anos, cada coisa com imenso esforço de trabalho e investimento”, refere, acrescentando: “Eu e a Ana investimos mais dinheiro ali para melhorar as coisas para o inverno, como acho que não tínhamos feito ainda, um grande frigorífico para ela poder trabalhar e aumentámos o sistema solar.”
Mas, apesar dos danos materiais e emocionais, ninguém se feriu, a não ser dois dos três gatos de Xana Piteira e da sua companheira. “Uma das nossas gatinhas estava em casa e a Ana pôs numa caixa e está aqui connosco: a outra, foi dos momentos mais tristes até agora, encontrámo-la no dia a seguir, no meio das cinzas, toda queimada, com o pelo todo queimado, mas está a recuperar”, diz. Quanto ao terceiro gato, foi encontrado, três dias depois, com ferimentos nas patas.
Uma meta: 100.000 euros
Para poderem receber donativos que lhes permita recuperar o projecto, o colectivo abriu uma conta, através da plataforma Gofundme (https://shorturl.at/A7sLO), com o objectivo de angariar 100.000 euros. “O terreno, coberto por uma vasta floresta de sobreiros, medronheiros e uma grande diversidade de plantas e animais, foi atingido por um incêndio de enorme dimensão que, em apenas três dias, consumiu mais de 50.000 hectares de floresta, incluindo a totalidade do nosso terreno”, lê-se na descrição da conta. “Perdemos toda a floresta, pomares e hortas que cuidávamos, grande parte das estruturas de habitação e apoio à agricultura, bem como sete anos de investimento e trabalho, importantes meios de subsistência, memória e sonhos partilhados”, continua o texto.
Os danos estão avaliados em 175.000 euros.
Actualmente, o grupo encontra-se a limpar os escombros, retirando destroços queimados e libertando o terreno para novas etapas.
Numa segunda fase, o colectivo pretende avançar com a proteção do solo, mobilizando terras e organizando a biomassa ainda presente para evitar erosão. Posteriormente, haverá a reconstrução das infraestruturas de base e o restabelecimento das condições mínimas de habitação, água e energia. No fim, quando alcançarem o objectivo final de 100.000 euros, o grupo irá prosseguir com a reflorestação, lançando as bases para o renascimento da floresta autóctone e da biodiversidade.
A história da Corte Medronheira
“A Corte Medronheira é um terreno que adquirimos como co-proprietários — um grupo de seis adultos e seis crianças (na altura, eram crianças) — para ser o sítio que é a nossa casa, onde queremos viver e cuidar daquele lugar e daquela paisagem, e também termos as nossas raízes nalgum lado, dedicando o nosso dia a dia ao desenvolvimento e à regeneração de um sítio”, declarava Xana Piteira ao PONTO FINAL em Novembro de 2024. Além da macaense, da área de Psicologia Educacional e Transformação Social, os outros co-proprietários são Ana Marreiro (Gastronomia Baseada no Lugar), Ana Santos (Design e Implementação de Sistemas Agro-Regenerativos), Patrícia Russo (Facilitação de Aprendizagem Regenerativas), Hugo Oliveira (Ecologia da Paisagem e Design Regenerativo) e Maria Rute Costa (Governança Colaborativa e Design Regenerativo).
Na altura do artigo publicado no ano passado, o grupo tinha apresentado uma proposta de financiamento colectivo, que tinha vários objetivos: primeiro, hidratar a encosta sul, além de favorecer a prevenção de incêndios, a agrofloresta e agro-ecologia e a floresta sustentável. Depois, avançar com a hidratação do vale oeste, com foco na vida selvagem, no restauro do ecossistema e na biodiversidade. Por fim, o último objectivo, passava pela hidratação das cumeadas, para controlar a erosão, promover a protecção da bacia hidrográfica superior e o restauro do ciclo da água.
Agora no terreno, após um incêndio que quase deitou por terra o sonho, o colectivo procura resgatar algumas coisas e preparar-se para o reerguer da Corte Medronheira. E, apesar de tudo, diz Xana, com um sorriso triste na voz, ainda encontrou algumas coisas que lhe dão alento: “Os meus budas [do tempo em que viveu em Macau] apareceram todos”, diz. “Vou tentar olhar de novo para aquilo [os destroços] e tenho ainda esperança que haja outro buda e uma estátua da deusa Kun Iam.”
Recorde-se que três dos co-proprietários, Xana Piteira, Patrícia Russo e Hugo Oliveira foram fundadores da naTerra, uma associação criada para desenvolver a educação para o desenvolvimento sustentável, em 2005, em Macau.











