Vento intenso, inundações e possíveis cortes de energia: Ragasa está prestes a passar por Macau

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FOTOGRAFIA PEDRO ANDRÉ SANTOS

O tufão mais intenso do ano já está a afectar Macau. O primeiro sinal de alerta foi emitido ontem à tarde, mas as autoridades estimam que o momento de maior proximidade ocorra entre a madrugada e a manhã de quarta-feira, altura em que o território deverá ser assolado por chuvas, trovoadas e ventos com intensidade de furacão. Face ao risco elevado de inundações nas zonas baixas da cidade – que poderão resultar em consequências semelhantes às do Hato, de 2017 – é possível que certas áreas sejam afectadas por cortes no abastecimento de água e energia.

O super tufão Ragasa continua a aproximar-se de Macau a um “ritmo relativamente rápido”, trazendo consigo chuvas intensas, trovoadas e ventos fortes e prolongados, que poderão atingir ou ultrapassar o nível 12 (classificado como “furacão”) na escala de Beaufort.

O primeiro sinal de alerta foi içado ontem pelas 15h, quando a área de influência do sistema entrou a menos de 800 quilómetros de Macau. Hoje, entre as 16h e as 19h, será emitido o sinal de alerta n.º 8, que deverá depois evoluir para o alerta máximo. O momento de maior proximidade do Ragasa com a foz do Rio das Pérolas acontecerá entre a madrugada e a manhã de quarta-feira, quando também se intensificará o risco de aumento significativo do volume de água resultante de ‘storm surge’.

A Direcção dos Serviços Meteorológicos e Geofísicos (SMG) não descarta a possibilidade de que o super tufão passe a menos de 100 quilómetros de Macau, com ventos que poderão ultrapassar a escala convencional de Beaufort, compreendida até ao nível 12 de “furacão”. “Os residentes de edifícios altos devem estar atentos aos graves impactos que podem resultar de ventos de nível de furacão ou superiores”, alertam as autoridades. Por outro lado, as zonas baixas estão sujeitas à “possibilidade de inundações comparáveis às ocorridas durante os tufões Hato e Mangkhut”, prevendo-se que o nível das águas possa subir até cinco metros de altura.

Estabelecendo uma comparação entre o Ragasa e os referidos tufões, importa recordar que o Hato, em 2017, bateu os recordes relativos à velocidade e às rajadas de vento (132 km/h e 217,4 km/h, respectivamente). Ontem à tarde, de acordo com dados disponibilizados pelos SMG, o vento máximo no centro da tempestade era de 225 km/h.

AULAS, VIAGENS MARÍTIMAS E VOOS SUSPENSOS

Como é habitual aquando da emissão do sinal n.º 3 de tempestade tropical, as aulas dos ensinos infantil, primário, secundário e especial estarão suspensas entre hoje e amanhã.

Em comunicado divulgado ontem, a Direcção dos Serviços de Educação e de Desenvolvimento da Juventude (DSEDJ) apelava para que todas as escolas de Macau acompanhassem “atentamente as informações meteorológicas divulgadas pelo Governo da RAEM”, implementassem “medidas de prevenção de catástrofes e precauções contra ventos fortes e inundações” e permanecessem vigilantes. Também os pais, encarregados de educação e alunos foram aconselhados a evitar deslocações durante a passagem do tufão e a priorizar a segurança “acima de tudo”.

Ontem à tarde, em preparação para a intensificação do mau tempo no território, foram suspensas todas as viagens marítimas entre o Porto Interior de Macau para Zhuhai, Hong Kong e Shenzhen. A Direcção dos Serviços de Assuntos Marítimos e de Água (DSAMA) informou que estes itinerários permanecerão suspensos até novo aviso em contrário, sendo possível consultar a aplicação “Informação Marítima de Macau” para obter as informações mais recentes sobre o ponto de situação do tráfego marítimo.

Um comunicado da Sociedade do Aeroporto Internacional de Macau previa ainda que cerca de 250 voos fossem afectados pelo tufão, num período que se estendia desde a tarde de hoje até ao início de quinta-feira. No entanto, pelo menos dois voos foram cancelados na noite de ontem: um com destino à cidade chinesa de Ningbo e outro com destino a Banguecoque, na Tailândia.

POSSÍVEIS INTERRUPÇÕES NO ABASTECIMENTO DE ÁGUA E ENERGIA

O elevado risco de inundações nas zonas baixas da cidade levou a Companhia de Electricidade de Macau (CEM) a anunciar que, caso se justifique, poderá “tomar a iniciativa de suspender o fornecimento de energia” nestas áreas, a fim de “garantir a segurança pessoal e patrimonial dos cidadãos”.

Uma lista publicada pelo organismo indica que, para além de “algumas zonas costeiras”, estas deverão ser as principais áreas afectadas por potenciais inundações: Ilha Verde, Canal das Hortas, Túnel das Portas do Cerco, Avenida Norte do Hipódromo, Tói Sán, Mercado Municipal do Bairro Iao Hon, Fai Chi Kei, Canídromo de Macau, Mercado Vermelho, Lam Mau, Patane, San Kio, Rua da Restauração, Rotunda dos Três Candeeiros, Avenida de Horta e Costa, Porto Interior, Templo do Bazar, Avenida de Almeida Ribeiro, Templo do Bazar, Zona do Terminal Marítimo de Passageiros do Porto Interior, Praça de Ponte e Horta, Praia do Manduco e Barra.

A Direcção dos Serviços de Protecção Ambiental (DSPA) e a CEM garantem ter concluído a “instalação de comportas em cerca de cem subestações de energia eléctrica” e preparado “uma reserva suficiente de materiais de emergência para assegurar a rápida mobilização e utilização em situações de emergência”.

Em paralelo, a DSAMA diz ter inspeccionado todas as estações de tratamento de água do território e coordenado a implementação de diversas medidas de contingência, como a instalação de painéis de retenção de água nas instalações essenciais de produção das Estações de Tratamento de Água da Ilha Verde e do Reservatório Principal. Enquanto o tufão afectar a região, estarão também em serviço equipas de tratamento de água e de rede de distribuição que se responsabilizarão por garantir uma resposta imediata a eventuais avarias ou problemas relacionados com a distribuição de água.

Apesar das precauções das autoridades, os residentes são aconselhados a preparar recursos de resposta a um eventual corte no fornecimento de água e electricidade como um estojo de primeiros socorros, lanternas ou fontes de energia móvel. A DSAMA aconselha ainda o armazenamento antecipado de “uma quantidade adequada de água para consumo doméstico, incluindo água potável”.

Recorde-se que Macau se encontra, actualmente, sob alerta amarelo para temperaturas altas, com máximas que hoje podem atingir os 33 graus Celsius. Os Serviços de Saúde já alertaram para o risco de hipertermia e apelaram para que a população reforce o consumo de água ou de bebidas com electrólitos – acrescendo, assim, a necessidade de manter reservas suficientes de água potável em casa.

Ao longo do dia de ontem, os supermercados de Macau registaram uma forte afluência de clientes à procura de garrafas de água e alimentos, motivados pela incerteza dos próximos dias. Para além de água, os bens mais procurados foram alimentos enlatados e congelados, massa instantânea e bolachas. Nas redes sociais, multiplicaram-se publicações em que era possível ver prateleiras vazias e longas filas de clientes nas caixas, bem como estafetas de transporte de comida a carregar dezenas de embalagens de papel higiénico e garrafas de água.