Fenómenos climáticos extremos e emissões de gases de efeito de estufa aumentaram em 2024

0
104
FOTOGRAFIA ELOI CARVALHO

 

A Direcção dos Serviços de Protecção Ambiental (DSPA) divulgou ontem o relatório do Estado do Ambiente de Macau 2024, a propósito da comemoração do Dia Mundial do Ambiente. O organismo revela que, ao mesmo tempo que o fluxo de turistas e o desenvolvimento económico da região continuam a crescer, alguns indicadores ambientais – como as emissões de gases com efeito de estufa, o consumo de água e electricidade e a quantidade de resíduos sólidos urbanos – têm vindo a piorar. As alterações climáticas também desempenham um papel relevante nos fenómenos meteorológicos extremos que se verificaram em Macau em 2024, ano em que a cidade voltou a atingir um recorde máximo de temperaturas.

 

Ontem, no Dia Mundial do Ambiente, a Direcção dos Serviços de Protecção Ambiental (DSPA) publicou o relatório do Estado do Ambiente de Macau relativo ao ano de 2024. Segundo indica o documento, o crescimento da economia e do número de turistas a visitar a região resultou num maior consumo de recursos e numa pressão acrescida em vários indicadores ambientais, que aumentaram face ao ano anterior de 2023. Por outro lado, a quantidade da recolha de resíduos recicláveis, o número de veículos eléctricos e a área dos espaços verdes aumentaram em termos anuais.

Numa nota de abertura, o secretário para os Transportes e Obras Públicas, Tam Vai Man, reconhece que “o caminho para a transição verde com baixas emissões de carbono é longo e desafiante”, mas garante que o Governo continuará a contribuir “para a construção da Grande Baía (…) como uma zona pioneira no desenvolvimento de uma China bela e sustentável”. “O desenvolvimento verde é actualmente uma tendência global e o caminho a seguir para o progresso da sociedade contemporânea”, salientou.

O relatório encontra-se dividido em sete capítulos que incidem sobre vários dados recolhidos em Macau no ano passado, desde a evolução socioeconómica do território ao investimento das entidades e empresas na área ambiental.

 

AUMENTO DO TURISMO TEM IMPACTO AMBIENTAL

 

Se o ano de 2023 foi um período de normalização socioeconómica, após as restrições fronteiriças impostas pelo Governo até final de 2022, o ano de 2024 foi marcado pela recuperação quase total dos níveis turísticos pré-pandemia. Ao longo do ano passado, o número de visitantes aumentou 23,8% em termos anuais, para 35 milhões, e o produto interno bruto (PIB) local registou uma subida de 8,8%.

Com a melhoria da economia e a recuperação do sector turístico, aumentaram também as emissões locais estimadas de gases com efeitos de estufa (GEE), o volume de água facturada, o consumo de electricidade e os resíduos sólidos urbanos. Todos estes indicadores ambientais registaram aumentos entre os 5,1% e os 5,6% comparativamente ao ano anterior de 2023.

“Dado que o crescimento da economia exerce pressão sobre vários indicadores ambientais, deve-se ter em conta o uso eficaz dos recursos e a protecção do ambiente durante o desenvolvimento” dos sectores económico e turístico, frisa o relatório da DSPA, sugerindo a “promoção do desenvolvimento da economia verde, da economia circular e de tecnologias inovadoras” como estratégias para “acelerar a transição verde e para formar uma nova força motriz para o desenvolvimento urbano”.

 

2024 FOI O SEGUNDO ANO MAIS QUENTE DE SEMPRE

 

A ocorrência de fenómenos meteorológicos extremos em Macau atingiu um nível recorde no ano de 2024 – o ano mais quente desde que há registo, a par com 2019. A temperatura média da região (23,6 graus Celsius) e o número de dias muito quentes (42) situaram-se acima da média climática, ao mesmo tempo que se verificou um aumento ligeiro da precipitação total e da média anual da subida do nível do mar. O relatório destaca ainda que, das sete tempestades tropicais a atingir Macau no ano passado, três ocorreram em Novembro, estabelecendo um novo recorde de tufões tardios na região.

Também a qualidade do ar piorou em comparação com 2023. O número de dias em que a qualidade média do ar registado nas seis estações de monitorização de Macau foi classificada como “boa” ou “moderada” desceu três pontos percentuais, ficando-se pelos 88%. No sentido inverso, contabilizaram-se entre 15 a 35 dias em que o ar foi descrito como “insalubre” (contra os sete a 32 dias do ano passado), enquanto o número de dias com a classificação de “muito insalubre” subiu para dois dias. As concentrações médias de ozono (O3) chegaram, inclusive, a ultrapassar os valores padrão em alguns dias, numa tendência contrária à dos restantes poluentes, que apresentam uma trajectória de descida.

Os gases de escape emitidos pelos transportes são um dos principais poluentes atmosféricos de Macau, problema que o Governo da RAEM tem procurado minimizar com políticas relativas à promoção do uso de veículos eléctricos. No ano passado, este tipo de veículos cresceu em quase 50%, sendo que a proporção do consumo de energia eléctrica – oriunda, principalmente, do interior da China – já representa 70,4% do total da energia de Macau.

Rumo aos objectivos da “Dupla Meta de Carbono”, o relatório aponta ainda a importância da “promoção do desenvolvimento das energias renováveis, instalando-se, de forma progressiva, sistemas fotovoltaicos de produção de energia eléctrica nos edifícios públicos que reúnam as condições necessárias, e estudando-se o desenvolvimento da tecnologia do hidrogénio e sua aplicabilidade em Macau”.

 

SECTOR COMERCIAL É O QUE CONSOME MAIS ÁGUA

 

Quanto à qualidade dos recursos hídricos, o relatório da DSPA indica que a salinidade da água se manteve no índice verde – ou seja, de baixo teor de salinidade – em 2024, comprovando a tendência dos últimos dez anos. Também o valor médio anual do teor de cloretos diminuiu quase 19% em termos homólogos, permanecendo “muito abaixo” dos limites máximos estabelecidos.

No ano passado, o volume de água facturada aumentou 5,6% face a 2023 – impulsionado, sobretudo, pelos sectores do turismo e do entretenimento, como é possível verificar pela amplitude de aumento nos Aterros do Cotai. O aumento foi transversal a todas as categorias, observando-se as maiores subidas nos grupos de utilização pública e indústria. A DSPA destaca ainda o aumento significativo do volume de água consumido pelo sector comercial, que já ultrapassou o consumo do sector doméstico.

Relativamente à qualidade das águas das áreas marítimas, salienta-se que, em 2024, o índice global de avaliação da qualidade da água e o índice de avaliação da exposição não metálica em toda a área marítima de Macau subiram cerca de 21% em relação a 2023. O volume médio diário total das águas residuais tratadas em Macau demonstrou igual tendência crescente, com um aumento de 4,2% em comparação com 2023.

 

TRATAMENTO DE RESÍDUOS “SOB PRESSÃO”

 

No relatório, verifica-se que, em 2024, a quantidade de resíduos sólidos urbanos descartados e a sua quantidade per capita aumentaram 5,1% e 4%, respectivamente. A DSPA explica que factores como “o crescimento da população, a construção urbana e o desenvolvimento da indústria do turismo, entre outros, agravaram a pressão sobre o tratamento de resíduos urbanos de Macau” e justificam a ligeira descida registada na taxa de recolha de resíduos recicláveis, fixada em 21,7%.

Neste capítulo, lê-se que a quantidade de resíduos de materiais de construção teve um aumento de 13,5% face a 2023, ao passo que a quantidade de resíduos especiais e perigosos teve uma queda de 0,9%.

O organismo relembra que o Governo concluiu a construção da terceira fase da Central de Incineração de Resíduos Sólidos de Macau e que está, actualmente, a avançar com os trabalhos de construção do Centro de Recuperação de Resíduos Orgânicos, “a fim de transformar ainda mais resíduos em energia”. Em paralelo, continuam a ser encetados esforços para “optimizar a rede de reciclagem, disponibilizado mais instalações de reciclagem na comunidade”.

 

MAIS ESPAÇOS VERDES, MAS MENOS AVES PROTEGIDAS

 

O relatório da DSAL revela um aumento do número de espaços verdes urbanos sob a gestão do Instituto para os Assuntos Municipais (IAM), sobretudo aqueles criados nas vias rodoviárias. Este crescimento foi particularmente expressivo no campus da Universidade de Macau, na Ilha de Hengqin e nos Aterros do Cotai.

No ano passado, foram avistados 33 colhereiros-de-cara-preta nas Zonas Ecológicas do Cotai, descritas como “uma das zonas húmidas mais preciosas de Macau, que oferecem habitats para numerosas espécies de zooplâncton, organismos bentónicos, peixes, insectos e aves”. No ano anterior de 2023, tinham sido avistados 19 animais desta espécie, objecto de protecção especial na China.

Tanto o número de certificados de importação e de reexportação de espécies ameaçadas de extinção como o número de processos instaurados por violação da Convenção sobre o Comércio Internacional das Espécies de Fauna e Flora Selvagens Ameaçadas de Extinção (CITES) aumentaram 14,6% e 22,2%, respectivamente.

 

RUÍDO AMBIENTAL DIMINUI

 

No que respeita aos níveis de ruído, o relatório mostra que os valores se têm mantido estáveis ao longo dos últimos anos. Ainda assim, no ano passado, houve uma ligeira diminuição do ruído ambiental, ao mesmo tempo que as Zonas Ecológicas apresentaram uma tendência crescente devido ao desenvolvimento da área circundante – por exemplo, o início da operação regular do Metro Ligeiro.

A DSPA tem seis estações de monitorização do ruído ambiental – Avenida de Horta e Costa, Rua Cidade de Braga, Rua Correia da Silva, Zonas Ecológicas, Seac Pai Van e Areia Preta – e a média dos valores registados no ano passado foi de 65,78 decibéis (dB(A)). Em 2023, a média das seis estações de monitorização foi de 66,41 dB(A).

As queixas recebidas pelos serviços públicos sobre ruído excessivo aumentaram ligeiramente em relação ao número de 2023, continuando a predominar as categorias “conversação e gritos”, “música e karaoke” e “obras de construção”.

 

DESPESAS COM A PROTECÇÃO AMBIENTAL CAÍRAM 5,3%

 

O relatório fez, por fim, as contas às despesas públicas do Governo da RAEM relativas à protecção ambiental. Segundo a DSPA, o Governo gastou, no ano passado, perto de 1,9 milhões de patacas, representando 2% do total das despesas e um decréscimo de 5,3% face ao período homólogo do ano precedente.

“As despesas destinaram-se, principalmente, às obras de construção e modernização das instalações de reciclagem e tratamento de águas residuais e de resíduos sólidos, às obras de construção das instalações de tratamento de materiais recicláveis, à operação e manutenção das actuais infra-estruturas ambientais e ao lançamento de estudos e projectos relativos à protecção ambiental, entre outros”, lê-se, no documento.

A promoção da gestão ambiental junto das empresas é outro foco prioritário da DSPA, garante a entidade, fazendo notar que mais 17 hotéis foram galardoados na 18.ª edição do “Prémio Hotel Verde Macau”. No mesmo ano, houve mais três instituições de Macau a obter a certificação do sistema de gestão ambiental ISO14001, norma que garante o compromisso das empresas para com o desempenho ambiental e a sustentabilidade.

É ainda dedicada uma palavra às actividades de sensibilização e divulgação ambiental organizadas pela DSPA e pelo IAM, cujo número de participantes e de entidades co-organizadoras aumentou face a 2023, ao mesmo tempo que as despesas com as actividades diminuíram.

Debruçando-se sobre a cooperação regional no âmbito do ambiente, o relatório diz que “Macau continuará a desenvolver as suas vantagens, a integrar-se activamente no desenvolvimento nacional, a participar na construção da Grande Baía Guangdong-Hong Kong-Macau, a aprofundar a cooperação e o intercâmbio com outras cidades da Grande Baía e a promover o desenvolvimento da gestão ambiental regional, construindo, em conjunto, uma cidade e um ambiente ecológico natural com mais qualidade”.

 

C.B.